por Luiz Henrique Gurgel |
Mando um abraço pra ti, pequenina
“Nesse deserto de homens e ideias, venha para a boate Oásis”. O criativo slogan é de uma casa famosa que existiu em São Paulo entre os anos 50 e 60 do século passado. O esperto publicitário aproveitou a frase falastrona de um figurão da época, o embaixador Oswaldo Aranha, típica personagem da república dos bacharéis, dos dotô, dos “sabe com quem está falando?”, que cunhou a pérola “O Brasil é um deserto de homens e ideias”. Foi a deixa para o marqueteiro.
A vida que vale a pena é aquela que gente tenta tocar fora da caixa. Nunca fui a essa boate, eu nem existia naquela época. Esse enorme nariz de cera – como a gente chama em jornalismo essas introduções que não dizem nada — foi só para lembrar que faz uns dez dias estive num oásis verdadeiro, cheio de mulheres, homens, ideias, histórias, versos e principalmente afetos. Foi na Festa Literária de Silveiras, a Flis, cidade do Vale do Paraíba paulista, ali na tríplice fronteira entre São Paulo, Rio e Minas. É uma das portas de entrada da Serra da Bocaina e do chamado Vale Histórico, região cheia de centenárias e monumentais fazendas de café, terra de tropeiros. Por ali a rubiácea entrou no Estado de São Paulo.
Uns abnegados resolveram festejar a literatura por lá também, esta foi a terceira edição e aconteceu entre 28 de fevereiro e 01 de março.
É bom encontrar gente que gosta de conversar, de contar, ouvir histórias, trocar fantasias, utopias, poesia. Ainda teve espaço para falar das realidades ruins do tempo presente, buscar estratégias de sobrevivência e de enfrentamento por meio da literatura, essa coisa meio indefinida que provoca ao mesmo tempo êxtase e reflexão e que nos convida a olhar para o mundo e para as pessoas de um jeito diferente.
Afeto é contagiante. Quando a gente distribui, em geral recebe também. Há exceções, é verdade. Mas na Flis a gente trocava e isso nos fazia mais desenvoltos, alegres, criativos, dispostos. Havia algo enredando todo mundo, escritores, leitores, curiosos, ouvintes... turistas.
Mesmo que seja verdade que para fazer literatura é preciso um bocado de tristeza - coisa que a Inteligência Artificial não tem — também é verdade que a criação provoca alegria e prazer. Na literatura, tanto quanto no samba, é a tristeza que balança, mas ela tem sempre a esperança de um dia não ser mais triste não (obrigado, Vinícius de Moraes).
A pergunta não é nova e tampouco já foi respondida satisfatoriamente: afinal, para que serve a Literatura? Do mesmo modo também não vi nada pleno quando se pergunta a escritores e escritoras a razão por que escrevem. Sempre tartamudeiam, engasgam, param para pensar, dão um risinho sem graça. Há aqueles que respondem convictamente. Não me convencem. “Deixo a certeza para os fracos”, diz um personagem do romance Tudo sobre Deus, do angolano Agualusa. Por isso existem tantas e variadas respostas sobre essas questões.
Gostei dessa: “Escrevo porque tenho medo de escrever, mas tenho um medo maior de não escrever”, disse a escritora ‘chicana’ dos EUA, Gloria Anzaldúa.
Eu não sei bem o que é literatura, tenho uma vaga desconfiança, mas sei o que ela provoca em mim. E a Flis me tirou um pouquinho mais de mim mesmo, me aproximou de outros, reforçou afetos. Mesclou conversas profundas com papos soltos e descontraídos. Encerrou com uma beleza da terra, a Folia de Reis do Seu Ditinho tocando sanfona, da dona Teresa batendo a caixa, do seu João Noel e do Vicente Mendes na viola bem chorada, gente lá do Sertão dos Marianos, nos sopés da Serra da Bocaina.
Essa mescla entre o passado presente e o tempo presente, entre o local escondido nos confins do sertão serrano e o universal fizeram da Flis um momento para lá de especial a permanecer na memória. Por isso fui lá. E isso valeu a pena.
Agora, daqui de longe, fora da caixa e cheio de saudades, eu mando uma abraço pra ti, pequenina.
Luiz Henrique Gurgel é jornalista, professor e pesquisador. Mestre em Literatura Brasileira pela USP, é autor do livro de contos “amores malfadados” (Ed. Primata, 2020) e “Porque era ele, porque era eu e outras quase histórias” (Caravana Editorial, 2023).


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