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Domingo é sempre assim, crônica de Raphael Cerqueira Silva

 por Raphael Cerqueira |


Foto de Anand Ramavath na Unsplash

Domingo é sempre assim

As sapucaias, rosadamente desabrochadas, saúdam o derradeiro domingo de outubro. E que domingo! Depois dos quase cinquenta tons de cinza da semana, o sol decidiu — enfim — adornar o dia. Vou pela calçada, admirando a natureza através do gradil, atento à sinfonia de bem-te-vis, sabiás, sanhaços, joões-de-barro. Mamãe pata e seus filhotes volteiam pelo lago, onde frondosas árvores se deixam refletir no verde-musgo; um solitário tucano avoa entre as copas; aos pés de uma escultura em ferro fundido, um casalzinho se entretém com coisas do amor.

O Google informa que, daqui até o hotel onde me hospedei, são 2,8 km. Vou a pé ou chamo um carro? Olho novamente a rua: poucos — e grosseiros — carros estrangulam o sossego da tarde. Fortes, quase indecentes, os raios de sol bolinam o telhado da velha estação. Um rapazinho, de short rosa e cropped branco, passa por mim ao celular e, sem o saber, me estimula a caminhar. 

Na esquina, uma menina risonha, de mão dada com a mãe, leva um balão metalizado, desses de gás. “De repente, não mais que de repente”, justo quando o rapazinho passa, o balão explode em fumaça roxa. 

— Aiiiiii! Puta que pariu, me sujou tudo! Ó só isso! E agora, caralho?!

Mãe e filha correm desembestadas calçada afora. Tentando conter o riso, apresso o passo.

O colégio — portão e janelas fechados — modorra ao sol. Na escadaria da Glória, rogo perdão pelo que pensei ainda há pouco. Piso as flores murchas do canteiro e, desejando o corpo jovial e esbelto que corre pra alcançar o ônibus, tropeço numa peleja misturada ao monte de papelão.

Um entregador roça o guidom no meu braço; sem olhar pra trás, larga um incômodo: 

— Foi mal, tio. 

E vai pedalando desesperadamente em busca das tão almejadas estrelinhas do aplicativo — quiçá, duma gorjeta.

Sinto fome. Logo hoje, que almocei pouco, não apareceu um ambulante no parque — e as frituras da lanchonete, sinceramente, não me inspiraram confiança. Adiante, talvez, encontre algo pra comer.

Na entrada do Ritz, uma tela pintada a óleo sacia meus olhos. O estômago, contudo, exige alimento mais mundano. Avisto, felizmente, luz no fim do entardecer: as pipocas do Ebenezer! Compro, no crédito, o pacote maior.

Uma pomba — dessas de pescoço ordinariamente esverdeado — me encara. Ou encara o que tenho na mão? Às grades do fórum, pergunto onde diabos esses bichos conseguem alimento nos dias inúteis. Um cântico pio — não sei se protestante ou católico — me enleva o espírito. Largo algumas pipocas no chão.

Queria sentar num banco, esperar o anoitecer. Mas o quiproquó entre uns noiados ali, diante do busto do suposto fundador da cidade, muda meus planos.

Volto ao hotel. Entre os brônzeos e negros leões, um rapaz de bigodinho à la Diego de la Vega aguarda. O carro do aplicativo? A namorada? O namorado, talvez? 

As pipocas chegam ao fim. 

Ereto, celular na mão, ele continua à espera.

Agora tenho sede — muita sede.

Resolvo entrar. Debruçado na janela do décimo primeiro andar, tomando uma coquinha bem gelada, talvez descubra com quem este jovem seguirá o seu caminho.



Raphael Cerqueira Silva, é mineiro de São Geraldo, servidor público, graduado em Direito e História, e cronista nas revistas Vicejar e Conhece-te. Publicou Confissões, livro de contos, e A Vida Segue, livro de crônicas.