Drag queens Sara e Nina lançam álbum com releituras do cancioneiro romântico brasileiro
As drag queens cantoras Sara e Nina voltam a explorar as dores do amor em seu novo trabalho discográfico. O álbum Com Lágrimas nos Olhos, terceiro da dupla, chega às plataformas digitais no dia 13 de março, aprofundando a investigação musical iniciada no disco anterior, Minhas Mulheres Tristes (2023), que ganhou edição especial em vinil em 2025.
O novo trabalho revisita oito canções que marcaram o repertório de grandes vozes femininas brasileiras entre as décadas de 1970 e 1990. O repertório reúne interpretações originalmente consagradas por artistas como Alcione, Fafá de Belém, Zizi Possi, Diana, Martinha e Jurema, intérpretes que imprimiram intensidade dramática e emoção às composições que atravessaram gerações.
Segundo Nina Bellohombre, personagem drag do cantor, ator e diretor Alessandro Brandão, o álbum apresenta uma abordagem diferente das “fossas” clássicas revisitadas no trabalho anterior. “Aqui, as personagens estão mais potentes, mais conscientes de si, reagindo às dores sem tanta tragédia. É um repertório que emociona porque, além do choro, traz ternura, fortalecimento e reconstrução”, explica.
Formada em 2014, a dupla lançou o álbum de estreia Céu de Framboesa em 2021 e vem desenvolvendo uma trajetória que combina interpretação musical, teatralidade e reflexão sobre gênero e identidade. A ideia inicial para o novo projeto era criar um disco mais solar, intitulado Momentos Felizes, reunindo sucessos mais leves da música romântica brasileira. No entanto, durante a pesquisa, Sara e Nina acabaram mergulhando novamente em canções marcadas pela intensidade sentimental.
O repertório do álbum parte de escolhas afetivas e conscientes. Entre as faixas está “Nuvem de Lágrimas”, clássico interpretado por Fafá de Belém que abre o disco. Também aparecem “Caminhos de Sol”, conhecida na voz de Zizi Possi, “Porque Brigamos”, versão em português de “I Am… I Said”, de Neil Diamond, gravada por Diana, além de “Bilhete”, “O Que Eu Faço Amanhã”, “Qualquer Dia Desses” e “Cilada”, popularizada por Martinha.
Um dos destaques do álbum é “Velhopapodailusão”, originalmente gravada por Jurema e redescoberta pela dupla a partir de um vinil do acervo familiar de Alessandro Brandão. Na nova versão, a canção surge transformada em um samba-funk, encerrando o disco.
A produção musical e os arranjos são assinados por Jader Marques de Oliveira, o Jadeco, responsável por atualizar as canções e criar unidade sonora entre as faixas. A proposta é revisitar essas composições sob novas camadas rítmicas e timbrísticas, aproximando o repertório de sonoridades contemporâneas.
Para Sara Bellohombre, drag interpretada pelo ator e cantor Gabriel Sanches, o projeto também se propõe a homenagear cantoras que marcaram um período em que o mercado fonográfico brasileiro era predominantemente masculino. A escolha do repertório conversa diretamente com a proposta artística da dupla, que aborda corpos dissidentes, identidade de gênero e deslocamentos culturais.
A decisão de incluir canções menos lembradas da memória popular também foi deliberada. Muitas dessas músicas, embora tenham sido grandes sucessos em seu tempo, hoje são raramente revisitadas e ainda carregam rótulos como “brega” ou “cafona”. Para a dupla, resgatar essas obras é uma forma de ressignificar o cancioneiro romântico brasileiro e apresentá-lo a novas gerações.
No projeto, a estética drag aparece como elemento central da interpretação artística. Para Nina Bellohombre, a performance drag amplifica emoções e intensifica a narrativa das canções. “Estar em drag é trabalhar no superlativo. É colocar uma lente de aumento nas emoções”, afirma.
Entre as referências estéticas da dupla estão a dramaticidade de Nelson Rodrigues, a teatralidade coreográfica de Pina Bausch e o universo colorido e afetivo dos personagens de Pedro Almodóvar. A combinação dessas influências transforma o drama amoroso em gesto performático, no qual ironia, humor e reflexão convivem com a intensidade sentimental das músicas.
Entre lágrimas, exageros e delicadezas, o disco transforma o sofrimento amoroso em experiência estética e em convite para ouvir, sentir e repensar o repertório afetivo da música popular.
O lançamento do álbum conta com patrocínio da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, da Secretaria Municipal de Cultura e da EVO, por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura (Lei do ISS). A dupla também prepara o show de estreia do projeto para abril.
Sara e Nina - Com Lágrimas nos Olhos (2026)
01 - Nuvem de Lágrimas (Paulo Rezende / Paulo Debétio) - Fafá de Belém
02 - Porque Brigamos - (Neil Diamond /vers. Rossini Pinto) - Diana
03 - Bilhete - (Ivan Lins / Vitor Martins) - Fafá de Belém
04 - O que eu faço amanhã (José Augusto / Miguel) - Alcione
05 - Caminhos do sol (Herman Torres / Salgado Maranhão) - Zizi Possi
06 - Qualquer dia desses (Reginaldo Bessa) - Alcione
07 - Cilada (Sidney Giacometti / D’Carlo) - Martinha
08 - Velhopapodailusão (Carlos Barbosa / Dom Mita) - Jurema
Intérpretes - Sara Bemdeu e Nina Bellohombre
Produção musical e arranjos: Jader Marques de Oliveira (Jadeco)
Produção executiva: CAJA Arquitetura Cultural
Idealização - HaZuQ Produções Artísticas
Fotos: Betina Polaroid
Figurinos: Fernando Viana
Sobre Sara e Nina
Sara e Nina são duas cantoras que fazem da arte um veículo de transformação. Juntas, construíram uma trajetória artística e musical marcada pelo engajamento e pelo diálogo com questões de gênero e sexualidade. Apresentam-se como dupla desde 2014.
Ganharam destaque com o show Minhas Mulheres Tristes (2016), no qual homenageiam canções eternizadas por vozes femininas da música brasileira entre as décadas de 1940 e 1970. Em 2016, integraram o elenco do longa-metragem Berenice Procura, dirigido por Allan Fiterman. No ano seguinte, participaram da novela Pega Pega (2017), da TV Globo, escrita por Claudia Souto e dirigida por Luiz Henrique Rios.
Em 2018, levaram ao Congresso Nacional a performance TRANSBRSÍLIA, em que cantaram e reivindicaram direitos e representatividade para a população LGBTI+. Pelo trabalho de ampliação das vozes em defesa da igualdade de gênero e dos direitos sociais da população LGBT+, receberam Moção de Louvor e Congratulações concedida por David Miranda na Câmara Municipal do Rio de Janeiro. No mesmo ano, realizaram uma importante fala no TEDx da FCMMG, em Belo Horizonte, sobre humanidade e diversidade.
Também em 2018, lançaram o single Movimento de Translação. Em 2021, apresentaram os singles Céu de Framboesa e A História de Mafalda e, ainda nesse ano, o álbum Céu de Framboesa, com canções autorais. O clipe de A História de Mafalda recebeu sete prêmios de melhor música e melhor clipe em festivais internacionais.
Em 2023, lançaram o segundo álbum, Minhas Mulheres Tristes. Para 2026, preparam o lançamento do terceiro disco, Sara e Nina com Lágrimas nos Olhos.
O trabalho da dupla propõe reflexão social e promove a conscientização da liberdade como potência humana, tendo a empatia como princípio para enfrentar e erradicar intolerâncias


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