por Cibele Laurentino |
Envelhecer é recomeçar: a coragem de existir no tempo em “Quando eu era velha”
Há livros que não pedem licença, eles entram. Invadem a memória, cutucam a vaidade, desarmam certezas. Quando eu era velha, de Fernanda Pompeu, é exatamente esse tipo de obra: um convite desconcertante a olhar para o tempo não como fim, mas como matéria viva, em constante reinvenção.
A narrativa acompanha Lívia, uma jornalista aposentada que recebe uma proposta curiosa: escrever sobre o envelhecimento. O que poderia ser apenas um projeto profissional transforma-se em travessia íntima. Entre lembranças da infância, o susto diante das primeiras rugas e os silêncios que pesam mais do que qualquer dor física, Lívia percorre não apenas ruas e rostos, mas também os territórios invisíveis da existência. Ela observa o mundo, inclusive o digital, e, nesse movimento, descobre que ainda há pulsações onde se supunha desgaste.
A escrita de Fernanda Pompeu é delicada e, ao mesmo tempo, incisiva. Há uma liberdade quase indomável em sua pena, como se o texto se recusasse a obedecer às expectativas de um discurso linear sobre o envelhecer. Aqui, não há fórmulas prontas nem consolos fáceis. O tempo não é romantizado, mas também não é tratado como inimigo. Ele é, antes de tudo, um campo de experiência.
O grande mérito da obra está em romper com a ideia de velhice como declínio. Ao contrário, o livro sugere que envelhecer pode ser um deslocamento de perspectiva, uma espécie de reinício menos ingênuo, porém mais consciente. Lívia não se curva ao tempo, ela o observa, o questiona, o escreve. E, ao fazê-lo, reescreve a si mesma.
A própria autora se apresenta de maneira singular, recusando rótulos convencionais. Define-se como parte da espécie homo sapiens sapiens, alguém programado pelas relações, pela cultura e pela experiência vivida. Ao se colocar nesse lugar profundamente humano, em contraste com a lógica das inteligências artificiais, Fernanda Pompeu reafirma a potência da consciência, da emoção e da imaginação como motores da escrita. Sua trajetória literária, que inclui obras como Escriba errante e microcontos sobre as marcas da ditadura, revela uma autora comprometida com as complexidades da existência.
Em Quando eu era velha, essa complexidade se intensifica. O livro não fala apenas sobre envelhecer, mas sobre o que permanece e o que se transforma quando o tempo avança. Fala sobre identidade, memória, corpo, linguagem e, sobretudo, sobre a urgência de narrar a própria vida antes que ela se dissolva no esquecimento.
Ler esta obra é, de certa forma, antecipar perguntas que todos nós teremos de enfrentar. E talvez a maior delas seja esta: em que momento começamos a envelhecer, e por que tememos tanto esse instante?
Fernanda Pompeu não oferece respostas definitivas. Em vez disso, nos entrega algo mais valioso: a possibilidade de enxergar o envelhecimento como um território fértil, onde ainda é possível começar, de novo e de outro jeito.
Para adquirir a obra Quando eu era velha, entre em contato com a autora pelo instagram @fernandapompeu.escritora ou na Amazon
Fernanda Pompeu - Carioca da gema, vivo em Sampa desde os meus 15 anos. Sou filha de gaúcha com cearense. Tenho 3 irmãs e 1 irmão. Não tenho filhos, mas notáveis 9 sobrinhos. Escritora sou várias. Pena de aluguel, pena de vocação. Redatora de sonhos, redatora de fatos. Não discuto com o texto. O que vier, por inspiração ou encomenda, eu escrevo.
Cibele Laurentino — Ativista cultural nascida em Campina Grande, Paraíba. Membro da Academia de Letras de Campina Grande e da UBE — PB. Bacharel em Letras, formada em Gestão em Turismo, divulgadora de autores contemporâneos. Idealizou o projeto Conversa com Escritores. Autora dos livros: "Cactus" (poesias); "Nobelina" (romance); "Todas em mim" (contos), traduzido e comercializado em espanhol pelo grupo editorial Caravana; “Eu, Inútil", romance premiado como melhor obra de ficção em Portugal no prêmio Ases da Literatura.

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