E sangra
Retirei o útero.
O médico, em seu tom solene de profeta ou semideus, me disse:
“Você nunca mais vai sangrar na vida”.
Sorri por um segundo, depois percebi a ilusão.
Quem dera suas palavras fossem verdade,
Mas o fato de não ter mais o sangue menstrual não significa nada.
Ele, em sua visão limitada de homem
Dificilmente compreenderá
De quantas tantas outras maneiras uma mulher pode sangrar
E sangra.
Previsões
Certamente morderei seus pés
Como se fossem um pãozinho francês
E cheirarei todo seu corpo de alfazema e hortelã
Meus dedos percorrerão cada dobrinha da sua pele
Com suaves coceguinhas que a farão sorrir
Haverá momentos em que ficarei irritada, cansada
Até mesmo exausta
Mas jamais desejaria a paz e calmaria sem você
Quando com você brigar, meu coração doerá mais do que o seu
A casa ficará repleta de brinquedos por todos os cantos
E não mais terei o poder do controle remoto.
Ouvirei 100 vezes a mesma canção
Assistirei 100 vezes o mesmo filme
Aquele mesmo que você já decorou as falas
Trançarei seus cabelos e farei marias-chiquinhas
Rezarei ao seu anjo da guarda
E pedirei ao céu saúde e vitalidade para vê-la crescer
Porque mesmo que você me ache por vezes chata e exigente
Ninguém nunca vai amá-la tanto quanto eu
Corpo padrão inalcançável
Para Juliana, in memoriam
Uma mulher morreu
Uma semana após uma cirurgia plástica
O sonho: abdominoplastia e silicone nos seios
O pesadelo: sete paradas cardíacas
Uma para cada dia da semana no qual seus filhos sentirão sua ausência
Não chegou aos 40
Não verá os filhos crescerem
O corpo agora está inerte
Em breve será apenas pó
Uma mulher jaz, sem vida
E no velório é julgada e culpada por sua vaidade
Mais uma vítima de uma sociedade patriarcal
Na qual a mulher nasce para ser um troféu para o homem
Para estar sempre insatisfeita consigo mesma
Nutrindo a indústria de cosméticos e estética
Ela tinha um sonho
Ela tinha uma vida
Um padrão inalcançável lhe roubou tudo isso.
Chorem, chorem por essa mulher.
Chorem pelos filhos órfãos,
Pelos pais sem filha,
Mas chorem ainda mais, porque ela não foi a primeira e não será a última.
Sobre a autora
Francine Cruz, nascida em Curitiba em 1984, tem 10 livros publicados e participação em dezenas de antologias. Em 2012 recebeu o prêmio Agente Jovem de Cultura do Ministério da Cultura. A autora integra diversos coletivos literários e é a criadora e apresentadora do Canal Senhora Literatura no Youtube. Seus textos já foram publicados no Brasil, Estados Unidos, Portugal, Argentina, Moçambique e Espanha.
Ficha técnica:
Título: (Sobre)Viver e morrer num corpo de mulher
Autora: Francine Cruz
Editora: TAUP
Preço: R$47,50
Onde comprar: clica aqui | clica aqui
Redes sociais:
Instagram: @francinecruzescritora

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