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Novamente | Davison da Silva Souza

 por Davison da Silva Souza | 

 

Foto de Yasin Onuş

Novamente 

Hoje é domingo, um dia que por si só já traz certa melancolia. O final de semana está nas últimas horas, a segunda-feira já está marcada para acontecer e, com ela, a repetição de uma rotina exaustiva que só trará respiro novamente na sexta-feira à noite. Eu aproveito o domingo deitado em uma rede de varandas azuis, estirada na sala de casa. Pela porta da frente consigo visualizar o céu, tão acinzentado que me chega como um aviso. 

Em minhas mãos tenho um livro de Conceição Evaristo, que ganhei de aniversário de uma amiga muito querida. Seguro-o com a delicadeza do pouso de um beija-flor; a cada nova página, animo-me ainda mais com a leitura. Embaixo da rede, há uma quente-xícara de café, feita naquela manhã opaca. A rede balança com o vento suave que corre pelas frestas da porta. No meu dispositivo móvel, uma playlist com os melhores bregas selecionados por mim, que, para além da boa música, me traz lembranças de uma pessoa amada. 

Conceição me diz logo na introdução do seu livro que “a arte chega antes de qualquer teoria”. É um pensamento profundo, pois há frases que tocam para além do cérebro: elas têm o poder de alcançar a alma. Sinto a minha sendo tocada com suavidade. Viro a página do livro para começar o primeiro capítulo e, em uma sincronia daquelas que só o destino parece ofertar, a música da playlist se encerra e outra começa, com uma melodia suave. 

Novamente é a música da vez, interpretada por Bartô Galeno. A letra conversa comigo. Na cozinha, minha mãe canta a canção enquanto prepara batata-doce, arroz branco, feijão-mulatinho e carne de porco. São muitos sentimentos. Paro, solto o livro em meu colo e escuto a letra. Nela, Galeno diz: 

“Novamente você me deixou sem dizer nada 

Novamente eu fiquei sem saber o que devo fazer 

Sua ausência maltrata demais minha vida em tudo 

O que eu quero do mundo é apenas viver com você 

Mas você se foi 

Sem nada me dizer” 

Em um silêncio-gritante, meu corpo se move em direção à saudade. Sinto como se, a qualquer momento, meu pai fosse abrir o portão, guardar a bicicleta, subir as escadas

pendendo e atravessar o corredor que leva à porta. Com um sorriso amarelo no rosto, vai me olhar e dizer: “E aí, meu nego?”. Vai passar pela rede e seguir até a cozinha para dar um cheiro em minha mãe, que o afastará por causa do seu hálito forte de cachaça Ypióca, mas sorrirá para ele com a cumplicidade que anos de casamento lhes garantiram, mesmo em meio às discordâncias e aos problemas conjugais. 

Retorno da sensação quando Bartô Galeno canta novamente e um novo trecho da canção começa. Ele diz: 

“Volte logo, pois o amanhã pode ser muito tarde 

E a saudade que eu sinto, meu bem 

Também pode morrer 

Volte logo, pois o amanhã pode ser muito tarde 

E a saudade que eu sinto, meu bem 

Também pode morrer” 

Meus olhos marejam. Águas salgadas escorrem; pesam toneladas. A voz embarga. Respiro fundo e fecho os olhos. Volto à sensação inicial: meu pai está parado na sala, vestido com uma camisa do Fortaleza Esporte Clube, com listras vermelhas e azuis, um uniforme clássico dos anos 1990. Seu cabelo cacheado escorre pela sua negra-pele e se mistura às marcas que o tempo lhe deixou no rosto. Levanto-me da rede num impulso e dou poucos passos até ele. Quando me aproximo, levanto a cabeça e olho em seus olhos. Percebo que ele está alto — mas, na verdade, quem se vê menino sou eu, protegido por ele. 

Sorrio e então pergunto: 

— Pai, quando o senhor vai voltar? 

Abro os olhos. Ainda é domingo. O livro de Conceição está no meu colo, a música terminou, o café debaixo da rede esfriou e a gola da minha camisa está molhada. Meus olhos não aguentaram o peso das lágrimas e as deixaram escorrer. Levanto-me da rede, caminho pela casa na esperança que o imaginário tenha se tornado real, mas ele não está. 

Novamente me sento na rede, abro o livro e retorno à leitura. A playlist continua, desta vez tocando Diana. O céu não está mais cinza, mas o café frio está mais amargo, minha mãe permanece na cozinha e eu permaneço com a saudade — diferente da música, essa não pode morrer.



Filho do seu José e da dona Maria, me chamo Davison da Silva Souza, mais um Silva, da periferia de Fortaleza. Mestre em Educação e Ensino (Maie-Uece), professor-alfabetizador da Rede Municipal de Ensino de Fortaleza, ilustrador, cronista e andarilho da imaginação.