por Luiz Henrique Gurgel |

Foto de Josue Escoto na Unsplash
Quanto mais forte e apertado, melhor

Abraços? Só os bem apertados, daqueles que duram mais de 20 segundos e provocam no corpo uma carga eletrizante da tal oxitocina, o hormônio do amor. Segundo as boas línguas, provoca relaxamento e um efeito terapêutico no físico e na alma, nos sentimos seguros, calmos, capazes de suportar medos e ansiedades. É tranquilizante gratuito e natural que funciona com a estranha e deliciosa química do contato de um corpo com outro.
Dizem que a duração média dos abraços entre pessoas é de apenas 3 segundos. É quase um não me toque para mim. Quando é que fomos abraçados do jeito que queríamos ser? Ou quando abraçamos do jeito que queríamos abraçar?
Pense no abraço da mãe, do pai, do amigo, da amiga, no amasso da pessoa que não vê há tempos, cheio de saudades. Ou então naquele que é dado ou recebido no aniversário de quem lhe quer bem, ou no que se dá no amigo cão, no indiferente gato e até no querido porquinho da Índia. Ainda tem o da boneca, o do bicho de pelúcia, tem aquele de apertar o retrato do ser amado, o de embalar criança, filha, filho, netos, netas, sobrinhas e sobrinhos. Estar num abraço talvez lembre o útero.
E o da namorada ou namorado? Corpo que você adora e que o faz desfalecer quando mãos e braços cruzam as costas no “abraço divinizante da matéria inebriada para sempre pela sublime conjunção” (dá-lhe Drummond!). São daqueles eternizados. Vale até mandar abraço a você que já me esqueceu.
Tem o abraço do par na hora da dança, do arroxa, do forró, do samba, da valsa, do tango, do remelexo, do xodó. Abraço em forma de laço. Ou o do Zorba, o grego, dançando Sirtaki, braços que se cruzam, mãos segurando o ombro um do outro e os corpos juntos e sincronizados, bailando leves e ritmados.
E como é bom o abraço de consolo, de acolhimento, de carinho, de proteção, o que vem com beijo. Abraço de Oyá para sacodir a poeira, inflar coragem. Do bombeiro ou do salva-vidas na hora H. Tem o correr para o abraço na comemoração.
Tem o abraçaço da canção, aquele que reverbera, que parece um eco – a-bra-çaaaa-ço-ço-ço-ço -, como se fossem círculos concêntricos de abraços que vão se expandindo, explicou o autor dela, Caetano Veloso. Sem falar em outra canção, a do Gilberto Gil, que abraça o Chacrinha, a Terezinha, a moça da favela, o povo da Portela, enfim, todo o povo brasileiro: aquele abraço! E o do Milton, bem mineiro, me dê um abraço venha me apertar, tô chegando.
Também tem, infelizmente, o abraço do abusador, do assaltante que disfarça amizade. Há aquela gente que se contenta com abraços à distância, formais, apenas verbalizados, não praticados. Menos, é claro, quando a distância não permite e a gente fica apenas na vontade do amplexo.
Triste é lembrar dos que sonham, hoje em dia, com o abraço de uma coisa pelo qual se apaixonaram virtualmente. Tentam aplacar solidão e calor humano por meio de um mórbido desejo de ilusão, de abraçar um nada, um espectro algorítmico, mentiroso e perverso, que esconde a sua coisa alguma traiçoeira por trás da imago de um belo homem ou de uma bela mulher. Coisa indefinida, arremedo de simulacro afetuoso, sorridente, de voz cálida e sexy, de músculos definidos, tatuados e com cabelo ao vento criado pela IA. Algo que se desmancha no mais ínfimo cair em si. Desses nem quero falar.
Só queria mesmo era abraçar, abraçar o mundo. Os mais formais, secos,duros e diretos que me perdoem, mas abraço é fundamental.
Luiz Henrique Gurgel é jornalista, professor e pesquisador. Mestre em Literatura Brasileira pela USP, é autor do livro de contos “amores malfadados” (Ed. Primata, 2020) e “Porque era ele, porque era eu e outras quase histórias” (Caravana Editorial, 2023).

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