por Adriane Garcia |
Precisamos matar nossas bonecas, de Deborah Dornellas
Somando vinte e um contos, o livro Precisamos matar nossas bonecas, de Deborah Dornellas, tem como pano de fundo o universo das mulheres. Esse elemento que surge no título e no primeiro conto, a boneca, antecipa a centralidade do feminino, desembocando, narrativas adentro, na violência doméstica e nos abusos de todo tipo cometidos por homens contra as mulheres, inclusive, o abuso sexual contra crianças.
A boneca, objeto culturalmente dado para meninas e proibido para meninos, sempre gerou em ambos, crianças, desejo. A psicanalista Melanie Klein, na primeira década do século XX, investigou a relação do inconsciente das crianças e seus brinquedos. As bonecas são objetos carregados de simbolismo. Fantasias, desejos e medos infantis são projetados nos brinquedos e foi a partir dessa constatação que Klein se tornou precursora em tratar a saúde psíquica de crianças, enquanto elas brincavam. Em Via Láctea, conto que abre o livro, essa projeção se torna não só clara, como dramática e até dissociativa.
Outro elemento reincidente nos contos desta coletânea é o bicho. Coelhos, cigarras, cachorros, galinhas e pintinhos comparecem. Apesar de haver uma escolha por mostrar mais o abuso cometido por homens contra mulheres, nos contos de Deborah Dornellas também aparece o abuso cometido por mulheres contra crianças. É o caso de O menino e Vívian, em que Vívian, a madrasta oprime o enteado. O abuso político aparece em contos que denunciam a ditadura militar no Brasil, caso de Escalda-pés – e há alguns contos que não abordam violência, a exemplo de Mentolados.
A autora vai do realismo ao conto fantástico, caso de À caçadora, lembrando-nos que somos aquilo que comemos. Esse conto é uma demonstração do humor que aparece no texto de Dornellas, com destaque para Reforma Íntima e A conquista do mundo. Os narradores se dão ora em primeira, ora em terceira pessoa. A linguagem, direta, clara e objetiva torna a leitura fluida. Um ponto alto da narração são os diálogos, muito bem construídos e naturais, o que favorece a verossimilhança das conversas.
Na época em que se discute no Brasil criminalizar a misoginia e tantos homens se arvoram contra, quando discursos e ações contra as mulheres tomam as redes sociais e as páginas dos jornais todos os dias, não raro noticiando feminicídios; quando hashtags como “se ela disser não” viralizam em conteúdos misóginos educando meninos para odiarem mulheres, livros como o de Deborah Dornellas são não só um sintoma de uma sociedade patriarcal adoecida como também de uma literatura que é fruto da luta das mulheres pelo direito de pensar, de falar, de produzir artefatos culturais e de denunciar as forças que as oprimem. Se matar nossas bonecas é uma projeção do suicídio induzido pelo sofrimento do abuso, também nos lembra de que podemos – devemos – não direcionar essa energia destrutiva para nós, mas para nossos algozes.
“Um tempo atrás, ele começou a colocar o pé de propósito no meu caminho entre o quarto e a cozinha, quando estávamos sozinhos em casa. Dizia que era brincadeira, coisa e tal, e gargalhava quando eu tropeçava e me esparramava no chão. Nas primeiras vezes, eu caía, levantava, sorria amarelo e seguia o dia. Até que comecei a caminhar olhando pro chão o tempo todo. Aí, quando percebia a lança 44 no meu caminho, desviava rápido. Ou pisava mesmo no pé dele, com vontade, e fingia distração. Outro dia quase esmaguei dois dedos do infeliz. Desculpe, bem, foi sem querer. Os olhos dele faiscaram e encheram d´água na hora, mas ele disfarçou. Não gritou nem teve forças para revidar. Se revidasse naquele minuto, acho que me matava, doutora. Ah, matava.” (Sopa de músculo, p. 67)
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Precisamos matar nossas bonecas
Deborah Dornellas
Contos
2023
Patuá
Deborah Dornellas, carioca criada em Brasília, é escritora, jornalista e aprendiz de artista plástica. Mestra em História (UnB) e pós-graduada em Formação de Escritores (ISE Vera Cruz-SP). Integra o Coletivo Literário Martelinho de Ouro, de São Paulo, o Clube do Conto da Paraíba e o Mulherio das Letras. Tem contos, poemas e desenhos publicados em diversas revistas e coletâneas. Em 2012, publicou Triz, reunião de poemas. Por Cima do mar (Patuá, 2018), seu romance de estreia, foi finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2019 e venceu o Prêmio Literário Casa de las Américas, de Cuba, no mesmo ano. Mora atualmente em João Pessoa. Precisamos matar nossas bonecas é seu primeiro livro de contos.
Adriane Garcia, poeta, nascida e residente em Belo Horizonte. Publicou Fábulas para adulto perder o sono (Prêmio Paraná de Literatura 2013, ed. Biblioteca do Paraná), O nome do mundo (ed. Armazém da Cultura, 2014), Só, com peixes (ed. Confraria do Vento, 2015), Embrulhado para viagem (col. Leve um Livro, 2016), Garrafas ao mar (ed. Penalux, 2018), Arraial do Curral del Rei – a desmemória dos bois (ed. Conceito Editorial, 2019), Eva-proto-poeta, ed. Caos & Letras, 2020, Estive no fim do mundo e lembrei de você (Editora Peirópolis) e A Bandeja de Salomé ( Caos e Letras, 2023)



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