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Selá: salmos das notas novíssimas | Leo Barth

por Leo Barth |


Foto de Gabor Barbely na Unsplash

Selá: salmos das notas novíssimas 

 

O fuzilado Circo Dadáin, trazendo o internacional palhaço Queijadinha, está na cidade de Terrosa. Cheguem todos meu povo e minha pova. O circo está na baixa, perto do cemitério, venham morrer de rir! Matinê todos os dias, noturno sabatino e dominical! Belíssimas bailarinas bolcheviques para a rapaziada passar mal! Era o anúncio gutural do Brasília que batia as cinco solas da pequena cidade. Fiquei imaginando se havia leões, o ingresso de gatos era sagrado e como não trabalhava na época, surrupiava uns da viúva Bel. A crueldade também é espetáculo de vida para a vida.


O fato é que a crente Thanata, moça de quinze anos, ficou sabendo do circo, logo quis ir com seu namorado que repreendeu a ideia em nome da igreja. Por fim, Thanata faltou ao culto de domingo e foi ao circo Dadáin. As mulheres velhas serpenteando em tangas rubras de rumba, o trapézio ridículo de anões,  azedos da vida, a metro e meio de altura, os bodes sujos e famintos arrastando-se de joelhos feridos, o mudinho melancólico ao incompreensível número dos espelhos trincados e, no meio desespetáculo: o obsceno palhaço Queijadinha.


Uma metralhadora de palavrões encrespada. Thanata baixa a cabeça por reverência, por trás das mãos brancas, soltando risinhos. O lado da arquibancada ressoando a presença estranha da religiosa. Após os primeiros cinco minutos de piadas, Thanata não se controla de tanto gargalhar. O homem subnutrido, por volta dos vinte e cinco que poderiam ser cinquenta anos, com o olhar verde-musgo, observa de laço enfeitiçado a jovem.    

  

O palhaço ocultou as piadas que fazia sobre os protestantes. Perdeu cerca de trinta e cinco por cento do tempo. Faltava a participação do gigante que desafiava homens locais em lutas de boxe. Momentos em que a multidão vibrou ao voar dos dentes dos varões e maloqueiros do bairro.


Queijadinha estava lá na saída para cumprimentar os frequentadores ao final. A irmã Thanata passou de olhos baixos, sendo surpreendida com uma flor sanguínea de plástico. Queijada a acompanhou até a casa na Cohab e assim começou um romance proibido que exibiu quase todas as façanhas sexuais do professor Queijadinha, já recuperado de uma crise de gonorreia. Aprendeu mais do que ensinou com a fêmea quase virgem. O que era paixão, virou amor, amor de palhaço em pequenas gotas de caldo verde. 


Não demorou e toda a congregação soube das aventuras de Thanata, a danada. Disciplina sem arrependimento é exclusão. Seu namorado quase morreu de desgosto. Foi uma temporada de três semanas. Thanata agora desfilava de calças apertadíssimas em sensualidade de ninfeta. Os céus foram-lhe apresentados em ardor vigente. 


O homem até esquecera dos sete filhos que o esperavam em Jatobá. Ele quer correr o mundo com Thanata, aonde chegar encontro trabalho, seu propósito era integrar o circo Beto Carrero. 


Já viu gente morrer de tanto rir ao lado de cemitérios, mas morrer gostoso de amor, novidade. Vou fugir, dar no pé, princesa minha. Vem comigo?! Thanata gargalhou de forma demoníaca, era a felicidade incorporada. Aquela foi a melhor noite de amor no trailer descascado que ardia a mofo. Uma semana para deixar a cidade. Thanata largaria tudo por paixão. Caso eu com tu na igreja, corto o cabelo, tiro os brincos e jogo fora o disco do Slayer. Thanata encorajava o homúnculo, um pouco menos desbotado. Eu te amo, Luís Maneco, meu Queijadinha. Eu posso ser cantora no Bento Carneiro, aprendi a louvar na igreja, mas escuto Genival Lacerda escondido.


 Nunca a canção “Domingo eu quero ver o domingo passar” havia fulgurado tanto: dia do voo do casal.

 

Como de costume, Thanata esperou o fim da apresentação no trailer, nua e alva. Notou um pigmento quase marrom começando a escorrer das suas pernas. Besteira. A mochila de Maneco pronta, as passagens da Real Alagoas amassadas no bolso frontal. O descanso da ejaculação violenta: Vamos,  Amor?! Não posso, sibila. Como?! Este inferno é o meu lugar, pensei melhor. Como?! Aqui está o dinheiro da minha passagem comprada. Notas novíssimas. Nesse momento, Queijada viu que era o palhaço da eternidade. Thanata voltou para o namorado, vai casar no próximo mês, estava grávida. Voltará a cantar na igreja, verá uma família feliz. Queijada chora como choravam seus filhos de fome. Quebrava todo o trailer ao som enferrujado dos salmos de imprecação com voz fanhosa de nariz vermelho. O céu sempre é povoado pelo mais denso inferno da flor. 


Luís Maneco nunca mais foi visto, disseram que caminhou para o México. Thanata está grávida pela sétima vez. Bardo ventre tabernaculado pelo pastor Jesualdo e vários diáconos.



Leo Barthnasceu em 1984. Delmirense dividido entre sertões e capital do caos. Começou a escrever por causa da Teologia. “Homem que nasceu morto, e que se acha em cada esquina, poeta de bêbados e esquizofrênicos, delimitado pelo caos particular, e autor de nada.” É notável entre os novos poetas trágicos-febris, um dos nossos maiores poetas do underground alagoano. Tem uma filosofia existencial-literária parecida com o grande Macedônio Fernandez, que escrevia compulsivamente sem muito importar-se com publicações. Boêmio, Machadiano e acadêmico, o autor possui centenas de poemas inéditos, produzindo-os desde 2001. É co-fundador do grupo “Arborosa”, de poesia, arte visual e fotografia, e editor do staff da Edições Parresia. Publicou na Utsanga (Itália), revista de poesia experimental, e em revistas brasileiras.