por Adriano Espíndola Santos |

Foto de Zeke Tucker na Unsplash
A dura vida dos gatos

Não entendo por que minha mulher fica puta da vida quando os gatos se sentam na sua cama. Criamos três gatos – sendo que uma acaba de dar cria (cinco filhotes) –, há pelo menos oito anos. A todas as peculiaridades dos gatos estamos acostumados. Um gosta de ficar deitado o dia todo na sala, outro embaixo da minha mesinha no escritório e a menorzinha nos nossos pés. Lógico, quando estamos em casa, sobretudo nos finais de semana, é uma farra: querem ficar perto da gente e vêm para a cama de casal, onde minha esposa dorme – durmo na rede, por isso rio mais dessa história. Eles quase se digladiam por espaço na cama, como o lugar de reunião para o amor à mãe, principalmente. Nosso filho também se deita com eles e fica brincando, distraindo-se, e tudo é uma festa. Agora, com cinco gatinhos muito pequenos, juntamos todos no mesmo balaio. Os maiores quase sempre não dão bola, são machos velhos, com cerca de oito anos, que, no máximo, os cheiram e, com alguma travessura, ficam observando. Mas voltamos à grande questão: Marina diz: “Minha cama virou birosca de cu de gato!”. “Você não vê, eles sentam justinho o cu na minha cama?!”. Fala como se os pequenos fossem humanos e estivessem fazendo de propósito. Ora, os gatos se lambem, inclusive o cu, e isso os deixa limpinhos. A meu ver, é uma preocupação à toa; não se pode controlar a disposição natural dos gatos, eles são praticamente indomáveis; são tigres domesticados. Apesar de Marina tentar demovê-los da condição vexatória, não há jeito, vez ou outra acontece, e ela fica emburrada, com cara de cansada, de tanto tentar ensiná-los os bons modos. Levo na brincadeira: “Ah, meu amor, os gatos são tão lindos que o cu é um mero detalhe”. Não ligo de deitarem na minha rede, mas geralmente não querem, porque balança e os tira do eixo. Hoje, quando falei das muitas qualidades dos gatos, e da pouca importância que esse fato traz à minha vida, ela virou a cara enojada, perdeu o compasso e saiu sem dar um pingo de atenção, me relegando à insignificância da minha consideração, que, por sinal, acho muito moderada e prudente. Claro que há, de minha parte, um ar de sarcasmo, jocoso, porque não tem jeito, é assim e pronto. Há quantos anos ela tenta mudá-los… Gatos foram feitos para serem donos de si. Zelam pelo nosso amor, mas da forma deles, pouco apegados e independentes em suas atividades e necessidades. Quando penso em Marina, com sua nobre tarefa materna de educar, fico um pouco preocupado por não saber dar jeito sequer nas bobeiras de nosso filho, avalie dos gatos, que não têm discernimento para os dizeres de mãe ou pai. Já contava meu tio, gato é da casa e do mundo. Não há como confiná-los. E digo mais, não dá para educá-los, como bibelôs. Gato é gato, até na França. Mas vai entender a cabeça de Marina, tão exagerada e escrupulosa.
Adriano Espíndola Santos é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro livro, o romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”, e em 2021 o romance “Em mim, a clausura e o motim”, estes pela Editora Penalux. Colabora mensalmente com as Revistas Mirada, Samizdat e Vício Velho. Tem textos publicados em revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir — sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo de Escritoras e Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto. instagram: @adrianoespindolasantos | Facebok:adriano.espindola.3 email: adrianoespindolasantos@gmail.com

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