Calor, corpo e território: Myriam Scotti transforma clima amazônico em protagonista em livro de contos
Em “Sol abrasador prepara solo fértil”, autora manauara explora tensões sociais, afetos e desigualdades a partir de uma Amazônia viva e pulsante
Em “Sol abrasador prepara solo fértil” (editora orlando), o calor não aparece apenas como cenário, mas como uma presença constante que atravessa corpos, relações e decisões. No livro de contos da escritora, crítica literária e mestre em Literatura Myriam Scotti, o clima do Amazonas atua como força narrativa que expõe cansaços, tensões, afetos e desigualdades, acompanhando personagens marcados pelo trabalho, pela migração e pela tentativa cotidiana de permanecer.
Com uma prosa que alterna lirismo e aspereza, Myriam constrói narrativas ambientadas tanto no interior quanto no espaço urbano, do auge do ciclo da borracha aos dias atuais. As histórias revelam como o clima se soma às heranças históricas da exploração econômica para moldar destinos individuais, especialmente de mulheres que sustentam famílias, enfrentam a solidão e lidam com escolhas impostas por um território tão belo quanto hostil. O livro conta com apresentação assinada pela escritora e jornalista Bianca Santana, colunista da Folha de S.Paulo, além de texto de orelha da escritora e crítica literária Thaís Campolina.
Apesar de marcar sua estreia no gênero conto, a publicação se soma a uma trajetória literária consolidada. Nascida em Manaus, em 1981, Myriam Scotti é autora do romance “Terra Úmida”, vencedor do Prêmio Literário de Manaus em 2020. Também publicou o romance juvenil “Quem chamarei de lar?”, selecionado pelo PNLD Literário, e o livro de poemas “Receita para explodir bolos”. Com formação em Direito e mestrado em Literatura pela PUC-SP, a autora constrói uma escrita que articula crítica social e sensibilidade estética, dialogando com tradições literárias brasileiras ao mesmo tempo em que afirma uma voz própria profundamente ligada à experiência amazônica.
Leia abaixo uma entrevista com Myriam Scotti e descubra os bastidores, inspirações e reflexões por trás de sua nova obra.
1. “Sol abrasador prepara solo fértil” percorre diferentes momentos históricos da Amazônia, do ciclo da borracha aos dias atuais. Como você estruturou essa travessia temporal na construção do livro?
Quando cogitei reunir contos para um livro, imediatamente pensei em traçar um panorama histórico e por isso decidi escrever a partir de uma linha do tempo que pudesse iluminar um pedaço da história do Amazonas para os leitores. Por já pesquisar o ciclo da borracha para a escrita dos meus romances, decidi que o marco inicial dos contos seria o primeiro ciclo da borracha, com a chegada dos imigrantes de várias partes do mundo atrás de prosperidade e a partir daí, cada história se passaria em uma década diferente até chegar à atualidade.
2. Seus contos alternam lirismo e aspereza. De que forma você trabalha essa tensão na linguagem para dar conta tanto da dureza das experiências quanto da delicadeza dos afetos?
Gosto de escrever sobre a complexidade humana. Não somos lineares e mesmo o mais violento dos seres, pode ser capaz de algum gesto delicado e amoroso. Da mesma forma, a violência, às vezes, pode vir da figura menos provável, daquela pessoa em quem deveríamos confiar cegamente e, no entanto, é justamente a capaz de cometer as maiores atrocidades. Isso tem a ver com a metáfora em relação à floresta, que pode ser mãe e acolhedora um dia e carrasca em outro, se não a respeitamos ou a compreendemos em sua complexidade.
3. As personagens não são alegorias, mas mulheres concretas, atravessadas por trabalho, maternidade e solidão. Que caminhos orientam essas subjetividades sem cair em explicações excessivas ou estereótipos?
Acredito que seja pela observação. Entendi que escrever literatura é saber escutar outras vozes, de preferência bem longe e diversa das que nos rodeiam. É preciso absorver outros vocabulários, outras maneiras de viver, se quisermos construir personagens complexos e não estereotipados. Sou muito atenta às pessoas, ao que escuto quando percorro as ruas da cidade. Aliás, é imprescindível se deslocar, viver, experimentar para depois sentar e escrever.
4. Manaus aparece como presença ativa nas narrativas. Em que medida o espaço molda as escolhas, frustrações e desejos das personagens?
Acredito que mais do que o espaço é o clima que comanda a vida de quem mora na Amazônia. Logo que comecei a escrever os primeiros contos, compreendi a força inescapável do clima equatorial. No entanto, longe de desejar escrever o calor e a umidade como espetáculos, me interessava descrevê-los como experiência e, sobretudo, como força organizadora da rotina das gentes amazônidas.
5. A migração – partir, ficar, retornar — é um eixo forte do livro. O que mais te interessava explorar nesses movimentos e nos dilemas que eles geram?
Mostrar a pluralidade da região Norte, a qual se estabeleceu por meio de um forte processo migratório, sobretudo a partir do século XIX, com a intenção de expandir e ocupar o território tido como terras virgens, quando na verdade, sabemos, já era amplamente ocupado e cuidado pelos povos originários. Muitos imigrantes se tornaram verdadeiros guardiões da floresta, os ribeirinhos, unindo forças com as comunidades indígenas a fim de impedir a destruição daquilo que logo entenderam ser sua casa e por isso respeitar a floresta era/é questão primordial.
6. Em contos como “Terra Prometida” e “O Soldado da Borracha”, conflitos sociais e ambientais atravessam as histórias. Como equilibrar o pano de fundo histórico com a dimensão íntima das personagens?
Enquanto escrevo, prefiro pensar em como meus personagens serão levados a agir ou quem se tornarão a partir dos eventos históricos e climáticos. O que determinado evento, por exemplo, o abandono do marido que vai se embrenhar na floresta para ser regatão, pode causar na estrutura emocional de sua companheira. Ou, como a dura realidade de se ver sozinho na floresta durante catorze horas por dia pode forjar um homem nascido no Nordeste e que antes de enfrentar a floresta enfrentava a seca e a fome. Ao apresentar o pano de fundo histórico, não escapo da densidade dos meus personagens que se formam a partir dos eventos que os atravessam.
7. Você levou sete anos escrevendo o livro. O que mudou na sua escrita e na sua própria percepção da Amazônia ao longo desse processo?
Gosto do que a escritora argentina Ariana Harwicz escreveu em seus ensaios para falar de seu processo de escrita. Ela comenta que para escrever, antes é preciso viver, amadurecer. Pois quando se decide escrever uma obra, é necessário deixar de lado o mundo lá fora por um período, às vezes longo. O livro levou o tempo necessário para que eu vivesse, errasse, sofresse, calejasse. Então, já mais distanciada das emoções, achei que estava na hora de revisá-los e oferecê-los para os leitores, os quais, acredito verdadeiramente, continuam a escrita das nossas obras através das leituras plurais que realizam.
8. Esta é sua estreia no gênero conto, depois de romances e poesia. O que o conto permite fazer, em termos de ritmo e intensidade, que outros gêneros não permitem?
Acredito que os contos me permitiram ser menos prolixa e deixar a escrita mais ágil, sem me preocupar em deixar a história tão redonda. Ademais, não há espaço para tantos personagens e isso permitiu que eu trabalhasse melhor somente um ponto de vista para o qual eu queria jogar o holofote. Foi uma experiência muito rica.
9. Sua formação em Direito aparece na maneira como as estruturas de poder atravessam as narrativas. Em que momentos essa formação influenciou diretamente a construção dos conflitos?
Esse livro me fez enxergar que eu saí do Direito mas ele nunca saiu de mim totalmente. À medida que ia escrevendo os contos, muitas histórias que escutei enquanto trabalhava como estagiária das defensorias públicas do Estado e da União voltaram à mente com força total. Uma espécie de revolta e desejo de reparação me inspirou a escrever alguns personagens, como o soldado da borracha, por exemplo.
10. Depois de prêmios e reconhecimento com obras anteriores, como você percebe que “Sol abrasador prepara solo fértil” dialoga ou tensiona sua produção literária anterior?
Logo nos primeiros livros percebi que precisava escrever histórias que não mais associassem a minha região apenas ao exotismo ou ao extraordinário. Desejava escrever histórias que, embora relatassem fatos históricos pouco conhecidos, também mostrassem a realidade do cotidiano. Então, olhando para as minhas obras ao longo de dez anos, percebo que deslocar o olhar do leitor para uma região pouco explorada pelo mercado editorial é algo que fui realizando sem me dar conta. Hoje sim, percebo com clareza o meu projeto literário.
11. Após a publicação de “Sol abrasador prepara solo fértil”, você já mencionou estar trabalhando em dois novos romances. O que pode adiantar sobre esses projetos e de que forma eles dialogam com o universo amazônico e as personagens femininas que marcam sua obra até aqui?
Continuo pesquisando os ciclos da borracha e gostaria de construir uma trilogia. O primeiro livro já está no mundo, o romance “Terra Úmida”, e os demais estou na fase de pesquisa histórica. Vamos ver se dará certo.
*Myriam Scotti nasceu em 1981, em Manaus (AM). É escritora, crítica literária e mestre em Literatura pela PUC-SP. Seu romance “Terra Úmida” foi vencedor do Prêmio Literário de Manaus 2020. Em 2021, seu romance juvenil “Quem chamarei de lar?” (editora Pantograf) foi aprovado no PNLD literário e escolhido pelo edital Biblioteca de São Paulo. Em 2023, lançou o livro de poemas “Receita para explodir bolos” (editora Patuá). Foi finalista do prêmio Pena de Ouro 2021 na categoria Conto. Em 2024, ficou em segundo lugar na categoria conto do prêmio Off Flip. Myriam é autora de “Sol abrasador prepara solo fértil“ (editora orlando, 2025, 136 págs.)
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