Poemas do livro “A velha mentira”, de Wilfred Owen - Tradução de Clarissa Desterro


Poemas do livro “A velha mentira”, de Wilfred Owen - Tradução de Clarissa Desterro


Dulce Et Decorum Est (págs. 87 e 88)


Curvados ao chão, como velhos mendigos sob fardos,

Coxos, tossindo como bruxas, xingávamos através da lama,

Até darmos as costas aos assombrosos clarões,

E rumo ao nosso distante descanso começarmos a nos arrastar;

Homens marchavam dormindo. Muitos tinham perdido as botas,

Mas seguiam mancando, calçados em sangue. 

Todos ficaram aleijados; todos cegos;

Bêbados de cansaço; surdos até para os assobios

Das bombas de gás despencando suavemente.


Gás! GÁS! Rápido, rapazes! – Um êxtase desajeitado,

Colocando os toscos capacetes bem na hora, 

Mas alguém ainda estava gritando, e tropeçando,

E se debatendo como um homem no fogo ou no limo.

E, pela névoa dos visores e a luz verde espessa,

Como sob um mar esverdeado, eu o vi afogar-se.


Em todos os meus sonhos, diante de meu olhar impotente, 

Ele se lança sobre mim, sufocando,

Engasgando, se afogando. 


Se em algum sonho sufocante você também pudesse marchar

Atrás da carroça onde o jogamos,

E ver os olhos brancos contorcendo-se em seu rosto,

Seu rosto pendente, como o de um diabo cansado de pecar;

Se você pudesse ouvir, a cada solavanco, o sangue 

Subir em gargarejos de pulmões corrompidos por espuma,

Obsceno como câncer, amargo como o regurgitar 

De vis, incuráveis feridas em línguas inocentes, -

Meu amigo, você não contaria com tão orgulhoso zelo

A crianças ardentes por alguma glória desesperada,

A Velha Mentira: Dulce et decorum est 

pro patria mori




Hino Para a Juventude Condenada (pág. 109)


Quais serão os sinos fúnebres para estes que morrem como gado?

— Apenas a monstruosa fúria das armas.

Apenas o gaguejar apressado dos rifles

Pode elevar suas apressadas orações. 

Nenhum fingimento por eles agora; nem orações, nem sinos;

Nem qualquer voz de luto, exceto os corais, —

Os estridentes, dementes corais de bombas chorosas; 

E clarins que os chamam de seus tristes lares. 


Que velas podem ser acesas para guiá-los?

Não nas mãos de meninos, mas em seus olhos

Brilhará o lampejo sagrado do adeus. 

A palidez nas faces das moças serão suas mortalhas;

Suas flores, a ternura de mentes pacientes

E cada lento amanhecer, um fechar das cortinas.



A Parábola do Velho e do Jovem (pág. 47)


Então Abraão ergueu-se, cortou a lenha e foi,

Levando consigo o fogo e a faca.

E enquanto peregrinavam, os dois juntos,

Isaque, o primogênito, falou e disse: Meu pai,

Eis aqui os preparativos, fogo e ferro,

Mas onde está o cordeiro para este holocausto?

Então Abraão amarrou o jovem com cintos e correias,

E construiu ali barricadas e trincheiras,

E estendeu a faca para imolar seu filho.

Quando eis que um anjo o chamou do céu,

Dizendo: Não estendas a mão sobre o rapaz,

Nem lhe faças mal algum. Vê;

Um carneiro, preso pelos chifres num arbusto;

Oferece o Carneiro do Orgulho em seu lugar.


Mas o velho não quis fazer isso, e abateu seu filho,

E metade da descendência da Europa, um por um.





Clarissa Desterro é historiadora, escritora e tradutora formada em História pela Universidade Federal do Estado do Amazonas (Unirio). Sua pesquisa de graduação teve como foco a Primeira Guerra Mundial, investigando suas representações culturais e os impactos físicos e psicológicos do conflito, com ênfase em trauma, masculinidades e literatura de guerra. Leitora de Wilfred Owen desde a adolescência, traduziu, escreveu e organizou a antologia A velha mentira – poemas da Grande Guerra por Wilfred Owen (Caravana, 176 págs.), que reúne trinta poemas do autor, além de ensaios analíticos, biografia e contextualização histórica.