Colonialismo Lunar: um dragão chamado Estados Unidos

por Douglas Souza |



Colonialismo Lunar: um dragão chamado Estados Unidos


Durante as navegações mercantilistas, os pré-estados europeus invadem o que eles chamam de “novo mundo”. Essa exploração de uma terra nova, junto a um trabalho forçado e escravizado, criou um excedente econômico que fez brotar no mundo uma  burguesia econômica que funda um sistema até então chamado capitalismo. 

O Ocidente, após as navegações, continuou sua exploração, mudando apenas o formato.  A cada ciclo de transição industrial, o domínio da elite ocidental avançou sobre os  recursos naturais, sem se importar se aquele recurso tinha dono ou não. 

Hoje, mesmo ainda existindo disputas por terras raras, parece que não há mais o que  ocupar no Planeta Terra. As duas grandes guerras que tivemos na era moderna foram para  reformular o domínio territorial e dividir o mundo. O Ocidente, que já domina boa parte dos recursos naturais, vê-se perdendo espaço para a China (Oriente), que  avança numa transição energética, pensando a política em outro formato. O país asiático realizou duas missões no lado oculto da Lua, uma em 2019 e outra em junho de 2024,  usando robótica e coletando materiais para estudo. O Ocidente, dominado por bilionários estadunidenses, vendo seu domínio ameaçado, não quis ficar para trás e lança a missão Artemis II. 

Para a ciência, isso é um grande avanço, mas a intenção é geopolítica. A disputa agora é  para ver quem ocupa a Lua primeiro, é para ver quem consegue converter seus recursos em energia, tensionando o modo energético e buscando expansão de poder. Fico me perguntando: a ocupação e a exploração da Lua indicam que os recursos da Terra se esgotaram, ou que já não são considerados suficientes?

Mesmo diante de um marco histórico, a viagem de seres humanos para o lado oculto da  Lua tem intenções meramente mercantis. Bilionários financiaram a missão com a única  intenção de aumentar seus lucros e tentar desbancar a China, seu grande concorrente. 

A última coisa que me pergunto é: chegamos a uma era em que a humanidade tem a  capacidade de explorar um satélite natural fora da Terra, mas não consegue acabar com  a fome de uma vez por todas? Apesar de tanto avanço, a Terra ainda parece atrasada para alguns grupos, países e corpos. 

Os recursos de grandes tecnologias não mudam materialmente a vida dos humanos pobres, não acabam com a fome do mundo, com a violência ou com as mazelas sociais.  

A navegação mudou de formato, trocaram as caravelas pelas naves espaciais. Mas o propósito não é usar a tecnologia para fazer justiça social; a finalidade é usá-la para  continuar controlando os mais fracos, para continuar aumentando os lucros de uma elite que é mínima dentro de uma múltipla humanidade. 

Talvez seja o próprio homem que São Jorge irá combater na Lua; talvez o dragão seja a  ganância e a exploração. A humanidade avança na história com um marco científico gigantesco, mas continua a retroceder. 

Como canta o Grupo revelação: *“E o homem vai à Lua, se enche de poder/ A criança na  rua sem ter o que comer”.

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*citação da música "Pai", composta por Ronaldo Barcelos e André Renato.



Douglas Souza — Nascido na comunidade do Parque Veras. Fundador do movimento Fortaleza Negra. Graduando em História pela Universidade Estadual do Ceará (UECE). Pesquisador da história negra no Ceará. Produtor cultural, músico, escritor e articulador político.