por Carlos Monteiro |

Fotografias de Carlos Monteiro
Downtown muito down
Fazia
tempo que não ia ao Centro do Rio. Ouvia falar que estava ‘esvaziado’, só não
imaginava que estivesse do jeito que está; um abandono só.
Uma
pena, perda inestimável para uma cidade tão linda e maravilhosa. Lembrei de
Rubem Braga e sua “Borboleta amarela”, borboletas já não há. João do Rio, Lima
Barreto, Machado de Assis... tantos que contaram historias da Cidade
Maravilhosa e seus encantos mil, devem estar se revirando nos túmulos tal o
abandono que vive aquela área da cidade.
Fiquei
boquiaberto com a quantidade de moradores de área livre, sem nenhuma
assistência do Estado, que resistem às intempéries com seus parcos ou nenhum
apetrechos de manutenção básica. Com a sujeira e os amontoados de lixo, que
mais parecem vulcões fétidos, disputados pelas pessoas em situação de rua e os
animais; lembrei-me de Bandeira e o poema “O Bicho”: “...Vi ontem um bicho / Na
imundície do pátio / Catando comida entre os detritos. / Quando achava alguma
coisa, / Não examinava nem cheirava: / Engolia com voracidade. / O bicho não
era um cão, / Não era um gato, / Não era um rato. / O bicho, meu Deus, era um
homem.”
Caminhei pelas
calçadas, muito mal cuidadas, que de tantos buracos mais parecem um belo queijo
suíço ou a superfície lunar; o que for mais ‘romântico’ ou prosaico a este
texto.
O Centro
tem obras inacabadas, poeira das ruas, gases dos automóveis que já não são
tantos, lojas fechadas – chegam a ruas inteiras –, o Centro, meu caríssimo
leitor, perdeu há muito o glamour de tempos outrora, mas a atual degradação é
tanta que me senti envergonhado.
Já não há
mais o vai e vem caótico de pedestres disputando espaço e tempo. Há camelôs e
eles são muitos, suas ‘lojas’ a céu aberto, além de altercarem espaço com os
transeuntes, tomam conta das calçadas sem a menor cerimônia fazendo delas
escritório e ponto de venda das mais variadas quinquilharias que vão de
eletrônicos até alimentos.
Segurança?
Nos trechos que bravamente atravessei não vi nenhuma viatura ou guarnição a
pé...
Ousarei
contradizer o querido amigo Ruy Castro, mas o Rio acabou sim, pelo menos a
região central. É triste, mas é a mais pura realidade.
Chorei
até ficar com dó de mim.
Carlos Monteiro é fotógrafo, cronista e publicitário desde 1975, tendo trabalhado em alguns dos principais veículos nacionais. Atualmente escreve ‘Fotocrônicas’, misto de ensaio fotográfico e crônicas do cotidiano e vem realizando resenhas fotográficas do efêmero das cidades. Atua como freelancer para diversos veículos nacionais. Tem três fotolivros retratando a Cidade Maravilhosa.
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