
Still Frame do filme São Bernardo, de Leon Hirszman. Em cena Othon Bastos
Geração Honório

Vale tudo para alcançar o “dinheiro”.
A relação familiar é rude, seca.
A religião comanda, Caetano Veloso alertou sobre a incoerência da igreja católica…
Que geração estranha! Graciliano Ramos revelou Paulo Honório em seu romance “São Bernardo”, onde ao final apresenta um ser humano despedaçado, solitário.
A ambição passa por cima de tudo, mas eles não sentem culpa. Na missa do Domingo o padre amigo absolve ranços e pecados.
Por que a geração dos anos 30, 40 e 50 teve, na sua maioria, esse perfil patriarcal com famílias onde o “chefe” era temido, destemido?
Filhos tinham medo de seus pais e quando aparecia uma oportunidade para “sair” de casa nada segurava o jovem sonhador.
A vida tinha que ter mais…
A vida não poderia se resumir naquele ambiente opressor e inóspito.
Sim, já disse, havia uma minoria representativa mas o “normal” era aquele "sim senhor", "não senhor"…
Soldados e soldadinhos não amados.
Por que eram assim?
Muitos penaram nas mãos de seus pais, mas espera aí: farei o mesmo com meu filho?
Não…
Não quero terminar meus dias como Paulo Honório.
O próprio Honório disse “efetuei transações arriscadas, endividei-me, importei maquinismos e não prestei atenção aos que me censuravam por querer abarcar o mundo com as pernas”, porém o personagem de Graciliano Ramos fazia qualquer negócio.
E qualquer “tipo” de negócio incluía muita coisa, mas muita coisa mesmo… Não é à toa que os críticos dizem que as palavras de Graciliano são secas e cortantes.
Ora, ele também vem daquelas gerações…
Em seu livro sobre Graciliano Ramos, o professor de Literatura(USP) Ivan Marques destaca o fim de Honório nos capítulos finais, quando o mundo foge ao seu controle onde "passos me levaram para os quartos como se procurassem alguém”.
Que solidão.
Que tristeza.
De que maneira as pessoas desta geração envelhecem em solidão, à semelhança dos personagens de Graciliano Ramos e de Fogo Morto, de José Lins do Rego.
Bom, o mestre Zé Amaro de José Lins resiste até onde pode, mesmo na miséria, e quando o povo dizia que ele vira lobisomem ainda ia à porta do casebre para ver um céu estrelado.
E ainda assim, José Lins do Rego enruga a face do mestre que vê no suicídio sua única saída.
O bom mestre não resiste e esmorece diante de uma geração de coronéis impiedosos.
Espero nunca ter que escrever memórias de cárceres ou realçar almas de um homem ridículo, tenho certeza que minha amizade com filha e neto continua distante, muito distante da solidão da geração de Paulo Honório…
O amor e os sentimentos mudam conforme sua geração, basta ver filme do gênero de animação dirigido por Guillermo del Toro: um velhinho que cria seu Pinóquio quando está raivoso e embriagado, muito diferente daquele bonachão de nossa infância.
Mudanças…
Gerações…

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