por João Oliveira Melo |

Foto: Monica Curtin
Jarboe: a artista que impactou a banda nova-iorquina Swans

Jarboe La Salle Devereaux é uma compositora, cantora, artista performática, discográfica e visual. Nasceu no estado de Mississippi e viveu a infância na região sul dos Estados Unidos, principalmente em Nova Orleans e Atlanta. Jarboe desenvolveu um interesse pela música naturalmente quando era criança e pelo incentivo do seu pai, que cantava e tocava órgão Hammond e guitarra acústica. Frequentou aulas de canto e teclado em várias escolas e corais de igreja. Além de ser educada para se tornar uma vocalista de coral e jazz, Jarboe se inspirou nas gravações de campo, em culturas asiáticas, na música folk, em estudos de literatura e teatro, no heavy metal, nas inúmeras viagens pelo mundo, na sonoridade da banda Swans, na transgressão da música industrial, nos artistas de rua que conheceu no Sul dos Estados Unidos quando era jovem, no gênero trip hop, na música ambiente, no rock psicodélico, no rap, na música minimalista, no krautrock e blues. Multi-Instrumentista, trabalha com teclado eletrônico, computadores, contrabaixo, guitarra elétrica e acústica, xilofone, piano, tambores de mão, sino e experimentações com microfones.
Colaborou com uma grande variedade de artistas, incluindo Blixa Bargeld (Einstürzende Neubauten), a banda Neurosis, Justin Broadrick (Godflesh) , Masami Akita (Merzbow), Beth B., Laura Levine, Richard Kern, integrantes do Gorguts, entre outros. Jarboe é mais conhecida pelo período de 1985 a 1997, quando participava da banda Swans. A sua relação próxima com Michael Gira, o fundador e líder, resultou no projeto Skin e no álbum de 1987, “Blood, Women, Roses”.
Anos antes de sua entrada para os Swans, trabalhou com música eletrônica experimental adequada para instalações sonoras e em performances de "escultura viva/artista performática” nas festas privadas para estrelas de rock bem-sucedidas. Nesses eventos algumas pessoas ficavam bêbadas e provocavam os artistas performáticos urinando neles, queimando a sua pele com cigarros ou tentando amarrá-los.
“Esse capítulo da minha vida foi há tanto tempo que é impossível até mesmo vê-lo como parte de mim. No entanto, o único aspecto que retiro dele é a resistência, o corpo, a exploração da aniquilação do ego, a exploração da luta pelo poder. Sei que uma das razões pelas quais faço o meu melhor para quebrar as barreiras entre o público e o artista é por causa desse capítulo da minha vida em que explorava até onde o ego e a grandeza ilusória do Deus do Rock iriam com a sua visão das pessoas como objetos, devido à sua atitude exagerada de que ‘dinheiro e fama podem comprar qualquer coisa’.”- Jarboe
Ela conheceu Swans quando escutou pela primeira vez a música "Power for Power", do álbum Filth, em uma gravação do show divulgada por um programa de rádio de música industrial, vinculado à Estação WREK. A musicista escreveu para o endereço que constava na capa do álbum e pediu a letra da música. No decorrer recebeu de Michael Gira uma fotocópia da letra e uma nota escrita à mão. Respondeu com uma fita K7 contendo tudo o que era capaz de fazer. O material vinha com várias edições vocais. O que ela mais desejava era uma audição e provar que poderia ser membro da banda. Gira gostou das gravações e eles começaram a ter longas conversas ao telefone. Em 1984, Jarboe viajou a Nova York para finalmente conhecer o grupo e entrevistá-lo para a pequena revista de arte que editava. Ela adorou o East Village e os artistas que frequentavam o bairro. Lydia Lunch e Jim Thirlwell são exemplos a serem citados..
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| Foto: Wim Van Del Hulst |
“Fui convidado para um ensaio que acabou por ser na minha casa (risos). Era um espaço cru no bairro mais perigoso da época. Era muito difícil chegar lá porque, às vezes, os táxis nem sequer levavam as pessoas até à Avenida A, no East Village. Nos anos 80, as condições de vida eram inacreditáveis. Viver lá exigia muita rebeldia e ferocidade. Tínhamos uma porta de aço sólida com uma fechadura e muitas travas do lado de fora. Para sair por aquela porta quando me mudei para lá... era normal passar por cima de seringas usadas, poças de urina e todo tipo de porcaria. Havia grupos de traficantes em cada esquina.”
Em 1991, foi lançado “Thirteen Masks”, o primeiro álbum a sair sob o seu próprio nome. Enquanto “Sacrificial Cake” desenvolveu o uso de elementos ritualísticos e o uso de múltiplas vozes, foi o álbum de 1998 “Anhedoniac” que realmente serviu para anunciar o nascimento da sua carreira solo. A vida amorosa disfuncional de Michael Gira e Jarboe refletiu-se nos seus esforços colaborativos e serviu como parte do álbum Drainland, do vocalista. Na canção “You See Through Me”, um sample de uma conversa gravada entre os dois, destacou uma parceria desarticulada a desmoronar-se na sequência do alcoolismo de Michael. Mesmo atuando como tecladista, vocalista e colíder da banda, Jarboe estava sob o controle do fundador, que determinava sua postura corporal, sua atuação, o penteado e até o que ela deveria fazer.
“Ele não queria que eu fosse demasiada teatral, mas eu estava lá quando ele andava de quatro, ou em roupas íntimas longas ou nu, esfregando a bunda na cara das pessoas. Então, é como, em que ponto se descreve algo como teatral? (risos). Achei contraditório dizer-me para não ser teatral quando, na maioria das vezes em que atuava com ele, ele era bastante teatral. E ainda é muito teatral. Eu os vi em abril e ele estava a dar palmadas no próprio traseiro, batendo em si mesmo com o punho repetidamente. O público aplaudiu! Achei que era uma referência ao The Kipper Kids, o grupo de performance, porque sei que ele gostava muito deles.” Jarboe sobre Michael Gira não querer teatralidade
Gira considera Jarboe a colaboradora mais duradoura e importante dos Swans . A artista acredita que ambos se influenciam mutuamente. Foi através dela que ele ouviu pela primeira vez Arvo Pärt, Popol Vuh, várias músicas melódicas e expansivas. Ela tem uma recordação sobre conversar como o Gira para mudar sua técnica vocal. Em vez de gritar e falar, ele passou a cantar com a barriga e não só utilizar a garganta. Michael, encorajou Jarboe a pronunciar as palavras com menos ênfase e a ser mais livre e descontraída na interpretação.
“Ele detesta quando digo isto, mas foi um grande mentor para mim. Quando deixei Atlanta e me mudei para Nova Iorque, ele foi um grande professor para mim em termos de pronúncia e linguagem coloquial, e de como explorar as minhas raízes e a minha vida como cantora em vez da forma como os professores de canto me tinham ensinado a cantar. Teve um grande impacto em mim como intérprete e artista. Isso nunca desapareceu. Ele tem sido a influência mais importante de toda a minha vida...” Jarboe
Swans foi encerrado em 1997 por vendas baixas, problemas de alcoolismo e a reputação de ser barulhenta e causar estagnação criativa, segundo a visão de Gira. O último álbum de estúdio lançado dessa época serviu de adeus ao grupo. Soundtracks for the Blind é um disco duplo,onde um lado é nomeado Copper e o outro Silver. Com duração de duas horas e apresentando temas que destacam o envelhecimento, em uma trilha sonora para um filme imaginário, abordando a morte, o universo pessoal, as doenças neurodegenerativas e os registros de vidas. Essa obra foi realizada com gravações em K7 à mão, instrumentos tradicionais, sons encontrados, samples, loops e gravações multipistas finalizadas. Esses documentos de áudio são faixas relacionadas a banda, gravações das famílias dos dois artistas e materiais de vigilância que pertenciam ao pai da Jarboe, que era agente do FBI. Além do término da banda, há um grande peso emocional com o falecimento do pai de Michael Gira e da mãe de Jarboe. O pai estava sofrendo de cegueira enquanto a mãe de demência. Os gêneros desta despedida são pós-rock, musique concrète, folk, ambiente, drone, spoken word, industrial, pós punk, neofolk, colagem sonora, techno e gravações de campo.Swans retornou em 2010, Jarboe participa do álbum The Seer, não como membro, mas colaboradora responsável por uma colagem e backing vocais.
"Tivemos uma relação conflituosa durante a minha juventude, pois eu era um adolescente bastante rebelde. Não nos falávamos — ele estava fora da minha vida — há cerca de 12 anos. Eu queria voltar a conhecê-lo sem a tensão dos anos anteriores. No entanto, ele era um grande homem. Eu queria captar isso enquanto ele passava pelo processo de ficar cego." Michael falando sobre seu pai
Seguidora do budismo, principalmente de tradição tibetano. Recebeu a iniciação Kalachakra em Nova Iorque, do Dalai Lama, no Paramount Theater, no Madison Square Garden. Possui uma enorme coleção de livros sobre o tema. Segundo a mesma, o budismo a ajudou na composição das suas músicas tornando as letras mais metafóricas. Todos os seus álbuns lançados ao longo dos anos estavam sutilmente direcionados para o budismo. Sem doutrinação, apenas referências e dicas.
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| Foto: R . Collins |
Nos seus álbuns a solo, a começar por “Thirteen Masks” e “Sacrificial Cake”, há dharma ou simbolismo budista tibetano nas letras ou nas imagens das canções . Illusory é um álbum que explora o karma e “The Cut of the Warrior” tem na capa a imagem de uma monja budista com cortes metafóricos na pele, representando esforços repetidos para “cortar o ego”. O título foi inspirado em: gtor-ma, bolos sacrificiais utilizados em cerimônias budistas tibetanas em oferendas às divindades. O título do álbum “Tulpa’ é referência a criações mentais de objetos, formas ou seres autônomos através de poderes espirituais ou mentais. Existe uma quantidade imensa de alusões que podem ser achadas na discografia de Jarboe.
“ Nunca vou esquecer a primeira vez que cantei. Era num clube com um monte de rapazes que estavam a enlouquecer e a tentar matar-me. Essa foi a minha experiência durante muito tempo na banda — as pessoas falavam por cima de mim, ignoravam-me, gritavam comigo, diziam-me coisas obscenas. Foi uma batalha longa e difícil, que durou muitos e muitos anos, até que as pessoas realmente se aproximassem do meu lado do palco para me ouvir cantar. E então, eventualmente, as pessoas começaram a aplaudir quando eu me aproximava do microfone. Foi uma batalha em si entrar para um grupo desafiador e brutal naquela época.”
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| Foto: Richard Kern |
João Oliveira Melo é natural de Recife. É aluno do oitavo período do Curso de Ciências Sociais (UFRPE).




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