por *Taciana Oliveira |
"Atlas de Anatomia" entrelaça poesia, feminismo, memória e crítica social
Em Atlas de Anatomia, de Adriane Garcia, o corpo não se apresenta unidade, mas fragmento, uma matéria em constante fissura, atravessada por forças que excedem o biológico. Publicado pela Editora Caos & Letras, o livro organiza-se como um falso atlas: em vez de ordenar, desestabiliza; em vez de explicar, expõe.
A escolha do vocabulário anatômico não nos guia a uma leitura científica, mas a um deslocamento. Nomear ossos, órgãos e tecidos torna-se um gesto ambíguo: ao mesmo tempo em que remete ao saber técnico, revela suas insuficiências. Em um dos momentos mais emblemáticos, a poeta afirma que seu atlas é feito de “carne e desordem” — formulação que sintetiza o projeto do livro: confrontar a linguagem que pretende dar conta do corpo.
Cada poema funciona como uma incisão. “Clavícula”, “Útero”, “Pulso”, “Costela”: os títulos sugerem precisão, mas o que se encontra é a irrupção de experiências que escapam à objetividade. O corpo, aqui, é atravessado por memória, violência, desejo e história. Não há neutralidade possível. Em “Clavícula”, a figura da “Mulher-Atlas” sustenta o peso de uma vida que não é apenas individual, mas estrutural, marcada por trabalho, maternidade e solidão . O corpo feminino surge, assim, não dado, mas construção histórica e campo de tensão.
TÓRAX
Dentro do peito o mundo ressona
Troco o ar de dentro pelo ar de fora
Troco o ar fora pelo ar de dentro
A caixa tenta proteger mas
O desamor passa por entre as costelas
O coração (não tem jeito)
Foi feito para sofrer
Essa dimensão política se expande em poemas que deslocam a anatomia para o coletivo. Em “Membros superiores” e “Membros inferiores”, o corpo se converte em metáfora social, revelando assimetrias e violências que estruturam o país. O organismo deixa de ser fechado em si mesmo para se tornar imagem de um sistema maior, onde partes não funcionam em equilíbrio, mas em conflito.
Há também uma poética da memória que atravessa o livro de forma descontínua. Não se trata de autobiografia organizada, mas de vestígios: cenas de infância, marcas de violência, perdas familiares, doenças. Em “Mãos”, por exemplo, a lembrança do castigo corporal emerge sem mediação, destacando que a memória não se dissolve, ela permanece inscrita na matéria: A memória falha / A cicatriz não. O corpo é arquivo, mas um arquivo instável, atravessado por lacunas e repetições.
Formalmente, Adriane Garcia aposta na contenção. Os poemas são algumas vezes breves, cortantes, frequentemente construídos por justaposição de imagens. Essa economia não reduz a intensidade; ao contrário, a concentra. Há uma recusa do excesso explicativo em favor de uma linguagem que opera por impacto, por fratura. Cada verso parece carregar o peso de um gesto interrompido.
Outro aspecto relevante é a crítica implícita aos discursos que tentam normatizar o corpo, sejam eles médicos, religiosos ou sociais. Ao apropriar-se da terminologia anatômica, a poeta não a reproduz; subverte-a. Nomear deixa de ser classificar e passa a ser resistir. O corpo, então, não é apenas aquilo que se descreve, mas aquilo que escapa à descrição.
Se há um eixo que sustenta *Atlas de Anatomia*, ele reside na impossibilidade de conhecer plenamente o outro, e, por extensão, a si mesmo. Em “Dissecação profunda”, a ideia de que ninguém jamais conhecerá o que o outro carrega por dentro expõe o limite de qualquer tentativa de leitura totalizante . O atlas falha e é nessa falha que a poesia se instala.
DISSECAÇÃO PROFUNDA
Camada por camada
Tecido por tecido
Veia por veia
Artéria por artéria
Órgão por órgão
Olho por olho
Dente por dente
Ninguém
Jamais
Conhecerá
O que o outro leva
Por dentro
Ao final, o livro não oferece síntese. O corpo permanece aberto, incompleto, em processo. *Atlas de Anatomia* não organiza o caos; habita-o. E, ao fazê-lo, inscreve na linguagem uma forma de resistência que não se afirma por respostas, mas pela insistência em permanecer, ainda que em ruínas. No cenário da atual poesia, o lançamento de Atlas de Anatomia corrobora a relevância de Adriane Garcia na condição de um dos nomes mais consistentes e atuantes da literatura brasileira A obra se soma a uma trajetória coesa, consolidando a autora em um lugar de destaque e contribuindo de forma decisiva para uma produção que permanece crítica, inventiva e atenta ao seu tempo.
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Quatro poemas de Atlas de Anatomia
Costela
Primeira armadura:
A prova de que
Haverá inimigos e de que
Nascer
É ser posto na guerra
Frágil armadura:
Se deus é perfeito
Não fomos feitos
À sua imagem e
Semelhança
Anacrônica armadura:
Nada segura
A indústria armamentista.
Dorso
Às nossas costas
Mais que coluna e musculatura
Pesam a maledicência
O desejo escuso de ferir
Cochichos, as palavras
Armas brancas, preparando
Vilanias para um almoço
Para um jantar
Para um café da
Manhã/ o inferno são
Os outros
Não é um mundo seguro para andar de frente
Não é um mundo seguro para andar de costas
Não é um mundo seguro
Para andar.
Dentes
Era um prédio decaído
Na Praça da Estação
A menina carregava
Quinze anos e
Dentes estragados
O dinheiro pouco
Para muita amálgama
O pouco escrúpulo
Do dentista
Voltou anestesiada
A sutura só mais tarde
Sentida
Entre tantas coisas
Perdidas
Perder ainda
Mais um dente.
Lobos
A festa desistiu de alguém
Uma menina ficou atrás do outdoor
A luz estroboscópica paralisou a cena
Exatamente quando ela queimava
A perna
No cano de descarga da moto
O passado é feito de derrotas
Sobretudo porque nele
Nada sobreviveu
Agora é que ela respira
Cheia dos danos
De ter morrido cada vez
Geralmente se distrai
Mas há botões lobotemporais
Para acionar tempestades.
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| Foto: Cristiano S Rato | Caos e Letras |
A seguir, a entrevista com a autora.
1. Em Atlas de Anatomia, o corpo humano ocupa o centro da obra. De onde partiu a proposta de construir esse “atlas” poético?
Já há muitos anos eu me interesso por estudos de fenômenos psicossomáticos. Meu próprio corpo é meu primeiro observatório. Parte da ideia de escrever o Atlas surge por causa de minha imensa vontade de comunicar esta percepção, a de que palavra, pensamento, ação, história, política, arte, saúde, doença... tudo se dá em um campo de batalha chamado corpo. Outra parte da ideia é muito afetiva, nos anos 90, no ensino médio (que àquela época se chamava segundo grau), um vendedor de livros passou nas salas de aula oferecendo três tomos de um livro de anatomia e doenças associadas. O livro trazia imagens em cores, era um assombro para mim, uma garota pobre, que possuía pouquíssimos livros em casa. Nesta época, eu estudava à noite e tinha arrumado meu primeiro emprego, aos dezesseis anos, balconista em uma loja de bijuterias. Gastei minha pequena fortuna naquele mês. Não me lembro mais o título do livro, não sei como se perderam os volumes, mas eu os li várias vezes. Talvez tivesse sido médica, se a autoestima da juventude pobre também não fosse roubada junto com seus outros direitos. De um assunto passamos a outro, nas associações livres que se fazem no corpo: vivam as cotas nas universidades.
2. O livro apresenta o corpo como território de conflito e resistência. De que maneira essa leitura se relaciona com as tensões do presente, sobretudo no que diz respeito às vivências femininas?
Ontem, um dia antes de responder a esta entrevista, eu havia assistido ao filme “A meia-irmã feia”. É um filme especialmente tocante para nós mulheres, porque nosso corpo é território de disputa sem um segundo de paz. A roteirista e diretora Emilie Blichfeldt fez muito bem em escolher uma das irmãs feias da Cinderela para ser a personagem central (como não pensamos nas irmãs feias antes?). O Atlas de anatomia não é um tratado do que quer que seja, é um livro de poesia, mas fico pensando em como é bom exercer a liberdade de escrever um livro sobre o corpo, sobre o meu corpo, sobre o corpo das mulheres (tão dilacerados na história da ciência), sobre as relações que se deram em minha vida a partir do meu corpo, sobre as relações que tenho com os outros corpos. Hoje li sobre duas cientistas inventando cura para a artrose, duas senhoras dedicadas à ciência, usando seu corpo para curar outros corpos, não para ser objeto dedicado à beleza de conquistar príncipes (a tempo: eles não existem).
3. A obra reúne cerca de oitenta poemas que abordam ossos, órgãos e vísceras. Quais caminhos orientaram a transformação desses elementos em linguagem poética?
Eu gosto muito, quando escolho escrever mais um livro, de vencer algum desafio colocado de mim para mim mesma. Por exemplo, em Eva-proto-poeta, eu quis trabalhar o deboche, o chiste, a crítica, a paródia de parte do Gênesis com o máximo de concisão que me parecesse suficiente. Em A bandeja de Salomé eu quis soltar o verso, alongá-lo mais, trabalhar com poemas narrativos. No Atlas, meu desafio foi trabalhar de forma poética com palavras que são antilíricas por excelência. Claro, é fácil saber que isso é possível depois do genial Augusto dos Anjos. Minha proposta de construção dos poemas foi: à luz de uma determinada palavra que nomeia parte do corpo, qual associação meu corpo faz? Porque falamos muito de mente, separando-a do corpo, mas ela é corpo. Quando adoecemos, a ligação das partes do corpo fica mais evidente.
4. Este é o seu terceiro título pela editora Caos & Letras. Que relações podem ser estabelecidas entre este livro e os anteriores?
Gosto muito da editora Caos & Letras. Eduardo Sabino e Cristiano Rato são meus editores e meus amigos. É uma editora honesta, que presta contas à autoria (ato que sempre gosto de frisar porque não é comum), que edita de verdade. Hoje em dia quase todo(a) escritor(a) tem que enviar os originais para uma leitura crítica, trabalho que antes era parte da edição, um editor que fazia, isso era também editar. Não tive um livro enviado para a Caos que não tivesse apontamentos de leitura, de mudança, de edição. Quanto às relações entre Eva-proto-poeta e A bandeja de Salomé são livros que se continuam mutuamente; já Atlas de anatomia é um outro projeto, mais confessional, inclusive, mas que traz a simbologia judaico-cristã em alguns de seus versos, porque essa simbologia também frequenta o meu corpo-território.
5. O lançamento acontece em Belo Horizonte, cidade onde você nasceu, vive e construiu sua trajetória. Qual é o significado desse vínculo para este livro?
A cidade está marcada no meu corpo, o meu corpo está marcado nela. Quando eu ando por Belo Horizonte, cada lugar está carimbado na minha história pessoal e o que não está, estará, porque lá estive. O desconhecido se torna conhecido e não há nada mais próximo de nós do que a cidade em que vivemos. Mudei-me de bairro há uns três anos, como é estranho ainda esse bairro e não o outro, que deixei. Até a luz é nova. Se eu me mudasse hoje, novamente, certeza que este bairro já me seria um velho agregado e eu passaria por suas ruas dizendo: ele já foi meu. É interessante falar de origem quando falamos de um projeto em que o símbolo central é corpo. A origem (mãe) é sempre outro corpo. A cidade é um corpo também.
6. O livro conta com textos de apresentação de Fabrício Marques e comentários de Itamar Vieira Junior. Qual a importância desse diálogo crítico em torno da obra?
Sou sempre muito feliz com a disposição de pessoas queridas e admiráveis quanto ao meu trabalho. É um diálogo que é fruto também da generosidade dessas pessoas, que param suas leituras, seus escritos, suas ocupações — que não são poucas — para ler e falar do meu trabalho. Os diálogos críticos que produziram, todos eles, Fabrício Marques, Itamar Vieira Júnior, Lisa Alves, Dalila Teles Veras, Paulo Fernandes, Tarso de Melo, valorizam meu livro e minha poesia e sou muito grata por isso.
7. A dimensão política atravessa sua poesia. Em Atlas de Anatomia, essa perspectiva já orientava o projeto desde o início ou ganhou força ao longo da escrita?
A dimensão política orienta toda a minha poesia, não tem começo, não tem fim, é orgânica. No meu primeiro livro publicado, Fábulas para adulto perder o sono, eu invertia histórias, criava paródias poéticas de narrativas consolidadas para questionar a moral da história. Em O nome do mundo apresento uma espécie de gênese que me funda, “Vivi na terra vermelha/ Sem xampu, mamãe tentava/ Alisar-me os cabelos/ Ver se ficava branca/ Eu parecia/ Mas havia um banzo”; em Só, com peixes o desejo vem de uma sociedade que silencia mas não faz silêncio; em Garrafas ao mar, a coletividade, os problemas sociais aparecem em vários poemas; Arraial do Curral Del Rei é o canto de desapropriação de minha cidade; Estive no fim do mundo é um grito ambiental e uma saudade desta casa que vai sendo destruída; Eva-proto-poeta e A bandeja de Salomé são reações a uma sociedade que emburrece, maltrata e se evangeliza no pior sentido – são anticristos. Em Atlas trago o maior território político de todos, o território em que todo poder quer se fundar: o corpo. Em especial, o corpo das mulheres.
8. Em outros momentos, você criticou o excesso de ruído nas redes sociais. Qual sua avaliação sobre a circulação da poesia no cenário atual?
As redes sociais são extremamente ruidosas. São boas para divulgar um poema (não qualquer poema), mas não são boas para ajudar a produzir um poema. A poesia precisa de vagar, atenção, contemplação, introspecção, leitura, treino, conexão verdadeira com a linguagem, significados e significantes. A poesia precisa de maturação. Ela é o contrário da pressa das redes sociais. A poesia não bate ponto, ela não loga. Ela é o contrário do barulho das redes sociais. Ela é o contrário da competição das redes sociais. Ela é o contrário da sensação ansiosa que as redes sociais provocam. A poesia que circula nas redes serve como aperitivo, como demonstração, mas é só isso. As redes sociais servem para nos ajudar (artistas) a divulgar nosso trabalho, fazer conexões com nossos pares, saber o que está acontecendo, onde, quando; mas as redes sociais não servem para nos dar a leitura de poesia. Ler um poema na rede social é totalmente diferente de se retirar do mundo para penetrar “surdamente no reino das palavras”. Isso é possível quando se fecha as redes sociais e se abre um livro. Escrever um poema é se retirar, e um poema não começa a ser escrito quando estamos diante da página em branco. O poema exige uma higiene que muitos já não estão dispostos a fazer.
9. Sua escrita convoca o leitor a encarar a realidade sem atenuações. Que tipo de experiência pretende provocar com este novo livro?
Gosto de pensar que as pessoas são mais fortes quanto mais souberem a verdade, a verdade de não termos as respostas. Falar do corpo é falar do Mistério. É o contrário do que pregam os donos da verdade, que sabem tudo, de onde viemos, para onde vamos... enfim, esse desastre a que assistimos. Porém, o corpo, do corpo estamos perto. Pelo corpo é possível fazer algo. Creio que ler poesia é ter contato com algo bonito, algo criativo, algo que passou de dentro para fora, de fora para dentro, na usinagem do corpo desabrochado em linguagem. A capa do livro tem isso, um corpo que desabrocha em flor. Essa flor é a linguagem. Espero que Atlas de anatomia provoque nas pessoas o que gosto que livros provoquem em mim: reflexões, perguntas, alumbramentos, “pulos do gato”, silêncios.
10. O livro foi descrito como um “mapa de resistências”. Que percursos esse mapa sugere ao leitor?
Esse mapa de resistência sugere que cada pessoa tome posse de seu próprio corpo e passe a amá-lo e respeitá-lo como seu território; que ele, o corpo, como primeira e última casa de cada um, seja de fato “o asilo inviolável do indivíduo”. É o mapa de um território muito complexo, não é dual, é todo.
11. Em sua trajetória, títulos como Fábulas para adulto perder o sono e Estive no fim do mundo e me lembrei de você ajudam a compreender seu percurso literário. De que forma essas obras dialogam com o novo livro?
Formalmente, são livros temáticos. É uma forma que gosto de escrever, quase como narrativas longas. Creio que dialogam com Atlas de anatomia no sentido de que subvertem ditames, transformam discursos. Eu gosto de fazer livros atrevidos. Escrevi meus próprios contos de fadas, escrevi minha própria bíblia, agora escrevi meu próprio Atlas de anatomia.
SOBRE A AUTORA
Adriane Garcia | Poeta, nascida e residente em Belo Horizonte. Publicou Fábulas para adultos perder o sono (Prêmio Paraná de Literatura 2013), O nome do mundo (2014), Só, com peixes (2015), Arraial do Curral del Rel – a desmemória dos bois (2019). Pela editora Caos & Letras publicou Eva-proto-poeta (2020) e A bandeja de Salomé (2022).
Serviço
Livro: Atlas de Anatomia
Autora: Adriane Garcia
Editora: Caos e Letras
Páginas: 116
Preço de capa: R$55,00
Data de lançamento: 25/04
Local: Bar e Restaurante Feijão Tropeiro, Rua Sergipe, 220, Centro, Belo Horizonte-MG.
*Taciana Oliveira - Natural de Recife (PE), Bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) com Pós-Graduação em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, atua em direção e produção cinematográfica, criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada, e do Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário “Clarice Lispector - A Descoberta do Mundo” Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023) livro de poemas.

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