por Luiz Henrique Gurgel |
Quero ver John Malkovich
Há dias em que o destino brinca de roteirista de cinema com os acasos que brotam no caminho. Ainda mais se estivermos em livrarias, feiras de pulgas, de artesanato, de produtos orgânicos ou esotéricos. Dia desses, num sábado de sol lá em Porto Alegre, uma aparição, súbita e discreta, deu o ar da graça. Não se conseguiu um bom registro fotográfico para comprovar a história. E o que se conseguiu é tão enigmático quanto a própria figura.
Uma moça me contou. Ela vende incensos e vestidos indianos, com estampas exuberantes, em feiras, praças e parques. Chega e instala sua banca com os panos, cristais, mistérios e promessas de felicidade.
Foi então que um sujeito de óculos de sol, roupa de linho azul, apareceu flanando e parou exatamente na banca dela, a contemplar e a manusear a maciez das estampas vivas dos vestidos e echarpes. A moça achou o careca charmoso, rosto conhecido. A ficha não caiu na hora. Seria o vocalista daquela banda de rock famosa cujo nome não lembrava? Gringo turista, mas sem trejeitos de turista. Olhar meio vesgo e penetrante, por trás das lentes pouco escuras, boca entreaberta em meio sorriso, como se fosse sussurrar uma confidência.
Outras moças curiosas surgiram em volta, sem ousar incomodar. A da banca mesmo, segundo ela me contou, não tinha um inglês “simpático" e continuava em dúvida. Desconfiou, então, que fosse aquele ator charmosérrimo, sexy e tudo mais, atualmente na casa dos 70 anos.
Era ele. Voz aveludada, inconfundível: John Malkovich! O passional frio e perverso polimorfo Visconde de Valmont, na inesquecível versão para o cinema de “Ligações Perigosas” (Stephen Frears, 1988); ou então aquele que teve a mente penetrada por desejos de meio mundo em “Quero ser Jonh Malkovich” (Spike Jonze, 1999); ou ainda o sujeito rico e entediado que foi zanzar pelo deserto africano – um viajante, jamais turista – buscando novos rumos para a vida em “O céu que nos protege” (Bernardo Bertolucci, 1990). Podia ser também o norte-americano de origem brasilo-polaca, comandante do navio de cruzeiro, em “Um filme falado” (Manoel de Oliveira, 2003). Cito os filmes só para dar vontade no leitor de ir ver ou rever.
Ele estava ali. Tinha desembarcado na cidade para apresentar um espetáculo de teatro baseado numa história do chileno Roberto Bolaño.
A moça ficou contida, apesar do espanto. Outras, mais nervosas e sem conseguir manejar o celular com precisão, buscavam ângulos para enquadrar o ator que, de costas, continuava a examinar os vestidos. Num ato de coragem, sem querer incomodá-lo, ela se aproximou e pediu para fazer uma foto.
O sorriso malkovichiano quase a derreteu. Delicadamente, ele explicou que preferia não ser fotografado. Falou em privacidade e que queria ser visto apenas como uma pessoa olhando vestidos num sábado de sol. Tão gentil que o "não" soou como elogio.
O que Malkovich buscava naqueles vestidos? Na peça que ia apresentar, ele narra a história de um poeta e aviador da extrema direita chilena. Pelo que me lembro do episódio em “A literatura nazista na América”, delicioso e paródico livro de Roberto Bolaño, o personagem de “O infame Ramirez Hoffman” era um esteta sem ética, um perverso no pior sentido. Mas o ator, ali, só estava interessado no prazer provocado pelo toque no tecido âmbar e sedoso, talvez quisesse presentear a companheira ou até tinha vontade de vestir um e sair voando.
Ele apenas sorriu, deu bye e voltou para o hotel. Deixou atrás de si o rastro de linho azul na banca de produtos esotéricos. O registro mal deu para o Instagram. Sobrou apenas a imagem - de costas - e a metonímica careca.
A melhor perspectiva é aquela que não explica tudo. A história fica é gravada na cabeça da moça, que diz não esquecer do balançar mágico e lento dos seus vestidos na arara enquanto ele ia embora.
Eu mesmo só queria era ver John Malkovich de perto.
Luiz Henrique Gurgel é jornalista, professor e pesquisador. Mestre em Literatura Brasileira pela USP, é autor do livro de contos “amores malfadados” (Ed. Primata, 2020) e “Porque era ele, porque era eu e outras quase histórias” (Caravana Editorial, 2023).
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