A Dicotomia do Vilarejo | Pedro Matos

por Pedro Matos | 


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A Dicotomia do Vilarejo 


         O conto “Os Invisíveis”, presente no livro “Sete Contos, Caim”, de Wellington Amâncio, apareceu-me como uma catarse histórico-documental. Imaginemos que a morada do senhor, caro leitor, de uma hora para outra, se tornasse um conglomerado de detritos submersos no talvegue de um grande rio, o que você faria? Num sopro, aquela frutífera materialidade, que tanto agradava o coração, que tanto afeiçoou a mente, nublada por memórias melancólicas, sucumbira pelo rumo do progresso. De forma muito bem posta pelo autor, somos colocados no seio de uma complexa dicotomia. De um lado, temos os idosos, regados de vivências e experiências, assolados por aquele passado vívido, cores aos montes, composto também pelos que se foram, e que outrora, caminhavam pelas pacatas praças de Inhambu. Valêncio, Velho Sid, Dona Júlia, Seu Oliveira, e até mesmo o padre daquele vilarejo afundado, não conseguia esconder a frustração pelo fim do antigo lar: a igreja, os sinos, os fiéis, nada parecia alcançar a beleza singela de antes. Por outro lado, temos aqueles que apenas flutuam pela nossa mente, como caracteres: os jovens. Eles não se ressentem do antes; pelo contrário, percebem a potencialidade vigente na materialidade do povoado reconstruído, com seus objetos novos e limpos. O Estado destruiu a Inhambu pretérita, para a construção de uma hidrelétrica. O impulso desenvolvimentista, a alma materializada de Furtado, se expressava naquele elemento técnico de gigantesca importância para pavimentar a estrada do desenvolvimento econômico no sertão nordestino (quiçá a dita civilidade ocidental). E, para que isso fosse conquistado, precisaríamos aprisionar a voz do povo com uma mordaça. Esse é o sacrifício que a civilização demanda. Se antes a terra sertaneja era banhada de vermelho, pelos tapuias e suas oferendas ritualísticas; agora, na era da razão, o autoflagelo possuía fins menos primitivos. E nesse contexto, acompanhamos o excêntrico “Jasão de Amauri”, a quem poderíamos notar como um “Kant à moda sertaneja”; um homem de extrema erudição, engajado em sua falta de engajamento político (isso mesmo), vivendo no mundo das belezas abstratas. Enfurnado na nova Inhambu, onde pouco se importou com a ruptura paisagística. Lido em Graciliano Ramos, Aristóteles e outros, assemelha-se aos inteligentes vampiros, que de forma proposital, se aprisionam nos góticos castelos romenos. No fim, o pobre vampiro foi incentivado a tentar amolecer o rígido coração do tecnocrata que planejou aquela empreitada no vilarejo de Inhambu. É como uma tragédia com derrota certa. Um cinema chegou no lugarejo, os velhos morreriam, os jovens viveriam, o abrasivo impulso do progresso continuou como sempre: cruel e indiferente.


Pedro Matos19 anos, vive em Delmiro Gouveia, Alagoas. Interessado por Literatura, Geografia e Filosofia, almeja unir os três em uma nova forma de ver o Nordeste e o Sertão. Estuda Geografia na Ufal, Campus do Sertão e publicou "Panthalassa" pela editora Parresía em 2025