por Carlos Monteiro |
| Fotografias de Carlos Monteiro |
Alvoradas cariocas
Há
um instante no Rio de Janeiro que não pertence a ninguém — nem aos apressados,
nem aos distraídos. É a alvorada. Não o nascer do sol em si, que já é
espetáculo suficiente, mas o que vem antes, aquele intervalo suspenso em que a
cidade parece prender a respiração, como se soubesse que algo delicado está
prestes a acontecer.
Caminhar
pela orla nesse horário é quase um ato de fé. O mar, ainda sem plateia, se move
com uma dignidade antiga. As ondas chegam sem pressa, como quem repete um gesto
aprendido há séculos. Um pescador solitário organiza seus apetrechos com a
precisão de um ritual. Mais adiante, um corredor corta o silêncio com passos
leves, respeitando, sem saber, a liturgia daquele momento.
A
luz começa tímida, desenhando contornos antes de revelar cores. Primeiro, um
azul indeciso. Depois, um dourado que escorre pelos prédios, invade as janelas,
acorda os morros. É nessa hora que o Rio deixa de ser promessa e volta a ser
realidade — mas uma realidade ainda pura, sem o peso do dia.
Nos
bairros antigos, a alvorada tem outro ritmo. Em Santa Teresa, o bonde parece
acordar junto com os passarinhos, rangendo suave pelos trilhos, como se não
quisesse interromper o silêncio. Na Lapa, restos da noite ainda resistem — uma
garrafa esquecida, uma cadeira fora do lugar, a memória recente de um riso
alto. A cidade não apaga o que foi; apenas sobrepõe camadas, como uma
fotografia que insiste em guardar todas as exposições.
E
há os trabalhadores da madrugada, esses personagens invisíveis que conhecem o
Rio antes de ele se maquiar para o dia. O gari que varre a calçada com um ritmo
quase musical, o jornaleiro que organiza as manchetes ainda frescas, o padeiro
que abre a porta deixando escapar o cheiro de pão quente — pequenos sinais de
que a vida, aqui, não espera o sol para começar.
O
curioso é que a alvorada carioca não se impõe; ela se oferece. É preciso
disposição para percebê-la, uma certa paciência de quem aceita olhar sem
pressa. Porque o Rio, nesse instante, não quer ser conquistado — quer ser
observado. Como uma fotografia que não pede legenda, apenas silêncio.
Quando
o sol finalmente se firma, trazendo consigo o barulho dos ônibus, das conversas
apressadas, dos celulares que despertam, algo daquela quietude inicial ainda
resiste. Está no brilho diferente do olhar de quem acordou cedo, na calma de
quem viu a cidade antes de ela vestir suas urgências.
Talvez
seja isso que a alvorada nos ensine: o Rio não é apenas o que se mostra ao
meio-dia, sob luz plena e calor intenso. Há um outro Rio, mais sutil, que se
revela a quem chega cedo, a quem aceita o convite de testemunhar o nascimento
do dia como quem folheia, com cuidado, uma velha fotografia.
E,
no fundo, é nesse breve intervalo — entre a noite que se despede e o dia que
ainda hesita — que a cidade parece mais verdadeira. Não porque esconda menos,
mas porque, por alguns minutos, não precisa fingir ser outra coisa.
Corra
e olhe o sol.
Carlos Monteiro é fotógrafo, cronista e publicitário desde 1975, tendo trabalhado em alguns dos principais veículos nacionais. Atualmente escreve ‘Fotocrônicas’, misto de ensaio fotográfico e crônicas do cotidiano e vem realizando resenhas fotográficas do efêmero das cidades. Atua como freelancer para diversos veículos nacionais. Tem três fotolivros retratando a Cidade Maravilhosa.






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