por *Taciana Oliveira |
Entre Recife e Buenos Aires: a cartografia afetiva da poesia de Israel Pinheiro
Após lançamento internacional em Buenos Aires, na tradicional Livraria La Libre, em San Telmo, a obra chega a Pernambuco oferecendo uma escrita que alterna lirismo, humor e reflexão. Nos poemas, o cotidiano ganha contornos poéticos, enquanto temas como amor, pertencimento, memória, luto e identidade invadem as páginas sem perder a leveza. Inspirado pela literatura, música, cinema e história argentinas, Israel Pinheiro cria uma narrativa poética que faz do deslocamento uma forma peculiar de olhar para o mundo e para si.
Nesta entrevista, o autor comenta sobre sua estreia na poesia, o diálogo entre Brasil e Argentina, a presença do humor em sua escrita e o processo de criação de uma obra que transforma experiências pessoais em matéria literária.
1- Todo o resto é poesia marca sua estreia na poesia após livros de contos. O que mudou no seu processo criativo ao migrar de um gênero para outro?
Eu tenho um enorme apreço pelos poetas de ofício e também pela ampla tradição racionalista do gênero, mas no meu caso em particular, a poesia depende de um estado anterior, ou simultâneo, de comoção. E acredito que esse é o maior câmbio no meu processo criativo. Meus contos sempre foram escritos, talvez, com austeridade, como projetos bem definidos e cerrados. Ao experimentar a poesia, o meio externo foi determinante. Eu arrisco dizer que o lirismo se desvelou diante dos meus olhos e eu, comovido, fiz poesia para prestar o meu testemunho
2 - A Argentina aparece no livro não apenas enquanto cenário, mas como uma experiência afetiva e cultural. De que forma Buenos Aires transformou sua escrita e sua percepção sobre pertencimento?
Aqui eu vou retomar a ideia de testemunho porque julgo que nós, brasileiros, precisamos desenvolver no nosso diálogo com a Argentina experiências que transcendam esportes e rivalidades pueris. O meu livro dá testemunho de uma Buenos Aires cortês, cosmopolita, disposta ao diálogo franco e, sobretudo, respeitoso para com o Brasil. Eu fui agraciado com uma perspectiva muito privilegiada da Argentina, fora da bolha turística, pude conhecê-la desde a cozinha de uma típica família portenha. A cozinha na Argentina, assim como no Brasil, é um lugar de conversas reveladoras da identidade nacional, o ambiente ideal para descobrir os elementos mais profundos e autênticos da sociedade, e ao mesmo tempo que eu descobria a Argentina, seus ciclos históricos, políticos e econômicos, eu me sentia, como brasileiro, descoberto por ela. O livro nasceu desse sentimento de correspondência.
3 - O livro utiliza o portunhol em uma linguagem afetiva. Como foi trabalhar os “erros de tradução” enquanto elemento poético?
O português e o espanhol argentino (ou castelhano, como preferem eles) compartilham muitos significantes, porém, muitas vezes com significados bastante distintos, o que naturalmente favorece alguns equívocos, a maioria deles divertidos, é verdade. Às vezes você quer elogiar e termina insultando. O que também pode ser utilizado como uma excelente escusa. Mas, na minha experiência, no que tange ao cerne da pergunta, o portunhol e os erros de tradução me mostraram que a poesia exata pode, em algumas circunstâncias, prescindir da palavra exata.
4 - Você define sua escrita como “livre de tutelas ideológicas, identitárias e de formas”. De que maneira essa ideia de liberdade aparece na construção dos poemas e na escolha da linguagem?
Na verdade, essa é mais uma postura diante da vida, que, claro, está presente também na minha escrita. E esse livro eu escrevi com a mesma independência de sempre. Com fidelidade ao sentimento, seguindo as minhas bússolas internas e com a minha boa fé. Sem temer patrulhas de nenhuma ordem e sempre buscando me irmanar ao outro e nunca apagá-lo ou negá-lo
5 - Entre referências literárias, cinema, música e história argentinas, quais influências foram mais decisivas na construção da atmosfera de Todo o resto é poesia?
Fundamentalmente, eu citaria três autores: Claudio Conti, Maria Elena Walsh e Ernesto Sabato. Na música: Mercedes Sosa, Los Piojos, Callejeros, Los Autênticos Decadentes. No cinema, as obras de Mariano Cohn, Gastón Duprat, Juan Jose Campanella e Daniel Burman. A incursão na cultura argentina fará muito bem a qualquer brasileiro. Se meu livro for um indutor dessa aproximação, eu já estarei muito satisfeito.
Espera
O desconforto dos pés
O incômodo assento de Procusto
O agouro da saída de emergência
A turbulência vertiginosa
O enjoo do poema vazio
que fala de intangível e de seiva
sem querer dizer coisa alguma
inócuo no solo e ridículo a dez mil pés
Mas tudo é miudeza
os milhares de quilômetros
as três escalas
Porque sei que me esperas
me esperas como uma mãe espera por um filho
para tirar meus sapatos
No saguão te reencontro
tão plácida, tão adorável
teu xale preto, teus cabelos de bronze
teus olhos ternos de chica
Te abraço como quem abraça um milagre
como um sobrevivente
O dono de um quiosque nos mira encantado
Tens pressa de acender um puchito.
Lá fora a madrugada de Buenos Aires, fria,
em tons inumeráveis de azul,
opera uma sutil alquimia:
nordestino típico transfigurado filho de Evita
Em alguma rua cosmopolita de Belgrano
um brasileiro e uma argentina se amarão até o amanhecer
Bilateral
Um novo tratado
entre Brasil e Argentina
Eu fico com você
eles com Santa Catarina
Cheguei
Quero provar tuas delícias
teussabores, tuas primícias
teu fernet setenta-trinta
teu alfajor, tua milanesa
teu cigarro, tua cerveja
teu perfume, tua leveza
tua parrilla, teu Chandon
o teu asco de Perón
teus discos de Paul
teu caos e teu default
E que se foda o FMI
Para sempre San Martín
Luta
Fazer desse amor instrumento de combate
contraponto à barbárie
à divisão internacional do trabalho
ao pacto sujo entre oligarcas e big techs
aos bombardeios em Gaza
à gentrificação
aos ajustes fiscais
ao encarceramento de mulheres violentadas
à pirataria financeira
às deportações em massa
ao terrorismo de estado
Tentar fazer desse amor
o que nunca foi tentado
Em claro
Nas noites impregnadas de tua ausência
eu me aferro a um tecido azul de pima
A ilusão de tua pele me ajuda a sonhar
mas não a dormir
E só quando os primeiros raios da manhã vazam as cortinas
eu, insone e vencido,
abro as janelas pro teu silêncio sair
Compre o livro: clica aqui
Serviço
Lançamento do livro Todo o resto é poesia
Autor: Israel Pinheiro
Editora: Litteralux
Data: 20 de junho de 2026
Local: Olinda – Pernambuco
Horário: a confirmar
Nascido em 1984, Israel Pinheiro é pernambucano, vive atualmente em Vitória de Santo Antão (PE) e passou a juventude em Recife. Ingressou no curso de Letras da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) em 2004 e foi premiado em concursos literários como o Luís Jardim (Prefeitura do Recife, 2007) e o do Sesc Santo Amaro (SP, 2003). Seus outros títulos são “As histórias que contei” (contos), “Um deus que não passeia sobre as águas” (novelas) e “3 Natais Recifenses” (contos). “Todo o resto é poesia” é seu primeiro livro de poesia.
*Taciana Oliveira - Natural de Recife (PE), Bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) com Pós-Graduação em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, atua em direção e produção cinematográfica, criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada, e do Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário “Clarice Lispector - A Descoberta do Mundo” Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023), livro de poemas.



Redes Sociais