Meu amigo Paulo | Davison da Silva Souza

 

Foto de Luan de Oliveira Silva na Unsplash

MEU AMIGO PAULO


Conheci Paulo ainda em 2015, quando eu atuava na Pastoral da Juventude enquanto coordenador de um grupo de jovens da Igreja Católica. Nesse grupo, ousávamos discutir sobre raça, gênero e classe social dentro do conservadorismo da igreja, utilizando como aporte teórico os ensinamentos da Teologia da Libertação. Eu, um adolescente negro, cheio de sonhos e utopias, me apaixonei por Paulo quando conversamos pela primeira vez.

Quando ingressei na Universidade Estadual do Ceará, em 2017, senti certo receio e, em meio à solidão de um universitário negro, reencontrei Paulo. Atento, me deu conselhos e ensinamentos que me guiaram no caminho. Lembro de encontrá-lo na biblioteca central da universidade:

Nesse dia, saí de casa apressado. Tinha dormido mal à noite, estava um tanto atordoado. Tomei banho, me vesti, ajeitei a mochila e bebi apenas uma xícara de café. Pedi a bênção à minha mãe e desci as escadas rumo à parada de ônibus que fica na rua de trás da minha casa. Assim que dobro a esquina, vejo o Parque Veras passar ligeiro por mim. Penso, desanimado, que perdi o ônibus. Subi a rua no sentido contrário, fui para a avenida Benjamim Brasil e peguei o Cidade Nova rumo ao terminal da Parangaba.

Chegando ao terminal, um sinal de sorte: o transporte que passava em frente à UECE já estava na plataforma. Corri, subi os degraus e me sentei no fundo. No fone de ouvido, eu escutava o novo álbum do Emicida, Sobre crianças, quadris, pesadelos e lições de casa, enquanto olhava pelas janelas do coletivo, vendo a cidade passar depressa.

Dei sinal, desci em frente à universidade e comecei a caminhar rumo ao corredor central. Pelo caminho, vi diferentes ipês floridos que bunitizavam o campus. Chego ao corredor central, olho no relógio e já são 7h30min. Estou atrasado. Aperto o passo e deslizo pelo corredor em busca do Bloco L. Chego à sala, dou bom-dia e entro desconsertado, com vergonha pelo atraso. A aula já estava acontecendo e continuou.

No fim da aula, a professora passou um trabalho sobre os diferentes tipos de educação. Pensei na popular, sugeri, e ela achou a ideia interessante. Formamos um grupo com quatro pessoas: eu e mais três amigas queridas. Após a aula, andamos em meio aos matos para o Restaurante Universitário. No cardápio, tinha jardineira e vatapá de grão-de-bico. Comemos e me despedi das amigas.

Subi as escadas e andei pelo corredor até chegar à biblioteca central. Lá, fui até o acervo. Andando pelos silenciosos corredores, entre uma prateleira e outra, avisto Paulo.

Sua cabeça branquinha e uma longa barba são inconfundíveis. Me aproximo e o toco com minhas negras-mãos. Paulo retribui o carinho e, naquele silêncio, conversamos por horas; trocamos ideias, sonhos e utopias. Ele me fala sobre sua concepção de educação, me conta histórias outras sobre suas andanças no mundo e eu, ainda tímido diante dele, conto sobre minhas poucas experiências em educação. Ele as acolhe e me acolhe.

Me olha nos olhos e diz: “você é corajoso, pra ser educador precisamos de coragem”. 

Ainda em silêncio, me despeço dele sabendo que o verei mais adiante, em diversos outros espaços e oportunidades. Fecho o livro Educação como prática da liberdade e o ponho na velha estante de metal descascado. 

Caminho lentamente pela biblioteca, atravesso a Universidade e, espero o sinal ficar vermelho. Ando até o outro lado da avenida, coloco meus fones de ouvido e faço o caminho de regresso para casa, mas não da mesma forma do que era antes.



Filho do seu José e da dona Maria, me chamo Davison da Silva Souza, mais um Silva, da periferia de Fortaleza. Mestre em Educação e Ensino (Maie-Uece), professor-alfabetizador da Rede Municipal de Ensino de Fortaleza, ilustrador, cronista e andarilho da imaginação.