O Novo Morador Kafkiano e o Conto Moderno

por Arthur Moreira |



Foto de Rocío Perera na Unsplash

O Novo Morador Kafkiano e o Conto Moderno



Com efeito, ao cabo de sete dias, estava farto da solidão; a dor aplacara; o espírito já se não contentava com o uso da espingarda e dos livros, nem com a vista do arvoredo e do céu.”

Brás Cubas


“Se Caim é vingado sete vezes, Lameque o será setenta e sete”

Gênesis 4:24


— Não é beco, meu senhor... É viela... Viela não tem saída.

Guardinha


O conto Novo Morador Kafkiano é um daqueles expoentes da literatura pós-existencialista vindas do nosso sertão. Pertencente a obra “Sete Contos, Caim”, Wellington Amâncio escreve brilhantemente sobre o despaisamento de tom ocre e opaco de alguém sem nome, despersonalizado. Da sina de gente anônima. 

O Morador, — maneira convencional dechamá-lo — recém chego à cidade, a qual se mudou para cumprir a ordem burocrática de subsistência nos municípios interioranos: tomar posse de concurso público, se pergunta “O que é o incômodo?”numa madrugada fria e silenciosa acalentada por um beco (uma viela) onde tudo era liso e duro e escuro. Na trama, O Morador vive em repetidos ciclos em diferentes setores da vida. No amor, era desprezado por Laura, “...talvez seu amor não passe de uma coisa meio do século XVIII...” — ela sussurrou, talvez no fim fosse tudo uma farsa. Rodeada pelo passado, pelos antigos relacionamentos, mantendo relações com o Morador por mera convenção. Passagem irrisória da vida. Quantas vezes um coração permite que se habite? 

Assim foi, também, com os lares. O lar é um conceito ontológico, ele jamais teve um, nunca se achou nesse mundo difuso. Afirma que ‘[...] morar consiste antes em aceitar habitar num lugar em que primeiro se aninhe o espírito, em silêncio, assentado, ornando depois e aos poucos os espaços domésticos e suas estruturas mais íntimas, com os elementos do próprio ser [...]’ mas não habitou lugar nenhum, varou por casas alugadas, vivendo uma vida impessoal, sem encaixe, em refugo, no fim, sempre fingiu. Sempre almejou a vitalidade de viver, nunca concretizou. Refugiou-se no estado aluado, mas o narrador (o próprio protagonista) não se atreve, propositalmente (o autor), a assumir isso: a experiencia vívida diz ao leitor. Isso é o conto no mundo ‘moderno’. 

Amâncio perpetua conceitos que Anatol Rosenfeld, importante crítico literário alemão do Século XX radicado no Brasil, explana em seu artigo “Kafka e o Romance Moderno”.Segundo ele, a destituição da narrativa tradicional – tendo o romance como objeto de estudo no texto citado que segue fatos cronologicamente lineares, com desenvolvimento do personagem principal, não se ancora apenas nas antigas epopeias ou das histórias míticas de heróis passados, se encaixa, na verdade, na maior parte da literatura até o século XIX, século esse onde se popularizava o tradicional realismo-psicológico, que conta com um “herói magistralmente caracterizado, mas demasiado particular e diferenciado” como, por exemplo, Raskólnikov de Dostoiévski. Isso mudou a partir de 1890 data que marca o primeiro início do modernismo. A partir disso, em comparação com a grandiosidade psicológica presentes nas obras literárias, se tornou comum o desenvolvimento de certa apatia nos personagens, tal como Meursault de Camus, em O Estrangeiro: enquanto o personagem do russo comete um assassinato e recebe uma autopunição moraldantesca, o personagem absurdista leva isso de maneira leviana.

Hoje, assim como no conto, a sociedade está cada vez mais anônima: por que inventar hoje pessoas, relações, quando perderam a sua importância? — provoca Rosenfeld. O nome já não importa mais, o foco subjetivo toma o papel de destaque conduzindo toda a narrativa profusa e embaralhada, como diz os versos de Chacal: “Pensamento é fragmento fugaz/do caos estruturado”. O Novo Morador Kafkiano é amostra do cerne da grandiosa literatura de Franz Kafka e da narrativa absurda pós-1890: o relato frio, burocrático, meticuloso, sereno, calmo e quase indiferente, não bastando descrever os fatores de uma épica história progressivamente isso seria se incrustar apenas na epiderme de um abismo imensurável do inconsciente. Em nossa época, vemos a fragmentação do ser em um mundo desumano de maneira sóbria e natural na arte e na vida. O Incômodo não é um estranhamento; é mais o querer fazer lugar numa terra estranha.




Arthur Moreira (2007) é paulista e residia em Delmiro Gouveia–AL. Entusiasta de mídias audiovisual, história, literatura, traduções, fotografia e produção musical. É também multi-instrumentista e lançou em 2023 o álbum de samba experimental  Armatos — "As lagartixas de Jeová". Publicou o ensaio "Sobre a era dourada da literatura russa — literatura soviética e suas propagações". Atualmente é discente em Literatura pela USP.