Sem Sol: fragmentos e memórias

 por João Oliveira Melo | 


Sem Sol
: fragmentos e memórias


Sem Sol (Sans Soleil,1983) é um documentário francês experimental lançado em 1983, escrito, dirigido e produzido pelo francês Chris Marker. O longa utiliza imagens de arquivos, trechos de programas e filmes japoneses, gravações realizadas por Marker e trechos de obras cinematográficas, a exemplo do curta La Jetée de sua autoria e Um Corpo que Cai de Alfred Hitchcock. O título da produção é baseado em um ciclo de canções do mesmo nome que pertence ao compositor russo Modest Mussorgsky. A obra possui versões dubladas em inglês, alemão e japonês.


O roteiro parte da narrativa interpretada por Florence Delay, que lê cartas que foram enviadas a ela por Sandor Krasna, um cameraman fictício. Ele escreve sobre suas viagens ao Japão, Estados Unidos, França, Islândia, Cabo Verde e Guiné-Bissau. O remetente das correspondências acredita que a humanidade não lembra o passado, mas cria memórias usando fragmentos da história. Além das suas experiências ao visitar esses lugares, ele menciona conflitos políticos e trabalhos artísticos japoneses e europeus. 


Destaco no roteiro a Zona, uma máquina criada por um japonês que copia e modifica imagens para criar suas próprias memórias. Esse ambiente de origem tecnológica é uma homenagem ao longa-metragem Stalker de Andrei Tarkovsky e também onde se revela que os homens não possuem uma versão portátil e compacta de uma realidade já inacessível.


Sem Sol pode ser uma experiência difícil de compreender e desorientadora devido à fragmentação local, temporal e da narrativa poética. Há possibilidade de causar desconforto no espectador por conta de imagens eróticas, descrições europeizadas e preconceituosas reveladas pela percepção do personagem (relatos negativos acerca das comunidades africanas e exotização dos japoneses), sequências de cadáveres e o incômodo de anônimos quando observados sem clara autorização. Mesmo com os pontos negativos, vale a pena assistir pela criatividade, formato imposto pelo diretor e questionamentos sobre a mente e o conhecimento.




Disponível nas plataformas MUBI e Google Play Filmes





João Oliveira Melo é natural de Recife. É aluno do oitavo período do Curso de Ciências Sociais (UFRPE).