por Valdocir Trevisan |
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| Foto de Abhishek Ravi na Unsplash |
Um passado sorridente?
Não estamos em fase retrô, o fascínio pelo passado sempre existiu. Adoramos exaltar o que passou, mas e as péssimas memórias? Parece que tudo apenas sorri e daí queremos curtir o remake, o toca-discos, as calças “rasgadas” e reviver até o que não vivemos. Afinal, “tudo” era melhor antigamente. Ah, tá… vai, vai…E a valorização no campo das recordações vale até para jovens que não conviveram com tantas coisas e parecem embriagados em um suposto passado de um mundo feliz. Porém, tal processo nos persegue há décadas e, nos anos 90, já desejávamos reviver as prioridades dos anos 60. Ora, ano passado morri, mas esse ano não morro… No entanto, o tema recrudesce, pois, para garantir um passado feliz, até mudamos a história inserindo photoshops em nosso cérebro. O historiador Júlio Pimentel Pinto escreve: “Como o passado parece se afastar de nós, procuramos reevocá-lo, modificando a história com fotos e lembranças”. Tá loko! É tudo fake? Talvez, mas não venham me convencer de que antigamente tudo era melhor. Sim, escuto meus discos de vinil com seus chiados saudosos e emoção, mas ouvir um CD “limpinho” com volume alto arrebenta meu coração. Uma guitarra Rock'n'Roll entrando nas veias ou um fagote de uma orquestra invadindo almas sem nenhum chiadinho… Uauuuuu… Ou ainda a flauta mágica do Jethro Tull “mandando ver”, ou Enya ou Loreena McKennitt com suas canções New Age penetrando no âmago do vivente. Mas, credo! E, sim, a música do passado me encanta, arrepia minha parte saudosista, mas também tinha cada porcaria… Além de um tanto de coisas para esquecer pra sempre. Não quero repetir erros e fracassos. A exemplo de Gabriel García Márquez, que narrou a passagem de um circo por Macondo, onde um cigano apresentava “a mulher condenada a ser decapitada todas as noites, durante cento e cinquenta anos, como castigo por ter visto o que não devia”. Por certo, o saudosismo não impera nos ciganos de Macondo. A emoção do passado é válida, e também arrepia. São tristes lembranças que embaçam minha visão com olhos marejados. Momentos que preferimos esquecer e que estão em nossos álbuns com cores amareladas. Foi um tempo. Há um tempo. Haverá um tempo. Tchekcov, com suas “Três Irmãs”, filosofa; seus personagens discutem seu tempo, tentam assimilar o novo, mas desconfiam que os homens sempre serão os mesmos… Ora, já disse, tenho saudades de muitos momentos, porém não desejo relembrar inúmeros dias nebulosos. O hoje é alegre e triste, assim como nosso passado, que a cada dia aumenta… e aumenta… e só aumenta… Sorri e chorei nas minhas seis décadas passadas, assim como quero chorar e sorrir até meus 90 e lá vai pedradas… Pedras rolantes… Pedras coloridas… Pedras em formas de flores para alegrar nossas mulheres… As mesmas que fizeram eu, você e ele(a) sorrir… e chorar… Taí, prefiro lembrar os amores correspondidos e esquecer aqueles que só trouxeram lágrimas… e eles que fiquem enterrados no triste passado, alegre ou inventado à maneira das tradições de Hobsbawm…
Valdocir Trevisan é gaúcho, gremista e jornalista. Autor do livro de crônicas Violências Culturais (Editora Memorabilia, 2022)


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