por Manoel Tavares Rodrigues-Leal |
Três poemas inéditos do caderno Elegia (1973) | Manoel T. R.-Leal
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| detalhe de um pôr-de-sol — © Luís de Barreiros Tavares |
In memoriam Gil Nozes de Carvalho (1954-2025)
*
É tempo que seja tempo. // É tempo. [Es ist Zeit, daß es Zeit wird. // Es ist Zeit.]
Paul Celan
E a rapariga caminha do canavial / para o lápis do dia.
Gil Nozes de Carvalho, Alba – [passo citado num caderno de M. T. R.-Leal]
(Nua unidade)
Tecem-se ângulos (línguas ou linhas) no limiar da antiguidade e seu brilho antigo.
Nascitura e furtiva a mera luz da tarde triangular e lisa. E sua usura e vertente evidente e vertigem.
Nu movimento nua unidade de ondas dadivosas e dispersas em praia antiquíssima e recente.
Lx. 23-4-73 – caderno Elegia
Como o brilho estreme da manhã acorda os sons
dos sonhos do corpo (extinto ou exposto?) expõe seu liso espelho: então as mãos palpitam
repercutem o rumor do amor morto e antigo __ a atenção da manhã é pura e detém
seu tecto intacto de brancura. Do corpo aceso as algas da alma assumem múltiplos tons outonais e nupciais
a escultura ilesa do mar a prumo ao meio-dia.
Setúbal – 24-6-73 – caderno Elegia
Dos resíduos do desiderato da tarde remota nascem brancas
ancas cálices transbordantes de sono: anulam o anelo e a alegria puras nas décadas opacas do corpo,
acumuladas, acumuláveis em metáfora.
A lâmina de luz de Novembro soçobra na abóbada de lisas letras… (o sopro, no palato?).
Lx. Dez. 1970 (outras datas: …72, …74 e 75…) – caderno Elegia
*
P.S.
Devagar escreva
uma primeira letra
escreva
nas imediações construídas
pelos furacões
[…]
Ana Cristina César
*Poemas coligidos por Luís de Barreiros Tavares
Manoel Tavares Rodrigues-Leal (Lisboa, 1941–2016). Foi aluno das Faculdades de Direito de Lisboa e de Coimbra até ao 5.º ano, não concluindo. Conviveu em jovem com Herberto Helder no café Monte Carlo frequentando “as festas meio clandestinas, as parties de Lisboa dos anos 60 e 70”. Conheceu Sophia (era primo do marido da poeta, Francisco Sousa Tavares), Gastão Cruz, Maria Velho da Costa, José Sebag, Pedro Tamen, José Bação Leal, entre outros. Trabalhou na Biblioteca Nacional como “Auxiliar de Armazém de Biblioteconomia”. “A minha chefe deixava-me sair mais cedo para acabar o meu primeiro livro”, A Duração da Eternidade (2007). Cinco livros de edição de autor (de 2007 a 2011). Poemas na “Nova Águia”, “Caliban”, “Triplov”, “Mirada (BR)”, “Pessoa Plural (Brown University, University of Warwick, Universidad de los Andes)”, “A Ideia”, “Ameopoema (BR)”, “Occaso: voci poetiche dal Portogallo” (IT), “Athena”, etc. Os últimos dias de vida foram trágicos. Caído no quarto, morreu absolutamente só no Natal e passagem de Ano 2015–2016.


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