por Carlos Monteiro |
Luares Cariocas
Há
cidades que pertencem ao sol. O Rio de Janeiro pertence também à lua.
Pouca
gente presta atenção, mas a Cidade Maravilhosa muda de personalidade quando o
astro da noite assume o comando do céu. O Rio diurno é conhecido de todos:
praias cheias, buzinas apressadas, vendedores ambulantes, guarda-sóis
coloridos. Já o Rio iluminado pela lua é outro. Mais silencioso, mais
romântico, mais misterioso. Um Rio que parece posar para uma fotografia em
preto e branco.
Numa
noite de lua cheia, basta caminhar pela orla de Copacabana para entender. O mar
deixa de ser apenas mar. Torna-se um espelho inquieto, recortado por trilhas
prateadas que dançam sobre as ondas. A cada arrebentação, a luz se desfaz e se
recompõe, como se alguém estivesse revelando fotografias líquidas no
laboratório da natureza.
Da Praia
Vermelha, aos pés do Pão de Açúcar, a lua surge devagar atrás das montanhas,
desenhando contornos que durante o dia passam despercebidos. O morro ganha
sombras profundas, as pedras ficam douradas de prata e os barcos ancorados
parecem adormecer sobre a baía. É um espetáculo gratuito e diário, embora
muitos cariocas, acostumados à beleza, já não o percebam.
Na Lagoa
Rodrigo de Freitas, o luar encontra um de seus palcos preferidos. A água serena
acolhe o reflexo da lua como uma moldura acolhe um retrato. Ciclistas reduzem o
ritmo sem perceber. Casais silenciam. Até os remadores parecem respeitar aquele
instante em que céu e lagoa conversam sem palavras.
Há também
os luares vistos dos morros. Do alto de Santa Teresa, por exemplo, a cidade
acende suas luzes enquanto a lua paira sobre a Baía de Guanabara. Lá de cima, o
Rio parece uma constelação espalhada entre montanhas. É difícil saber onde
terminam as estrelas do céu e começam as estrelas da cidade.
Mas nem
toda lua carioca é cheia e exuberante. Há encanto também na lua crescente,
tímida e delicada, pousada sobre o Cristo Redentor como um adereço
cuidadosamente colocado por um cenógrafo celestial. E existe poesia na lua
minguante, quando a madrugada pertence apenas aos pescadores, vigias, boêmios e
fotógrafos que insistem em conversar com a noite.
Talvez
por isso os luares cariocas sejam tão especiais. Não iluminam apenas a
paisagem; iluminam memórias. Cada carioca guarda uma história sob alguma lua.
Um beijo na praia, uma conversa na calçada, um retorno para casa depois de uma
festa, um instante de contemplação diante do mar.
Enquanto
observava a lua refletida nas águas escuras da enseada, pensei que o Rio tem a
rara capacidade de ser belo em qualquer horário. Mas há uma elegância
particular quando a cidade se veste de luar. Como uma velha atriz que dispensa
maquiagem e, ainda assim, encanta a plateia.
E a lua,
generosa e cúmplice, continua voltando todas as noites para iluminar a mais
famosa das paisagens brasileiras, como quem nunca se cansa de admirar a Cidade
Maravilhosa. Afinal, algumas belezas nasceram para ser vistas ao sol. Outras,
para serem lembradas à luz da lua. O Rio tem a sorte de possuir as duas
Carlos Monteiro é fotógrafo, cronista e publicitário desde 1975, tendo trabalhado em alguns dos principais veículos nacionais. Atualmente escreve ‘Fotocrônicas’, misto de ensaio fotográfico e crônicas do cotidiano e vem realizando resenhas fotográficas do efêmero das cidades. Atua como freelancer para diversos veículos nacionais. Tem três fotolivros retratando a Cidade









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