por Taciana Oliveira |
Roberto Azoubel revisita duas décadas de pensamento crítico em Novos Engenhos
Novos Engenhos – Ensaios e artigos de cultura contemporânea (2003-2025), de Roberto Azoubel, reúne mais de duas décadas de reflexões sobre cultura, literatura, política e identidade. É uma obra que funciona simultaneamente enquanto ensaio crítico, autobiografia intelectual ou testemunho de uma geração que viveu as transformações culturais do Recife nas últimas décadas. Sua estrutura adota uma concepção inspirada no universo fonográfico, estabelecendo um itinerário de leitura que conecta crítica, memória e música. O livro abrange temas que vão do regionalismo nordestino ao Manguebeat, da crítica literária às inquietações da cultura contemporânea. A organização não é somente um recurso gráfico: ela revela uma concepção narrativa em que os ensaios conversam entre si tal qual faixas de um mesmo álbum, produzindo uma “sonoridade” crítica da cultura brasileira.
Destaco o conjunto de textos dedicados ao Nordeste e ao Manguebeat. Azoubel revisita debates clássicos sobre identidade regional, em interlocução com autores como Durval Muniz de Albuquerque Jr., para questionar as imagens cristalizadas da região enquanto espaço da saudade, da miséria ou da revolta. No seu lugar, propõe uma leitura híbrida e cosmopolita da região, encontrando no Manguebeat uma das expressões artísticas mais importantes dessa reinvenção cultural. O autor compreende o movimento numa chave interpretativa para pensar os fluxos entre local e global, tradição e modernidade, centro e periferia. A célebre imagem da “antena parabólica enfiada na lama” é a manifestação de uma cultura que transcende fronteiras, mantendo vivas suas especificidades e referências..
Seus ensaios abordam temas como a democratização da leitura na era digital, o papel da literatura na formação do pensamento crítico, as tensões da política contemporânea e as mudanças nos critérios éticos e estéticos que orientam a recepção da arte. Ao longo de suas reflexões, o autor traz referências de diferentes tradições e gerações que vão de Jorge Luis Borges a Chimamanda Ngozi Adichie, Nelson Rodrigues a Ariana Harwicz.
Novos Engenhos revela uma disposição para a dúvida e para a revisão permanente das próprias certezas. Essa postura já aparece na nota do autor, quando Azoubel apresenta os textos como resultado de diferentes momentos de sua trajetória, assumindo que o pensamento crítico é também um processo de transformação pessoal.
O prefácio de Xico Sá sintetiza bem o espírito da obra ao definir o livro como um convite a pensar um “Nordeste remixado”, distante tanto do folclore quanto dos estereótipos exóticos frequentemente associados à região. Nesse sentido, Novos Engenhos não é apenas uma coletânea de ensaios: é um exercício de desmontagem de narrativas prontas e uma defesa da cultura enquanto espaço de invenção, conflito e reinvenção constante.
Roberto Azoubel concebe um livro que interessa não somente aos estudiosos da cultura nordestina, mas a todos aqueles que desejam compreender como arte, literatura e política se entrelaçam na formação do nosso tempo. Entre o engenho da cana e o engenho da criação, sua escrita constata que pensar a cultura é também imaginar futuros possíveis.
"Tudo o que produzimos de mais relevante é mestiço": Roberto Azoubel fala sobre cultura e identidade brasileira
1. Em Novos Engenhos, você revisita textos escritos ao longo de mais de duas décadas. Ao relê-los hoje, o que mais lhe surpreende: as mudanças em seu pensamento ou a permanência de certas inquietações?
As duas coisas. Novos engenhos tem uma estrutura muito clara, ele é dividido em duas partes muito distintas: uma com textos de visadas mais sociológicas/antropológicas, com discussões sobre o regionalismo, tendo como ponto focal a movimentação cultural que ocorreu no Recife durante a década de 1990 e que conhecemos pelo híbrido nome de Manguebeat; outra um tanto mais intimista, que aborda temas que dizem respeito aos campos da leitura e da literatura. Eu diria que, em relação à primeira parte, muitas questões permanecem e que são inquietantes não só para mim, como para o debate público das ideias sobre a produção/criação cultural. São questões que tratam a cultura como uma arena de disputas, onde os discursos são sempre reflexos de interesses de grupos, sejam eles em quaisquer esferas: nacional, regional ou local. Sobre a segunda parte, creio que ela aponta para mudanças. E aí, penso que ela seja mais reveladora da minha própria transformação ao longo dos anos, decorrente de um interesse ainda maior pela literatura, acreditando fortemente nela como o último refúgio do sensível, do humano (sobretudo num mundo cada vez mais formatado por lógicas/funcionamentos binários, instituídos, cada vez mais, pelas novas tecnologias de comunicação).
2. A obra propõe uma reflexão crítica sobre as diferentes imagens construídas do Nordeste ao longo do século XX. De que maneira o Manguebeat contribuiu para romper com os estereótipos regionais e abrir novas possibilidades de interpretação da cultura nordestina?
Essa reflexão crítica sobre as dizibilidades e visibilidades da região é, de fato, o maior propósito da primeira parte do livro, intitulada LADO A – Regionalismo e Manguebeat. Uma reflexão crítica – e aí é preciso ser honesto com o leitor – que não é nova, uma perspectiva de leitura sobre o Nordeste que já tinha sido esboçada pelo Tropicalismo no final dos anos 1960 e que foi traduzida no ambiente acadêmico pelo historiador Durval Muniz de Albuquerque Jr., através de sua premiada tese A invenção do Nordeste e outras artes, publicada em 1996 (ganhou o Prêmio Nelson Chaves de teses sobre o Norte e Nordeste brasileiros da Fundação Joaquim Nabuco neste ano). E o que constitui essa leitura? Resumidamente: um rompimento com a formação discursiva nacional-popular, questionando a função conservadora e anti-moderna que esta construção imagético-discursiva representava. Há aqui, nesse mesmo ano da publicação do trabalho de Durval, uma feliz confluência: o lançamento do disco Afrociberdelia, segundo álbum de Chico Science & Nação Zumbi, que não só consagra a banda como coloca o Recife/Pernambuco como o território mais criativo e efervescente da cultura brasileira. Evidentemente, há aproximações interpretativas sobre o Nordeste e sobre o Brasil na tríade Tropicalismo-Durval-Manguebeat. Mas também há pontos de diferença. O que há de original em Novos engenhos é que ele chama a atenção para essas diferenças nesse debate.
3. O título Novos Engenhos sugere tanto uma referência à tradição nordestina quanto à ideia de criação e reinvenção. De que forma essa noção de “engenho” atravessa os ensaios e ajuda a compreender as transformações culturais discutidas no livro?
Essa expressão que intitula o livro é do jornalista Xico Sá, criada numa de suas crônicas do saudoso site O Carapuceiro – conto isso na nota que abre o livro. Não por acaso, Xico escreveu o prefácio. Quem é de, vive ou viveu em Pernambuco e nos estados nordestinos onde predominou a monocultura da cana-de-açúcar, sabe do peso que o substantivo “engenho” possui. Uma palavra que, nesses lugares, está imediatamente vinculada às velhas edificações de moagem da cana-de-açúcar, ou seja, atrelada à produção de uma economia material, passa a ganhar uma conotação que se refere à capacidade humana de criar, de inventar coisas, atrelando o termo ao universo do simbólico. Como se trata de um livro sobre novas produções nos campos da cultura e da arte, o sentido predominante da palavra, obviamente, é o da criação, da reinvenção, que termina por funcionar como uma ironia homônima ao sentido material da tradição.
4. Em diversos momentos, o livro questiona identidades rígidas e valoriza os processos de mistura, trânsito e transformação cultural. Em um cenário marcado por polarizações e disputas de pertencimento, qual é o papel da cultura na construção de visões mais complexas da realidade?
Essa é uma pergunta aguda e de pertinência enorme nos dias que correm. É verdade, o livro valoriza os processos de misturas e trânsitos culturais. Nesse sentido, particularmente, tenho uma grande admiração por muitas coisas gestadas pelos modernismos brasileiros, coisas tanto conceituais, no plano das ideias, como seus resultados físicos/empíricos que se expressaram em obras, construções etc. Nossos modernismos, por exemplo, foram capazes de estabelecer a ideia de mestiçagem como algo positivo, enquanto em parte significativa do mundo, mesmo em países considerados avançados, pregava-se a ideologia de pureza racial. Foi um avanço enorme. As consequências disso geraram resultados fantásticos, tudo de mais relevante que produzimos no campo da cultura é mestiço e, por consequência, complexo. No entanto, transformações culturais não são necessariamente acontecimentos prósperos. Se continuarmos no exemplo da questão racial, percebo, nos dias que correm, essa ideia vitalista (e antifascista por princípio!) da mestiçagem sendo descartada pela importação de uma lógica puritana que pouco corresponde às realidades brasileiras. Eis uma transformação cultural que termina por facilitar as polarizações e que tende a esvaziar a rica complexidade de nossas culturas.
5. Entre os temas abordados estão literatura, crítica cultural, política, regionalismo e cultura digital. Existe um fio que conecta todos esses ensaios ou o livro é justamente uma celebração da diversidade de olhares e interesses que compõem sua trajetória intelectual?
Novamente, penso que há as duas coisas. O fio que conecta todos os textos do livro é justamente a diversidade de olhares e interesses que compõem a minha trajetória intelectual. Há muito de autobiográfico nesse fio que costura Novos engenhos, há claramente um movimento que vai da cultura à literatura (sem perder de vista que esta está enredada na teia daquela). Penso que o leitor mais atento perceberá esse movimento. O posfácio do livro escrito pelo professor e pesquisador Josias de Paula Jr. (UFRPE) mostra isso com muita sensibilidade e precisão. Foi um presente que muito me emocionou quando eu recebi - brinco com o autor dizendo-lhe que é o melhor texto do livro -, pois me reconheço bastante nele. E não há gratificação maior para quem se arrisca a escrever (e publicar) algo que conseguir um grande leitor.
SERVIÇO
Novos engenhos — ensaios e artigos de cultura contemporânea (2003-2025), de Roberto Azoubel,
com prefácio de Xico Sá e posfácio de Josias de Paula Jr.
Editora Titivillus
Quanto? R$ 70,00
Onde encomendar? clica aqui
Próximo lançamento: 18/07 às 16h
Onde: Museu Regional de Olinda - MUREO (Endereço: Rua do Amparo, 128, Cidade Alta, Olinda).
Roda de conversa com Débora Nascimento (Revista Continente), Josias de Paula Jr. (UFRPE)
e Rodrigo Acioli (Editora Titivillus).
Roberto Azoubel é antropólogo, escritor, pesquisador e gestor cultural. Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), é mestre e doutor em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), com pesquisas dedicadas às relações entre literatura, cultura, identidade, regionalismo e novas mídias. Atuou em projetos para o cinema, a televisão e instituições culturais, além de desenvolver pesquisas sobre música, cultura popular e comunicação. É organizador do livro O Carapuceiro – crônicas de um website sempre moral e só per accidens político (2013) e autor de Novos Engenhos – Ensaios e artigos de cultura contemporânea (2003–2025), obra que reúne mais de duas décadas de reflexões sobre literatura, política e cultura brasileira.
*Taciana Oliveira - Natural de Recife (PE), Bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) com Pós-Graduação em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, atua em direção e produção cinematográfica, criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada, e do Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário “Clarice Lispector - A Descoberta do Mundo”. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023), livro de poemas.


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