O Rio posa para mim | Carlos Monteiro




Fotografias de Carlos Monteiro

O Rio posa para mim

Ruy Castro me olha como quem examina um negativo antigo: aproxima os olhos, procura a luz certa, tenta adivinhar o que ficou fora do enquadramento. Dizem que ele me vê mais jornalista do que fotógrafo, mais cronista do que repórter, e talvez esteja certo. A câmera, para mim, nunca foi apenas máquina; foi pretexto para permanecer na rua. O que me interessava não era a foto perfeita, mas o instante imperfeito em que a cidade se revelava humana.

Ruy gosta dessas figuras que caminham entre a fumaça dos bares e a poeira das redações, gente que recolhe histórias do chão. Talvez por isso me trate como personagem de um Rio que insiste em sobreviver. Ele sabe que o fotógrafo não chega antes do acontecimento; chega junto, ofegante, espremido na multidão, tentando salvar um fragmento do dia para a edição da manhã seguinte.

Imagino Ruy descrevendo meu ofício: "Carlos Monteiro não fotografava monumentos; fotografava o que passava diante deles." E é verdade. O Rio nunca coube inteiro no Pão de Açúcar ou no Corcovado. O Rio estava no jornaleiro que assoviava samba às seis da manhã, na garçonete que equilibrava bandejas em Copacabana, no aposentado que alimentava pombos na Cinelândia, no menino que mergulhava na Praia do Flamengo como se desafiasse a própria cidade. Era esse Rio que eu perseguia.

Ruy, que conhece como poucos a geografia sentimental da cidade, talvez percebesse também minha melancolia. Toda fotografia nasce de uma perda: o momento desaparece no exato segundo em que o obturador se fecha. O cronista tenta remediar isso com palavras; o fotógrafo, com luz. Eu tentava com os dois. Por isso minhas imagens vinham quase sempre acompanhadas de frases, pequenas legendas que eram confissões disfarçadas.

Se me perguntassem como Ruy Castro me enxergaria, eu diria: como um homem que passou a vida procurando o Rio nos rostos. Não o Rio oficial das placas e cerimônias, mas o Rio das esquinas, dos botequins, das madrugadas úmidas, das conversas interrompidas pelo bonde. Um sujeito que descobriu tarde que a fotografia é apenas outra forma de escrever crônicas — só que com silêncio.

E talvez ele concluísse, com a ironia afetuosa que lhe é própria, que eu nunca consegui decidir se era fotógrafo ou cronista. A verdade é que nunca precisei escolher. No Rio, basta sentar à mesa de um café, observar a rua e esperar. A cidade sempre acaba posando.



Carlos Monteiro é fotógrafo, cronista e publicitário desde 1975, tendo trabalhado em alguns dos principais veículos nacionais. Atualmente escreve ‘Fotocrônicas’, misto de ensaio fotográfico e crônicas do cotidiano e vem realizando resenhas fotográficas do efêmero das cidades. Atua como freelancer para diversos veículos nacionais. Tem três fotolivros retratando a Cidade