por Taciana Oliveira |
Novo livro de Ricardo Ramos Filho destaca como as lembranças continuam guiando nossas escolhas
Novo livro de Ricardo Ramos Filho destaca como as lembranças continuam guiando nossas escolhas
As memórias de quem amamos permanecem vivas mesmo depois da despedida? É a partir dessa pergunta que o escritor Ricardo Ramos Filho construiu “Vovô é uma estrela”, novo livro publicado pela Maralto Edições, com ilustrações de Angelo Abu. Dando continuidade à história iniciada em “Vovô é um cometa”, a obra acompanha a jovem jogadora de futebol Lalu em uma nova etapa de sua vida, marcada pela realização profissional e pelos ensinamentos deixados por seu trisavô Américo.
Após se destacar no Corinthians, Lalu recebe uma proposta para defender o Portland Thorns, uma das principais equipes do futebol feminino dos Estados Unidos. Enquanto se prepara para iniciar a carreira internacional, a atleta encontra força nas lembranças do trisavô, personagem inspirado no bisavô do próprio autor, cuja convivência despertou em Ricardo Ramos Filho o gosto pelas histórias e pela imaginação.
“Era um velhinho que gostava de contar histórias, e eu adorava ouvi-las. Acho que muito do escritor que me tornei nasceu dessa oralidade tão fascinante”, recorda o autor.
No livro, a morte não aparece enquanto um encerramento definitivo, mas uma transformação. Américo torna-se uma presença simbólica que continua orientando Lalu em momentos decisivos de sua trajetória. A figura da estrela funciona como metáfora da permanência dos afetos e do legado deixado por aqueles que marcaram nossas vidas.
Além da relação entre memória e família, o romance incorpora temas ligados ao universo esportivo. Um dos assuntos presentes na narrativa é o movimento Equal Pay, que reivindica igualdade salarial entre atletas homens e mulheres. Para Ricardo Ramos Filho, inserir o futebol feminino no centro da história também representa uma forma de enfrentar preconceitos ainda associados à modalidade.
"Quem disse que futebol é uma atividade exclusivamente masculina? Gosto de explorar o universo feminino em meus livros. Muitas vezes escrevo em primeira pessoa assumindo a perspectiva de meninas e mulheres. É um exercício importante de empatia e aprendizado", afirma.
A ética também ocupa lugar central na obra. Em uma das passagens mais significativas da narrativa, Lalu abre mão da vantagem em uma partida para socorrer uma adversária machucada, reforçando a ideia de que competir não significa abandonar valores como respeito, solidariedade e honestidade. Para o autor, vencer só faz sentido quando a dignidade do outro também é preservada.
As ilustrações de Angelo Abu complementam a narrativa com um trabalho desenvolvido em técnica híbrida. Utilizando recursos digitais sem abrir mão da linguagem da aquarela, do lápis e do pastel, o artista cria imagens que dialogam com a delicadeza da história e ampliam a experiência de leitura.
Voltado ao público jovem, mas capaz de dialogar com leitores de diferentes gerações, “Vovô é uma estrela” reúne esporte, relações familiares e formação humana para refletir sobre perdas, permanências e os vínculos que continuam a orientar nossas escolhas mesmo na ausência física daqueles que amamos. A obra já está disponível no catálogo da Maralto Edições e integra o Programa de Formação Leitora da editora, destinado a escolas de todo o país.
A Mirada conversou com Ricardo Ramos Filho sobre os bastidores da criação de “Vovô é uma estrela”. Na entrevista, o autor fala da inspiração autobiográfica para a obra, da construção da protagonista Lalu, da importância do futebol feminino na narrativa e de temas como luto, memória, empatia e ética atravessam sua escrita.
1. A relação entre Lalu e o trisavô Américo é o coração da narrativa. Como as memórias do seu próprio bisavô influenciaram a construção dessa história e dos ensinamentos transmitidos ao longo do livro?
Meu bisavô, no caso pai de minha avó paterna, era um velhinho muito querido. Gostava de contar histórias, recuava muito no tempo, afinal ele nasceu antes do final do século XX. Eu ouvia aquelas histórias do tempo da escravidão, de engenhos de cana de açúcar, sempre muito ávido, devorava tudo aquilo. O gosto pelas narrativas orais, tenho certeza, fizeram de mim escritor. O texto é ficcional. Os ensinamentos passados por meu bisavó Américo, e outros idosos que conheci durante a vida, formaram um caldo que deu na personagem do livro. Nele tenho todos aqueles com quem aprendi, que me ofereceram carinho, minhas referências.
2. Em “Vovô é uma estrela”, a morte não aparece como um fim definitivo, mas uma transformação. Por que foi importante abordar o luto a partir dessa perspectiva, especialmente para o público jovem?
Por ser a maneira como prefiro lidar com o luto. A morte em si é muito violenta, porque nos rouba as pessoas queridas. Para o jovem, ela é uma figura ainda mais distante, eles irão demorar para enxergá-la como ameaça. Então não há drama. É melhor encará-la, como alguma coisa inexorável, mas que deixa vivas as recordações, as marcas na gente de quem partiu, uma saudade que é quase boa. O luto deles é diferente daquele do idoso. Porque o mundo dos velhos, com as perdas, as ausências daqueles que partiram, vai ficando cada vez menor. Para o jovem, o luto é raro, dor passageira, estão ainda plenos de vida.
3. Lalu alcança o auge da carreira ao ser contratada por uma equipe internacional. De que forma o futebol feminino se tornou um caminho para discutir temas como representatividade, igualdade de oportunidades e superação de preconceitos?
Eu gosto de discutir temas muitas vezes negligenciados na escola. As questões de gênero, o preconceito, a violência, os dilemas éticos, precisam fazer parte do universo do jovem como oportunidade de ampliação do universo crítico. O futebol, principalmente o futebol, talvez o esporte de mais sucesso no mundo, sempre foi considerado uma seara masculina. Só mais recentemente meninas puderam praticar a modalidade. Na família, entre os meninos, nas ruas, custaram a ser aceitas. E até hoje são olhadas com alguma reserva. Serão de fato mulheres? Mostrar uma Lalu feminina, namorando, engravidando, creio ter ajudado a melhorar a maneira como as profissionais desse esporte são olhadas.
4. A ética ocupa um papel importante na trajetória da protagonista, especialmente quando ela coloca o respeito ao outro acima da competição. Que reflexões você espera despertar nos leitores sobre sucesso, mérito e solidariedade?
Fala-se muito em meritocracia hoje em dia. Mas raramente são discutidas as oportunidades. É importante o jovem saber que existem caminhos que são mais difíceis. O preto pobre geralmente encontra oportunidades mais restritas. O sucesso não pode ser obtido a qualquer custo. Até porque ganhar passando por cima dos outros não traz a mesma felicidade que o mérito limpo. Temos que observar o outro com humanidade, sermos solidários, acolhermos o próximo, ou nos distanciamos muito daquilo que faz de nós um "bicho" diferente dos outros. Ser ético é pesar até onde podemos ir para conseguir alguma coisa. Se ultrapassamos o limite do aceitável, nada mais vale a pena.
5. Embora seja uma obra voltada ao público jovem, o livro dialoga com leitores de diferentes idades ao tratar de afeto, memória e perda. Na sua visão, o que faz com que histórias como a de Lalu e Américo consigam atravessar gerações?
O fato de nós, humanos, de qualquer idade, gostarmos de ouvir histórias, de elaborarmos afetos e perdas. Vem da tradição oral. A gente cresce curioso, atento, querendo sempre mergulhar em uma trama vivida. E nem mesmo percebemos que todas as histórias são muito parecidas. Há sempre um/uma herói/heroína, um desafio, obstáculos a serem enfrentados, uma jornada a ser cumprida, um retorno depois do sucesso obtido. Crianças, jovens e adultos são vidrados nessa dinâmica.
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| Foto: Leonardo Elias |
O ilustrador
Angelo Abu nasceu em Belo Horizonte, em 1974, e foi criado em Porto Seguro. Formado em Cinema de Animação pela UFMG, atua como ilustrador há mais de três décadas, com destaque para livros infantis e juvenis. Ao longo da carreira, ilustrou obras de autores contemporâneos e adaptações de clássicos da literatura, entre elas Dom Casmurro, Moby Dick, Simbad, o marujo, Macunaíma em quadrinhos e A sombra da mangueira.
Serviços:Serviço – Lançamento em São Paulo
Vovô é uma estrela
Autor: Ricardo Ramos Filho
Data: 8 de julho
Horário: 18h
Local: Livraria da Vila – Unidade Fradique Coutinho
Endereço: Rua Fradique Coutinho, 915 – Pinheiros



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