Um chão para Carrero | Cícero Belmar

por Cícero Belmar|


Imagem: Reprodução/Instagram

Um chão para Carrero 


A parte deste latifúndio, que coube ao escritor e mestre de todos nós, Raimundo Carrero, 78 anos, a quem eu chamava de Carrerão, foi uma gaveta no Cemitério de Santo Amaro, área Central do Recife. Está lá, para visitação, aos que perderam suas últimas quimeras: velório principal, corredor C, gaveta 109. É um espaço físico muito medido, temporário, onde o corpo foi acomodado. E repousará pelos próximos dois anos.


A gaveta é um lugar para sepultar os mais modestos, divisória de um paredão, onde comumente são tumuladas pessoas do povo, cujas famílias não têm um jazigo. O caixão, com algumas coroas de flores espremidas, foi depositado ali. O coveiro colocou uma placa de gesso para fechar a entrada. Depois, fez uma mistura de água com o pó do gesso. Tudo muito prático, aplicou a massa nos buracos, dando o acabamento nas quinas, corrigindo os defeitos na superfície. Como está acostumado a fazer diariamente.


Uma das maiores poetas brasileiras, hoje, Cida Pedrosa, amiga de longas datas de Carrerão, enchia-se de emoção, os olhos boiando no gel das lágrimas: “Bel, ele merecia um túmulo. Merecia algo que fosse como um memorial, na altura do seu legado”. Eu sentia o mesmo. A poetisa estava revoltada com a pouca importância dada pelas autoridades culturais à morte do escritor, que nos deixou na madrugada de 16 de junho de 2026, vítima de câncer.


Cida me sugeriu: “Escreve uma crônica, Bel, e põe como título Um chão para Carrero”. Aqui, está. Pelo menos, aqui. Nossa justiça em palavras.


Carrerão foi sepultado num final de tarde, na presença de quinze ou vinte pessoas, se muitos fossem, entre familiares, amigos e admiradores que puderam acompanhar. É certo que, em vida, onde ele chegava, era muito festejado, mas nem todos foram ao enterro. São as coisas do dia a dia, nem sempre é possível comparecer aos atos de fé e solidariedade.


Estávamos lá eu, Cida, o diretor de teatro José Manoel Sobrinho, os escritores Ney Anderson, Valdir Oliveira, Thiago Medeiros de Caruaru e o argentino Hector. Não o Babenco – brincadeira que digo quando lhe encontro –, mas o poeta Hector Pellizzi.


Como eu ia dizendo, foi sepultado num final de tarde. Um sol alaranjado, esmorecendo. A escuridão, chegando. Nós, escritores, acompanhávamos o passo a passo do coveiro, com cara de quem não estava entendendo bem o nosso lugar no mundo. O que era visível e material, naquele instante, parecia perder o lugar central no mundo, na nossa existência: tudo o que vivemos acaba-se no gesto de misericórdia de um coveiro.


O que é um cemitério? Um depósito? É preciso acreditar nas coisas invisíveis. Ainda bem que trabalhamos com isso. Com personagens, com cenários de quinta dimensão. Ainda bem que temos esse defeito de origem, que é acreditar no invisível e querer organizar o caos.


Deixamos o Grande Mestre. Voltamos pelas alamedas do Cemitério de Santo Amaro, engasgados com as palavras. A solidão dos túmulos, na noite que chegava, nos espreitava. Voltávamos, cerimoniosos, para a poesia nossa, de cada dia. Para escrever a crônica que ainda nos cabe.





Cícero Belmar é escritor e jornalista. Autor de contos, romances, biografias, peças de teatro e livros para crianças e jovens. Pernambucano, mora no Recife. Já ganhou duas vezes o Prêmio Literário Lucilo Varejão, da Fundação de Cultura da Prefeitura do Recife; e outras duas vezes o Prêmio de Ficção da Academia Pernambucana de Letras. É membro da Academia Pernambucana de Letras. E-mail: belmar2001@gmail.com; Instagram: @cicerobelmar. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às segundas-feiras.