por Taciana Oliveira |
"Sob o Céu de Isaías": Vítor Kappel tece uma tragicomédia queer sobre amadurecimento, liberdade e reinvenção
Nos últimos anos, a literatura brasileira ampliou o espaço para histórias que discutem identidade, afetos e resistência, revelando personagens marcados por contradições, vulnerabilidades e processos de transformação. É nesse território que se insere Sob o Céu de Isaías, romance de estreia do escritor fluminense Vítor Kappel. Publicada pela Editora Patuá, a obra apresenta a trajetória de Isaías Petit, um adolescente LGBTQIAPN+ que enfrenta as inquietações do último ano escolar enquanto tenta encontrar seu lugar em uma cidade pequena marcada por preconceitos, silêncios e contradições.
Premiado pelo Talentos Helvético-Brasileiros e segundo colocado no Tato Literário – Prêmio com.tato de Literatura Independente, o livro combina elementos de romance de formação, drama e comédia para construir um retrato sobre amadurecimento, sexualidade e liberdade. Ao mesmo tempo em que acompanha as descobertas afetivas do protagonista, especialmente a relação construída com o colega Bernardo, a narrativa lança um olhar crítico sobre o conservadorismo e as pressões sociais que atravessam a vida de muitos jovens brasileiros.
Sustentado por um humor agridoce que chamou a atenção de Carol Bensimon e Helena Terra, Sob o Céu de Isaías encontra beleza nas imperfeições da vida, convertendo situações dolorosas em experiências de autoconhecimento, ternura e resistência. Entre tropeços, sonhos e conflitos, Isaías emerge em um personagem capaz de enfrentar as dificuldades sem perder a capacidade de rir, amar e reinventar a própria história.
Nesta entrevista, Vítor Kappel fala sobre a construção do romance, a presença do humor enquanto ferramenta de resistência e os desafios de escrever uma história queer ambientada em um país ainda marcado por diferentes formas de preconceito.
1. Sob o Céu de Isaías acompanha um jovem LGBTQIAPN+ em seu último ano escolar, em uma cidade marcada por conservadorismos e contradições. O que motivou você a situar essa história em um ambiente aparentemente tranquilo, mas profundamente opressor?
A ambientação procura evidenciar a tensão constante entre a promessa de liberdade e o sentimento de confinamento que muitas vezes marca as pequenas cidades brasileiras. Basta acompanhar o noticiário para perceber quantas histórias de dor, violência e conflito emergem de cenários aparentemente serenos, revelando uma realidade muito mais complexa do que as aparências sugerem. O que me interessava era retratar uma sensação amplamente reconhecível no Brasil como um todo. O livro aborda um puritanismo que assola o país e que se manifesta impondo códigos de conduta em nome de valores tradicionais, sendo o colégio mais um desses espaços. Esse modelo se infiltra no discurso público, na educação, política, e na cultura, provocando estigmatização e culpa.
2. Você afirma que Isaías não é exatamente um alter ego, mas um reflexo distorcido de si mesmo. Quais aspectos da sua experiência pessoal foram mais importantes na construção desse personagem?
Costumo dizer que esse personagem é muito mais inteligente, perspicaz e interessante do que eu jamais fui — a vida real, afinal, costuma ser menos generosa com a narrativa. Também não fui submetido às mesmas provas que ele enfrenta. Sua trajetória de amadurecimento se desenrola como uma espécie de epopeia tragicômica ao longo do último ano escolar, acumulando situações extremas, embaraçosas e transformadoras. Do meu próprio passado, o que permanece não são necessariamente os acontecimentos em si, mas certas sensações: o sufocamento, a inadequação, a impressão de estar preso a um mundo pequeno demais para os próprios desejos. O verdadeiro desafio foi converter esses sentimentos difusos em cenas e conflitos que servissem à história, em vez de simplesmente reproduzir experiências pessoais. O que me atrai atualmente é justamente a possibilidade de partir de emoções autênticas para construir algo que pertença à imaginação, permitindo que a literatura alcance lugares mais coletivos, em que a memória, sozinha, jamais conseguiria alcançar. Creio que há uma frase de Camus que diz: "A ficção é a mentira através da qual contamos a verdade." Acho que ele acertou em cheio.
3. O romance aborda temas difíceis, como preconceito, violência e exclusão, mas sem abrir mão do humor. Como surgiu a ideia de utilizar a tragicomédia para narrar uma história de formação queer?
Sempre tive em mente o desejo de não carregar em tintas melodramáticas, optando por uma comicidade melancólica. O maior desafio foi tentar levar um pouco do meu olhar, e conferir frescor na abordagem do tema central de emancipação e identidade, garantindo um olhar existencial, mas ainda assim oferecendo uma fluidez narrativa por meio do humor. Creio nele como ferramenta de aproximação, numa linguagem compartilhada: duas pessoas que riem da mesma coisa reconhecem, em algum grau, uma experiência comum. É possível dizer algo verdadeiro sem o peso imediato da confissão.
4. A relação entre Isaías e Bernardo funciona enquanto possibilidade de afeto e resistência em meio a um contexto hostil. Qual a importância de representar vínculos afetivos LGBTQIAPN+ para além do sofrimento e da marginalização?
A dinâmica entre os dois surge como um vínculo afetivo transformador, com impacto profundo. Creio que Bernardo não oferece respostas fáceis a Isaías. Oferece algo mais raro: a coragem de imaginar uma vida que não precise pedir licença para existir. Essa possibilidade é a luz no fim do túnel para muitas vidas que enfrentam o dilema de Isaías. E ela nasce justamente de uma cumplicidade recheada de ternura e entrega.
5. O livro dialoga com questões muito presentes no Brasil contemporâneo, como o puritanismo, os discursos tradicionais e os preconceitos estruturais. Na sua visão, de que forma a literatura pode contribuir para ampliar o debate sobre diversidade e liberdade de existir?
A possibilidade de existir plenamente passa também pela possibilidade de se reconhecer nas histórias que contamos. Quando um leitor encontra em um livro experiências, afetos e conflitos semelhantes aos seus, percebe que sua vivência tem valor e lugar no mundo. Da mesma forma, ao entrar em contato com realidades diferentes da própria, amplia sua compreensão sobre a complexidade humana. A literatura talvez não tenha o poder de resolver, sozinha, as desigualdades e tensões sociais, mas possui algo igualmente importante: a capacidade de humanizar o outro, desafiar preconceitos e afirmar a legitimidade das múltiplas formas de ser, amar e viver.
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Vítor Kappel nasceu em Nova Friburgo (RJ) em 1986 e hoje vive no Rio de Janeiro (RJ). É graduado em Engenharia de Produção pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e mestre em Gestão Empresarial com Foco em Inovação pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Trabalhou na última década com apoio a projetos audiovisuais, pesquisa e inovação no país. Mais recentemente, passou a se dedicar a escrever obras de ficção.
Taciana Oliveira - Natural de Recife (PE), Bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) com Pós-Graduação em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, atua em direção e produção cinematográfica, criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada, e do Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário “Clarice Lispector - A Descoberta do Mundo”. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023) livro de poemas.



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