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Entrevista com Conceição Rodrigues: Escrevo como gostaria de ler, cruel e doce, como a vida

 por João Gomes da Silva| 



Conceição Rodrigues: "Escrevo como gostaria de ler, cruel e doce, como a vida"

* Entrevista anteriormente publicada na Revista Vida Secreta

Conceição Rodrigues é essa mulher: sertaneja de Arcoverde, professora na rede pública de Pernambuco, poeta das bordas, das brasas e das beiras onde a dor e o afeto se confundem. Com uma obra que mistura sacro e profano, brutalidade e ternura, ela escreve como quem devolve o tapa com flor e o beijo com um corte. Suas palavras carregam a marca do que é indizível e, mesmo assim, dito como quem ri nas chamas do próprio inferno. Autora dos livros Molhada até os ossos, Os dedos das santas costumam faiscar, E Deus não acudiu ninguém e, mais recentemente, Para dançar na cerca elétrica, todos publicados pela editora Patuá, Conceição constrói uma poética marcada pela coragem de sentir, pela recusa da assepsia, pela pulsão de escavar os porões da alma humana. Nesta entrevista, ela fala com franqueza sobre infância, escola pública, escrita como vingança, elogios inesperados, plantas carnívoras e o riso que escapa mesmo quando tudo dói.

1. Conceição, que corpo fala quando você escreve: o da menina de Arcoverde, a professora de Recife, ou a mulher que dança na cerca elétrica?

Sou a mulher que dança na cerca elétrica e que dança com demônios, com vivos e mortos. Minha origem, de sertaneja, é parte importante do que sou. Recife é minha mulher, porém, na maior parte do tempo, sinto que não sou de lugar nenhum… sou meio desterro, dona/habitante de terra nenhuma, sendo de todos os lugares, me compadeço e amo e odeio independente da geografia. Preciso trabalhar, manter o mínimo de independência, sou professora, fico perto da linguagem, aprendo. Procuro trazer para os estudantes o pensamento crítico e livre. Trabalho exaustivamente na formação de leitores, sei que isso é realmente relevante na vida das pessoas. A arte é importante para todas as almas. Ser escritora é meu grito, meu urro, minha razão e as flores ternas que entrego. É meu recado para o mundo, cheio de afeto e dor. O recado e o mundo.

2. A guerra parece estar em todo canto do mundo e da escrita. Quando ela começou dentro de você?

A minha guerra começou na infância, em uma conjuntura de violência, de dor, de carências. De silêncio, de interditos. De hipocrisia e injustiça. De carinho, também. Sempre estive na corda bamba, nessa perspectiva dual morrer-viver. E já naquela época eu era melancólica e pensante demais. Isso me trouxe muito sofrimento.

3. A poeta dança na cerca elétrica. Essa imagem tem algo de cruel e ao mesmo tempo vital. Que corpo é esse que se atreve a dançar onde outros morrem?

Dançar na cerca elétrica é ousar fazer do fatal, do triste, do destino universal, algo até bonito. É amar, amar muito. É diante da iminente tortura e da derrota cerrar o punho e deixar um escarro, sorrir. Sorrir o máximo possível, até rasgar, sorrir para a morte no momento em que ela chamar para a valsa.

4. Como é ser professora da rede pública enquanto escreve versos sobre a brutalidade do Estado, e o que você aprende com seus alunos que não encontra nos livros?

A escola, de maneira geral, é uma extensão do Estado no sentido da contenção da liberdade, do pensamento, principalmente quando governos de ultradireita estão no poder. Serve ao status quo. Muitos que convivem nesse espaço não têm ideia disso. A escola não pode ser só tecnicista. Precisa ser lugar do pensar.

A escola serve para formar mão-de-obra, trabalhadores dóceis enquanto explorados, para manter os dominadores dominando, quando não tem interesse em formar pensadores… os dominadores também não pensam. E se pensam, pensam mal, para o mal.

Em tempos de imediatismo, do que chamo Era fast-food, a preguiça de pensar ou de se dedicar a algo que não será entregue imediatamente pelo uber flash, dificulta as coisas. Tudo precisa ser rápido, fotografável e superficial. Claro, há estudantes e professores que se afastam dessa conjuntura… gente dedicada, comprometida. Isso me motiva.
Eu abandonei a escola ainda no ensino fundamental. Depois voltei a contragosto. Ela não me estimulava, eu queimava aula e ia para a biblioteca pública.

Os estudantes são amostras de vários universos, que podem ser fabulosos. Aprendo com eles em suas humanidades. No momento em que estou professora valorizo e busco contribuir para a eclosão da curiosidade e da reflexão.


5. As palavras podem virar armas ou afagos. Com que intenção você as molda?

Com toda essa dualidade dentro de outras multifaces, pensando em vingança e perdão. Querendo me perder e me redimir. Querendo a paz e a danação. Tudo começa espontâneo, sou essa pessoa de alma rebelde e dócil, que não gosta de convenções, que duvida das coisas, violenta e delicada. Escrevo como gostaria de ler, cruel e doce, como a vida, o amor e o destino irremediável. Gosto de misturar gêneros, de surpreender e de ser o palavrão cabeludo depois de uma palavra terna, ou o contrário, por exemplo.

6. O que há nos excluídos, nos diferentes, que tanto te convoca?

Por ser alguém que, muitas vezes, não se sente pertencente, que tem o coração à margem, tenho interesse genuíno por essas pessoas em suas interfaces. Alguns são espelhos e, se não são, por meio da literatura, consigo vivenciá-los como faz uma atriz. Quero as sensações. Ser e sentir o outro.

O mundo como é, sempre foi e será, no sentido do que é a alma humana, me desestabiliza… sanitários de ouro maciço para uns e a falta de comida para outros… já no interior dos espíritos, as dores e paixões são as mesmas. Meu ponto de vista é muito pautado em nossa finitude e nos afetos.

A intromissão na vida afetiva alheia me incomoda… pautar as pessoas de acordo com a sexualidade delas, denota burrice e maldade. Categorizar as pessoas por cores e classes é uma infâmia. Existe uma tabela de importância humana de acordo com essas premissas, você nunca viu? rsrsr

Por outro lado, me encaixo na vida “burocrata”, de trabalhadora, que muitas vezes me esfacela, cumpro prazos, pago meus impostos e não furo fila. Mas rezo de olho aberto.

Sou cínica por sobrevivência, por dentro tenho minhas regras e ojerizas que não devo confessar. Não sou flor que se cheire. Sou mulher, dentro do meu privilégio de branquitude, é claro, mas sei bem o que é ter medo de andar sozinha na rua, sei o que é ser taxada de puta aos 12 anos de idade por passar batom e andar de bicicleta, sei bem o que é ter de amarrar os peitos para esconder que estava crescendo. Sei o que é alguém passar a mão em mim sem meu consentimento.

Por ser mulher, vão me taxar e julgar por qualquer coisa que eu faça. De ser freira à garota de programa, então apenas faço o que satisfaz meu espírito e me deixa dormir com menos culpas, isso não quer dizer que eu não tenha insônia. Quanto ao resto, não está sob meu controle.

7. Você já disse em entrevista que sua escrita é uma forma de transformação. Que parte sua já foi transformada por ela?

Não paro de me transformar, ao mesmo tempo, a essência está aqui. Sou a mesma menina que tem medo que a mãe se mate e que o pai não volte. Minha mãe se matou e meu pai não voltou, mas ainda tenho medo, fico alerta, como quem está diante do precipício… às vezes sou obrigada a me jogar lá de cima… me jogo de costas para não ver a queda, mas sinto frio na barriga. Ainda sou aquela menina que diz que vai fazer algo (para não entrar em uma enrascada ou para encurtar uma conversa) e que, no fim das contas, faz o que quer, de um jeito ou de outro.



8. O posfácio do seu mais recente livro (
Para dançar na cerca elétrica) é de Lourival Holanda. Que conversa sua poesia teve com a crítica dele?

Lourival é um dos maiores críticos e pensadores deste país. É um homem singular, eis a verdade. Poucas são as verdades, essa é uma. Tive a sorte de tê-lo por perto acompanhando o que escrevo desde Molhada até os ossos. A alegria de ser ele crítico e prefaciador de Para dançar na elétrica, levarei comigo sempre. É uma honra.

9. Seus poemas faíscam, mas o que você teve que queimar para que eles acendessem?

Ando nua e do avesso, sem medo (mesmo quando tenho), queimando em brasas, bem devagar, para escrever procurando cooptar e captar o que está no porão do sentimento humano. Não posso ter vergonha, não devo ser higiênica, não devo seguir regras ou posso fazer tudo o que disse ao contrário. O importante é haver verdade, verdade no verso, verdade na personagem, verdade na escrita. Só a alma humana me interessa, e no fundo dela não há mentira que não se revele, tudo está lá, basta escavar.

Sou um olhinho na fresta do mundo, olho inútil, porém atento. Não mudarei nada da realidade, do que é factível, mas registro e transmuto pela escrita. É como se eu estivesse recriando o mundo, fazendo uma denúncia, me vingando, tendo outra chance, vivendo mil vidas, sendo um verme esmagado, tirando véus, sendo a deusa que cria cosmos, planetas e o que nunca se pensou, apesar da falta de novidades. Isso é poderoso.




10. Você acredita que a literatura brasileira está olhando para fora de si?

Acho que tem de tudo, muita riqueza e muito do que não gosto (gosto é subjetivo, intransferível). Eu escrevo fora de mim, com afastamento, e de dentro.

11. Qual foi o elogio mais inesperado — e mais verdadeiro — que você já recebeu como escritora?

Por sorte, tenho recebido críticas favoráveis ao que escrevo, inclusive, de pessoas que respeito muito no campo literário, além de quem lê simplesmente porque gosta, o que é delicioso.

Sei que tem quem não goste. Tenho uma amiga querida, Gisele Carvallo, fotógrafa e poeta, que já me disse que o que escrevo não é a vibe dela, pela mistura do profano, do sexo, com o sagrado, pela linguagem, pelas temáticas etc. Eu gostei tanto disso. Foi tão natural e simples. As pessoas têm direito de não gostar ou de não se sentir à vontade. Mesmo assim, me pede para dar opiniões no que escreve, que é doce, delicado e terno, gosto de ler, fiz o prefácio do livro dela, Centelhas, e a vida seguiu, e nós seguimos nos respeitando, com afeto mútuo.

12. Há um humor rasgado, quase punk, na sua linguagem. Você ri enquanto escreve?

Fico rindo nas chamas do meu inferno… rio dos meus infortúnios, fracassos, da minha irrelevância, das minhas ilusões, rio quando gozo, principalmente. E quando sou feliz.

Em relação ao ritmo do que escrevo, muitas vezes é punk mesmo, e rock também, mas há gradações e nuances, e o que vem antes do verbo, o silêncio e um vasto nada. O que eu quero é me espalhar, não há pra onde. Fica essa válvula de fogo e ar fechada. A qualquer hora, estoura.

Se a sua poesia fosse um bicho, que bicho seria? E o que ele morderia primeiro?

Acho que sou planta carnívora, sempre à espreita. Se vacilar, engulo. Ao mesmo tempo, qualquer um pode me arrancar… sem esforço. Sou frágil.

13. Que lugar o prazer e a revolta ocupam na sua poética e quais são seus próximos projetos literários?

Há de tudo, e o prazer está em tudo. Sobretudo, escrever, a coisa do passo a passo, do dia a dia, da alegria de criar, das dificuldades, do durante a coisa toda. É uma escravidão voluntária, dolorosa e prazerosa. Escrever literatura é procurar revelar a alma humana naquilo que nos eleva ou assombra, é rebeldia, revolta e inconformismo. É compromisso levado às últimas consequências, isso significa entregar a vida, o que pode ser mais prazeroso que se entregar por querer?

Meu próximo plano é publicar uma novela, engavetada há 12 anos. Sempre digo que será ela, mas termino desistindo. Dessa vez, vai. É de uma história familiar complexa, tem algo de autobiográfico, mas também tem muita invenção, como deve ser.



*Conceição Rodrigues nasceu em Arcoverde, portal do sertão pernambucano, viveu a maior parte da vida no Recife, onde reside até hoje. Graduada em Letras, especialista em Literatura e mestra em Estudos da Linguagem, atua como professora na rede pública estadual. Sua trajetória literária inclui menções honrosas no III e IV Prêmio Pernambuco de Literatura, respectivamente pelos livros Corda para nós (contos) e 323 (romance). Trabalhou como assistente de Raimundo Carrero na Oficina de Criação Literária da UBE e tem participação ativa em antologias, além de atuar como assessora, mentora e leitora crítica em produção textual literária. Publicou os livros Molhada até os ossos (2020, poemas), Os dedos das santas costumam faiscar (2021, poemas) e E Deus não acudiu ninguém (2023, contos), todos pela Editora Patuá.



João Gomes da Silva nasceu no Recife–PE em 1996. Autodidata, é escritor, poeta e social media. Publicou em algumas antologias, como Granja, Sub-21, Capibaribe vivo, Tente entender o que tento dizer, No entanto: dissonâncias, etc. Edita a revista de literatura e ideias Vida Secreta. Revezamento secreto é seu primeiro livro de poemas.