por Taciana Oliveira |
Em Nascer é uma catástrofe, Vinicius Damasceno acompanha a trajetória de um jovem marcado pela pobreza, pela violência e pelo cárcere para refletir sobre as origens da exclusão social.
Poucos títulos sintetizam tão bem uma obra quanto Nascer é uma catástrofe. Antes mesmo da primeira página, Vinicius Damasceno apresenta ao leitor a ideia que atravessa todo o romance: para alguns, o nascimento não representa um recomeço, mas o início de uma sucessão de violências e privações. Não se trata de uma provocação gratuita, mas da síntese de uma existência marcada pela pobreza, a violência, o cárcere e a ausência de oportunidades. A frase que dá título ao livro também anuncia o itinerário de Igor, narrador e personagem que revisita a própria trajetória a partir de uma cela de prisão, após receber a notícia da morte da mãe.
A narrativa evita transformar seus personagens em exemplos morais. O interesse de Vinicius Damasceno está menos em julgá-los do que em compreender as circunstâncias que atravessam suas vidas. O próprio prefácio adverte que a história "não foi escrita para agradar nem para explicar tudo", mas para apresentar vidas que começam em desvantagem e escolhas que, muitas vezes, são moldadas por uma realidade que antecede qualquer decisão individual. A narrativa acompanha a infância de Igor na fictícia Viela Carcará, espaço permeado pela fome, pela insegurança e pela precariedade. A avó, Dona Ana, representa a principal referência afetiva do menino, enquanto a mãe, consumida pelo alcoolismo e pela violência doméstica, oscila entre a ausência e a agressividade. A sobrevivência depende da sopa distribuída por uma ONG, das doações de vizinhos e da capacidade de encontrar pequenos gestos de cuidado em meio ao abandono.
Embora trate de temas duros, Vinicius Damasceno evita transformar seus personagens em meros símbolos da exclusão social. O romance se destaca justamente na construção das relações familiares e na maneira como evidencia que o afeto também pode existir em locais marcados pela escassez. Dona Ana, por exemplo, não nasce idealizada; é uma mulher que enfrenta os próprios limites enquanto tenta preservar alguma dignidade para os netos. Essa dimensão impede que a narrativa reduza seus personagens à condição de vítimas.
Outro aspecto que merece destaque é a linguagem. Logo na nota do autor, Damasceno explica que as escolhas linguísticas procuram respeitar a oralidade do universo retratado, entendendo a fala enquanto identidade, território e memória. Essa decisão confere autenticidade ao romance sem transformar a linguagem popular em caricatura. Pelo contrário, a oralidade participa da elaboração psicológica das personagens e do ambiente em que vivem.
A escrita é direta, econômica e visual. Os capítulos são conduzidos por cenas curtas e descrições precisas, que aproximam o leitor da experiência narrada sem recorrer ao excesso melodramático. O romance alcança sua força quando Igor rememora episódios da infância ou observa, já no cárcere, a sucessão de violências que parecem anteceder qualquer possibilidade de escolha . A narrativa insiste em uma pergunta desconfortável: até que ponto uma trajetória individual pode ser compreendida sem considerar as condições sociais que a produziram?
O romance transfere o debate sobre criminalidade para um terreno mais complexo, onde pobreza, abandono, violência doméstica, encarceramento e desigualdade aparecem enquanto partes de uma mesma estrutura. Sem recorrer ao discurso panfletário, a obra convida o leitor a refletir sobre a responsabilidade coletiva diante de vidas que, desde o nascimento, parecem É uma narrativa que provoca incômodo não pelo choque gratuito, mas porque obriga o leitor a enxergar aquilo que tantas vezes permanece invisível.
Confira, a seguir, a entrevista com Vinicius Damasceno.
1. Logo no título, o romance rompe com a ideia de que nascer representa apenas um novo começo. O que você pretende provocar no leitor ao afirmar que, para determinadas pessoas, o nascimento já carrega uma dimensão trágica?
Quero provocar uma reflexão sobre a desigualdade dos pontos de partida. Ninguém escolhe onde nasce, em que família chega ao mundo ou quais condições encontrará. Para algumas pessoas, nascer significa proteção, afeto e oportunidades. Para outras, significa chegar a uma realidade já marcada pela fome, pela violência, pelo abandono, pela escassez de escolhas reais e pela ausência do Estado. O título não pretende afirmar que alguém esteja condenado desde o nascimento. Ele chama atenção para o fato de que algumas pessoas começam a vida muitos passos atrás. Antes de julgarmos suas escolhas, talvez seja necessário compreender como essas escolhas foram construídas e quais caminhos estavam, de fato, disponíveis.
2. O romance acompanha Igor desde a infância até o cárcere, mas evita transformar o personagem em vítima ou em herói. Como foi o processo de construir uma figura marcada por contradições, capaz de assumir responsabilidades sem que o contexto social seja apagado?
Meu objetivo era construir um personagem humano, contraditório e responsável por suas escolhas. Igor erra, machuca pessoas e precisa responder pelo que faz. Mas suas decisões não surgem no vazio. Elas são formadas dentro de uma infância marcada pelo medo, pela fome, pela violência e pela falta de referências. Compreender o contexto de alguém não significa justificar seus atos. Significa recusar explicações ou julgamentos simplistas. Igor não pode ser reduzido nem à condição de vítima, nem à de agressor. Em alguns momentos, sofre as consequências do ambiente em que cresceu; em outros, torna-se responsável pela dor de outras pessoas. Essa contradição é justamente o que o torna humano.
3. Na nota do autor, você afirma que a linguagem do livro “não é descuido, é identidade, é território, é memória”. Por que era importante preservar a oralidade das personagens e que papel essa escolha desempenha na autenticidade da narrativa?
A linguagem também conta a história de uma pessoa. A forma como alguém fala revela o território onde cresceu, as relações que construiu, os grupos aos quais pertence e até as ausências que carregou. Se eu ajustasse completamente a fala das personagens à norma culta, retiraria delas parte de sua identidade. Eu queria que o leitor não apenas soubesse onde Igor vivia, mas que pudesse escutar aquele lugar. Não se trata de reproduzir uma caricatura da periferia, mas de reconhecer que existem diferentes maneiras legítimas de construir pensamento, afeto e memória por meio da linguagem. Preservar a oralidade foi uma escolha literária para dar autenticidade às personagens, sem transformar sua maneira de falar em algo menor.
4. A história nasceu de duas décadas de trabalho voluntário em uma ONG e de reflexões surgidas durante a terapia. Como você encontrou o equilíbrio entre a experiência vivida e a criação ficcional para evitar que o romance se transformasse em um relato autobiográfico ou em uma denúncia documental?
O trabalho voluntário me aproximou de realidades que dificilmente podem ser compreendidas apenas por meio de dados ou notícias. A terapia, por sua vez, fez com que muitas dessas experiências retornassem em forma de perguntas sobre origem, escolhas, pertencimento e responsabilidade. Mas Igor não representa uma pessoa específica, e sua história não reproduz uma trajetória real. A ficção me permitiu reunir emoções, ambientes e contradições sem expor ninguém e sem transformar o livro em autobiografia ou denúncia documental. Meu compromisso não era registrar uma realidade de forma literal, mas criar uma narrativa capaz de aproximar o leitor dela.
5. Ao longo do livro, a fome, a violência, o abandono e o encarceramento aparecem pela perspectiva de quem vive essas experiências cotidianamente, e não como dados estatísticos. Você acredita que a literatura consegue provocar uma forma de empatia que o debate público e as notícias, muitas vezes, não alcançam?
Acredito que sim. Os dados são fundamentais para mostrar a dimensão de um problema, mas podem criar distância. Quando uma realidade aparece apenas em números, corremos o risco de esquecer que cada estatística representa uma vida, uma família, um medo e uma história. A literatura faz o movimento contrário: aproxima. Ela dá nome, voz e desejo a quem muitas vezes aparece apenas como número ou estereótipo. O leitor não precisa concordar com Igor, perdoá-lo ou justificar suas decisões. Mas, ao conhecer sua trajetória, talvez passe a julgá-lo com menos facilidade e mais profundidade. Talvez essa proximidade desperte um pouco mais de compaixão, reduza nossos julgamentos automáticos e transforme, ainda que discretamente, a maneira como olhamos para o outro.
Serviço:
Livro: Nascer é uma Catástrofem (Cobé Editora)
Autor: Vinicius Damasceno (@viniaugustodamasceno)
Páginas: 134
Disponível para compra através do link
Taciana Oliveira - Natural de Recife (PE), Bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) com Pós-Graduação em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, atua em direção e produção cinematográfica, criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada, e do Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário “Clarice Lispector - A Descoberta do Mundo”. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023), livro de poemas.
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