por Taciana Oliveira |
Meu maior interesse enquanto escritora é construir personagens palpáveis e abordar as relações humanas com honestidade. | Iara da Silva
O tempo é o verdadeiro narrador de O jacarandá na esquina (Editora Patuá, 2025). Não o tempo das grandes transformações históricas, mas aquele que se revela no corpo, nas casas, nas plantas do jardim e nos objetos que sobrevivem aos seus donos. É nesse núcleo íntimo que Iara da Silva instala sua protagonista. A narrativa encontra fôlego na sucessão dos dias, nas lembranças que interrompem o presente e nas ausências que continuam organizando a vida de quem ficou.
A personagem Perpétua acorda, prepara o café, cuida das plantas, vai ao supermercado, conversa com as filhas, observa o jardim. À primeira vista, nada parece romper a monotonia dessa rotina. É justamente aí que o romance encontra sua cadência. Cada gesto cotidiano abre espaço para uma camada de memória, fazendo com que presente e passado coexistam sem fronteiras rígidas. Um vaso de flores, um retrato, uma escada rolante, um programa de televisão ou o cheiro do quintal bastam para recolocar diante da personagem toda uma existência.
Iara da Silva compreende que a memória raramente obedece à cronologia. Ela surge por associações, interrompe o presente, desloca o olhar. O romance acompanha esse movimento com naturalidade, dispensando explicações. Ao invés de organizar a vida de Perpétua em uma sequência de acontecimentos, a autora permite que o leitor monte, pouco a pouco, o retrato dessa mulher que atravessou paixões, maternidade, perdas e envelhecimento.
A construção de Perpétua escapa a uma representação recorrente da velhice na literatura. Longe de limitar a personagem ao lugar da sabedoria, da resignação ou da decadência, a autora preserva suas contradições. Em uma das passagens mais delicadas do romance, ao se deparar com imagens de homens jovens na televisão, a protagonista confronta um interdito raramente explorado pela ficção: o desejo feminino na velhice. A cena não busca provocar. Apenas devolve humanidade a um corpo que a sociedade insiste em tornar invisível.
Essa mesma delicadeza aparece na relação entre Perpétua e Domingos. O casamento não é uma idealização romântica, mas uma convivência erguida em pequenas fidelidades diárias. Depois da morte do marido, a ausência não ocupa apenas a lembrança da personagem; instala-se na casa, nos objetos, no jardim, nos hábitos que permaneceram. O luto deixa de ser um episódio para se tornar uma forma de convivência com quem já não está.
A velhice é invadida por limitações físicas, medo da morte e sensação de invisibilidade, mas também há humor, desejo, ironia e capacidade de reconstrução. A autora não transforma Perpétua em símbolo. Mantém-na inteira, contraditória, muitas vezes desconcertante. É justamente essa recusa da simplificação que aproxima o leitor da personagem. Iara da Silva opta por períodos fluidos, imagens discretas e um vocabulário que não busca ornamentações. Em diversos momentos, o texto desacelera para acompanhar o tempo interior da protagonista, fazendo com que a leitura reproduza o ritmo da memória. Há passagens em que o romance se aproxima do ensaio, outras em que assume tonalidade poética, sem perder a clareza narrativa.
O jacarandá que dá nome ao livro permanece quase sempre uma presença silenciosa. Não é apenas um cenário, mas uma imagem de continuidade. Enquanto as pessoas partem, a árvore segue florescendo, testemunha muda das transformações da vida.
Sem recorrer ao sentimentalismo nem transformar a velhice em alegoria, O jacarandá na esquina oferece uma narrativa honesta aos afetos discretos, aos silêncios familiares e às permanências da memória. Ao terminar a leitura, permanece a impressão de que Iara da Silva escreveu menos sobre o fim da vida do que sobre aquilo que continua florescendo apesar da passagem do tempo.
Confira a entrevista com a autora:
1. Perpétua é uma personagem que desafia muitos estereótipos associados à velhice, sobretudo ao tratar do desejo, da sexualidade e da saudade. De onde surgiu a ideia de construir uma protagonista que continua desejando e refletindo sobre o próprio corpo mesmo na fase final da vida?
Ante a ascensão de discursos conservadores que buscam reforçar papéis de gênero e limitar a liberdade e os direitos das mulheres, penso ser imprescindível que a arte ocupe um papel de resistência – e retratar uma mulher idosa cuja vida contraria esses discursos foi o meio que encontrei, enquanto escritora, de provocar reflexão a esse respeito. Em tempos em que se questiona até mesmo o direito das mulheres ao voto, não há espaço para neutralidade – e a literatura pode, sem dúvidas, ser uma aliada na luta contra retrocessos.
2. Grande parte do romance é construída através das lembranças de Perpétua, em um constante diálogo entre passado e presente. De que maneira a memória ajudou você a revelar a personalidade da personagem e a refletir sobre a passagem do tempo?
A memória é o alicerce de O jacarandá na esquina. Quando o presente é abordado, ele invariavelmente se comunica, em alguma medida, com uma lembrança, uma experiência passada, um trauma, um arrependimento. É olhando para o passado que a protagonista compreende os caminhos tomados por sua história – que desaguam em como ela se enxerga na velhice.
3. O livro apresenta relações familiares marcadas por amor, culpa e ambivalência. Perpétua, por exemplo, leva anos para construir vínculos com as filhas e convive com sentimentos que raramente são destacados na literatura sobre maternidade. O que motivou essa escolha?
Meu maior interesse enquanto escritora é construir personagens palpáveis e abordar as relações humanas com honestidade. Sou avessa a idealizações e a uma visão maniqueísta do mundo, por entender que pessoas são essencialmente contraditórias, peculiares, multifacetadas, imprevisíveis – e, por consequência, os relacionamentos também o são. A meu ver, uma narrativa que não considera essa complexidade não dialoga com o leitor, porque acaba por cair em generalizações e descrições rasas, com as quais aquele que lê não consegue se identificar. A verdade precisa ser dita, mesmo quando incômoda.
4. O jacarandá, que dá título ao romance, atravessa a narrativa enquanto símbolo ligado à permanência, à memória e às transformações da vida. Em que momento essa árvore deixou de ser apenas um elemento da paisagem para assumir um papel central na construção da história?
O jacarandá foi pensado como uma metáfora. Propositalmente, eu não o situei no tempo ou no espaço, cabendo ao leitor decidir quando e onde ele está. Ele foi colocado no livro como um símbolo, uma representação da finitude, do ciclo da vida, da passagem do tempo. O jacarandá é, por que não, a própria Perpétua.
5. Em seu romance de estreia, você combina uma linguagem delicada com reflexões sobre envelhecimento, luto, prazer e finitude, temas que muitas vezes são tratados como tabus. Que tipo de diálogo você espera estabelecer com os leitores a partir da trajetória de Perpétua?
O jacarandá na esquina convida o leitor a olhar para dentro. Tocar nesses assuntos requer delicadeza, afinal, são temas que expõem nossas fragilidades enquanto seres cientes da própria finitude, porém eu não poderia deixar de fazer uma abordagem igualmente franca, objetiva, que busca estabelecer uma troca sincera e sem dramatismo com quem entra em contato com a história.
Perpétua tem muito de todos nós, o que permite que o leitor veja a si mesmo na narrativa – justamente por expor angústias inerentes à condição humana.
Trecho do livro
Vestida em sua camisola, com meias nos pés, Perpétua passava os canais na televisão. Nada lhe interessava o suficiente. Entre um biscoito de polvilho e outro, enchendo o sofá e a própria roupa de farelos, sentia os olhos com uma crescente vontade de se fecharem.
Gostava de dormir — dormindo, sonhava que não era velha.
Quando quase pegava no sono, Manjericão latiu, inquieto, fazendo os ombros de Perpétua pularem sobressaltados. Depois que o caminhão de lixo foi embora, sossegou, enrolando o corpo sobre a caminha ao lado do sofá.
Não eram nem onze da noite. Levantou-se devagar e com dificuldade, carregando o pote de biscoitos contra o peito. Faria um chá de erva cidreira. Quando voltou à sala, com a xícara fumegando entre as mãos, sentou-se com as costas apoiadas em duas almofadas floridas, ajeitando-se sob as cobertas felpudas. Esgueirou-se em direção à mesinha de centro, onde estava o controle remoto, quase caindo do sofá.
Não tinha muita habilidade com aqueles botõezinhos pequenos. Em uma breve luta, saía apertando-os um pouco a esmo, sem enxergar direito o que fazia. Alguns quadrados e retângulos saltavam na tela. Confusa, atrapalhava-se toda, xingando e metendo os dedos com cada vez mais força sobre as teclas.
Ficha TécnicaTítulo: O jacarandá na esquina
Autora: Iara da Silva
Número de páginas: 96
Preço: R$ 60,00
ISBN: 978-65-281-0270-9
Editora: Patuá
Ano: 2025
Compre o livro: clica aqui
Iara da Silva é caiçara, nascida em 1995 na cidade de Caraguatatuba, litoral norte de São Paulo. Graduada em Direito pela UNESP, é servidora pública e reside na capital paulista. Caçula entre três mulheres, sonhadora inveterada e comovida em excesso, já na graduação escrevia crônicas para a revista Obvious Magazine, com a coluna “Entre a palavra e o mundo”. Em 2015, foi premiada no Concurso de Contos José Cândido de Carvalho, na categoria infanto-juvenil, com o conto “O Pássaro”. O jacarandá na esquina é seu romance de estreia.
Taciana Oliveira - Natural de Recife (PE), Bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) com Pós-Graduação em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, atua em direção e produção cinematográfica, criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada, e do Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário “Clarice Lispector - A Descoberta do Mundo”. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023), livro de poemas.

.jpeg)

Redes Sociais