por Luiz Henrique Gurgel |
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| Foto de Zhaoli JIN na Unsplash |
Carta ao amigo Zé que vai para o Japão
Meu amigo vai para o Japão. E o que diabos você vai fazer do outro lado do mundo, Zé? "Pegar um trem-bala de coco para atravessar meus túneis do dissabor!" Ele é poeta e tão fã de Gilberto Gil quanto eu.
Mas diga: ainda há o que vislumbrar no Japão? Algo que a gente já não tenha visto nesta nossa era hiperconectada, onde qualquer imagem, de qualquer lugar e tempo, nos salta aos olhos a qualquer instante? Acho que o excesso de telas ainda não conseguiu sufocar a imaginação - conseguiu, Zé?
Deve ser uma sensação curiosa ver o nascer do sol por lá e pensar que seus raios quentes e acolhedores ainda vão demorar horas para desembarcar no Brasil. Quando eu era criança, a cada começo de ano, a quitanda do bairro distribuía aqueles calendários de parede com fotos manjadas dos quatro cantos do planeta. Na capa, a legenda: “Quitanda Oshiro deseja um ano próspero para todos”. Eu viajava nas imagens, Zé. Passava os olhos pela Torre de Pisa, Alpes, Cristo Redentor, Empire State, Big Ben, Torre Eiffel... e em setembro, como era praxe, o Monte Fuji ensolarado.
Depois me conte, Zé: como é que os japoneses sorriem? Lógico que nem todo mundo ri com aquela discrição de mãozinha na boca que os estereótipos nos venderam. Mas também não devem dar a risadinha como nas propagandas do nosso lado do mundo — aquele hihihihihi caricato. Dizem que o silêncio tem valor quase sagrado. Ou talvez fosse mais no passado. Uma amiga, filha de japoneses, foi visitar a terra dos pais e voltou impressionada: ninguém abria a boca no vagão do metrô. Um silêncio inacreditável para padrões brasileiros.
Deve ser por essas e outras, Zé, que eles são tão apaixonados por João Gilberto. João, em seu minimalismo, tinha essa virtude de deixar soar apenas o essencial. Ele e o violão eram tudo, condensados numa célula, numa cadência, numa perfeição difícil até de nomear. O disco que ele gravou em Tóquio é de uma beleza sem tamanho.
Ouça um solo de koto por mim. Assista a um filme de Mizoguchi — é lindo Contos da Lua Vaga. Esta sua viagem me deu saudade do cinema de Kurosawa e fez lembrar de um dos poucos mangás que li na vida, do Jiro Taniguchi, com as perambulações de um andante que flana atrás de surpresas do acaso na cidade em que vive há anos. Sem falar nas desconcertantes histórias do Murakami. E eu que não sou muito chegado em minisséries, adorei Midnight Diner (Shinya shokudō – linda a sonoridade desse nome), também baseada num mangá de Yarō Abe, confesso que nunca tinha ouvido falar dele. Wim Wenders, por sua vez, ficou fascinado com a limpeza dos banheiros públicos da capital. Questão de pudores. Lembro de alguém me contar que os banheiros femininos nas escolas nipônicas têm até um aparelhinho que simula um ruído só para disfarçar o som do xixi caindo no vaso.
Cheguei a sonhar com a sua viagem, Zé. Já pensou como seria ir para o Japão de balão? É que também lembrei da canção do Itamar Assumpção.
Por outro lado, li que o mundo do trabalho por lá é insano. Não à toa, é o primeiro país do mundo em casos de burnout. E adivinha quem ocupa a segunda colocação nessa triste estatística? Nós mesmos, Zé. Pindorama. Quem diria?
Mishima, você sabe, tinha uma raiva profunda dessa ocidentalização toda.
Fico pensando: como serão as ruas das periferias? Nem me refiro ao centro de Tóquio, que olhando de longe, pelas telas do celular, do cinema ou da TV, parece um caos brilhante, limpo e organizado. Mas é verdade que eles escondem as pessoas em situação de rua ou – pobre gente – elas mesmas se escondem por vergonha? Lembro de ter visto algo assim numa reportagem na época da Copa do Mundo que eles organizaram.
E o Japão medieval, Zé? Sei que pretende ir a Kyoto contemplar castelos e templos antigos. Como eu gostaria de ter os seus olhos emprestados para ver tudo isso. Ouvidos e olfato também. Sei que você vai perscrutar cada detalhe com carinho, misto de psicanalista e antropólogo.
Outro dia você comentou que minhas crônicas são cheias de citações musicais. Principalmente de versos que tomo emprestados — prefiro dizer compartilhados — de canções brasileiras. Faz parte de mim, não tenho jeito. E num momento como este, com você de malas prontas, é simplesmente impossível não puxar Gilberto Gil para a conversa. Tenho certeza de que você passou estes dias de véspera cantarolando a canção que ele fez para o Japão.
Do Japão, Gil queria uma máquina que filmasse os próprios sonhos, captando "toda a beleza de sonhar em vão". Já imaginou uma coisa dessas? Vai saber se não inventaram, Zé? De repente, uma parceria tecnológica com a China. O que não sairia dessa fusão de criatividade?
Sigo com a música do Gil na cabeça e você na viagem. Como é que eu não iria dizer — justamente a você, meu amigo — para não se esquecer de visitar um templo zen-desbundista, conversar com um samurai futurista e pedir a ele que te oriente sobre um novo amor? Vai que você se apaixona por uma gueixa que faça da sua queixa uma paixão? Como não embarcar nesse sonho do Gil? Quem sabe seja um presságio? Impossível ignorar as recomendações dele. Ou então, no mesmo templo zen-desbundista, você não acabe descobrindo aquilo que a gente sequer sabe o que é, mas insiste em procurar?
Na verdade, Zé, a minha vontade era transcrever a letra do Gil todinha aqui. Melhor disfarçar minha falta de criatividade e só aproveitar — bem canibal-tropicalisticamente — alguns pedaços dessa canção deliciosa.
Boa viagem, meu amigo. Que você retorne carregado de encantos, histórias e novidades, inspirado feito um Marco Polo pronto para narrar maravilhas. Elas ainda devem existir naquela parte do mundo, Zé.


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