por Carlos Monteiro |
Fotos de Carlos Monteiro
É vendaval...
O Rio
amanheceu diferente. Não por causa do sol. Ele voltou, como sempre volta. Nem
pelo azul do céu, que insistia em aparecer entre as nuvens desgarradas. O que
mudou foi o silêncio.
Na manhã
seguinte ao vendaval de 29 de julho, a cidade parecia caminhar devagar. Como
quem ainda procurava o fôlego. As calçadas estavam cobertas por folhas que até
ontem faziam sombra. Galhos interrompiam caminhos. Árvores antigas,
companheiras de tantas gerações, jaziam vencidas sobre o asfalto. Pareciam
velhos fotógrafos que, depois de registrar milhares de amanheceres, resolveram
descansar. O vento passou. Mas deixou retratos.
Cada
esquina guardava uma fotografia invisível. Um sinal de trânsito apagado. Um
quiosque de portas fechadas. Um barco dançando inquieto na enseada. O vendedor
de mate olhando para o céu antes de empurrar o carrinho. O gari juntando folhas
que insistiam em fugir da pá. O ciclista desmontando da bicicleta para
contornar um tronco caído. Pequenas cenas. Grandes histórias. Foi um daqueles
dias em que o Rio deixou de posar para o cartão-postal. A cidade, tão
acostumada a ser admirada, mostrou suas rugas.
O vento
não escolheu bairros. Entrou pelas avenidas largas. Correu pelas praias.
Assobiou entre os edifícios de Copacabana. Sacudiu as amendoeiras do Flamengo.
Fez dançar as palmeiras da orla. Subiu os morros. Desceu pelos vales. Nem o
Cristo parecia abraçar a cidade com a mesma tranquilidade de sempre. Havia um
ar de inquietação pairando sobre a Baía de Guanabara.
Enquanto
caminhava, lembrei-me de quantas vezes fotografei essas mesmas árvores. Sempre
ali. Firmes. Pareciam eternas. Descobri, ontem, que eternidade também cai.
O Rio
sempre viveu entre extremos. O mar e a montanha. A luz e a sombra. A calmaria e
a tempestade. Talvez por isso o carioca tenha aprendido a improvisar. Mas
improviso não substitui planejamento.
Fala-se
muito em El Niño. Fala-se em aquecimento dos oceanos. Fala-se em mudanças
climáticas. Os nomes importam. A ciência explica. Mas basta caminhar pelas ruas
depois de um vendaval para perceber que o clima já não cabe apenas nos boletins
meteorológicos. Agora mora nas calçadas. Nos fios rompidos. Nas árvores
centenárias vencidas pelo vento. No susto de quem sai de casa sem imaginar o
que encontrará na esquina.
A
pergunta permanece. O Rio está preparado?
Olho para
as figueiras antigas. Para as sibipirunas que ainda resistem. Para as palmeiras
que desenham a orla. Penso que cuidar da cidade talvez seja, antes de tudo,
cuidar dessas silenciosas guardiãs que nunca aparecem nas manchetes até o dia
em que caem.
O Rio é
belo porque respira natureza. Não existe fotografia da cidade sem uma moldura
verde. O Pão de Açúcar, sem as árvores do entorno, perde profundidade. O
Corcovado, sem a floresta, perde o encanto. A lagoa sem o reflexo das copas perde
poesia. A paisagem carioca não é feita apenas de pedra e mar. É feita de
folhas, de sombras, de raízes. Quando uma árvore cai, não perdemos apenas
madeira. Perdemos memória.
Cada
tronco guarda aniversários, namoros, brincadeiras de infância, conversas de
banco de praça, beijos escondidos da chuva. Guarda décadas de passarinhos
anunciando o amanhecer. Talvez o maior estrago do vendaval não tenha sido o que
apareceu nos telejornais. Foi outro.
Foi
descobrir que a Cidade Maravilhosa continua linda, mas já não pode confiar
apenas na própria beleza para enfrentar o futuro. O clima mudou. Os ventos
mudaram. E o Rio, que sempre ensinou o mundo a contemplar paisagens, talvez
precise aprender, com urgência, a proteger aquilo que faz dessas paisagens um
lugar único.
Hoje o
sol voltou a iluminar as montanhas. Mas quem atravessou a cidade nesta manhã
percebeu que havia menos sombra nas calçadas. E, curiosamente, foi justamente
essa ausência que mais escureceu o Rio.
Carlos Monteiro é fotógrafo, cronista e publicitário desde 1975, tendo trabalhado em alguns dos principais veículos nacionais. Atualmente escreve ‘Fotocrônicas’, misto de ensaio fotográfico e crônicas do cotidiano e vem realizando resenhas fotográficas do efêmero das cidades. Atua como freelancer para diversos veículos nacionais. Tem três fotolivros retratando a Cidade.
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