Coração-bomba: O corpo em travessia

por Taciana Oliveira |



Em Coração-bomba, Carol Sanches transforma o corpo no ponto de encontro entre memória, natureza, anatomia e linguagem. 

Em Coração-bomba (Laranja Original, 2026), de Carol Sanches, o breve poema  de abertura já anuncia o princípio que organiza toda a coletânea. "Teoria" reduz o funcionamento do coração a uma definição quase didática:

só duas tarefas:

receber o sangue

devolver o sangue

disse o menino Deus

enquanto desenhava um coração

no papel almaço divino.


"Prática" orienta uma nova perspectiva:


menino Deus não contava

planos sempre saem dos

                          planos.



Se o primeiro reduz o coração ao seu funcionamento biológico, o segundo lembra que nenhuma explicação é suficiente para dar conta da vida. Entre aquilo que a teoria descreve e aquilo que a existência produz permanece um intervalo que escapa às definições. No poema "Nomeação", o que parecia apenas uma apresentação autobiográfica muda rapidamente de direção:

me chamo Carolina
ou melhor

 me chamaram Carolina
ainda que eu seja
anterior ao meu nome.

Ao substituir "me chamo" por "me chamaram", a autora desfaz a aparente estabilidade da linguagem. Antes do nome, existe alguém que não cabe inteiramente na palavra que procura defini-lo. O poema termina reconhecendo que a narradora repetirá esse gesto ao nomear as filhas, revelando que isso também significa transmitir uma herança, embora nenhuma palavra consiga abarcar por completo quem a recebe. Essa breve sequência inicial constitui um verdadeiro prólogo. Antes de apresentar seus temas, Sanches coloca sob suspeita três formas de organizar nossa relação com o mundo: a teoria, a linguagem e as classificações. A partir daí, toda tentativa de explicação passa a conviver com aquilo que resiste às certezas. Embora o título concentre a atenção no coração, Carol não escreve sobre o corpo; escreve a partir dele. Em Coração-bomba, a anatomia sustenta uma escrita que faz convergir memória, natureza, maternidade e linguagem. O corpo deixa de fornecer apenas imagens para converter-se na perspectiva através da qual a autora investiga o mundo.

Essa escolha ecoa diretamente na estrutura da obra. À primeira vista, os poemas parecem reunir assuntos muito distintos: uma lagartixa presa entre os trilhos da porta, um beija-flor, a diástase das costelas, um flamboyant, a doença do pai, uma criança desenhando árvores, um peixe fora d'água, exames médicos, estrelas observadas pelo telescópio James Webb ou uma conversa sobre chicletes. O que inicialmente sugere dispersão revela, pouco a pouco, uma construção rigorosa. Os versos não se distribuem por temas; avançam por ressonâncias. As imagens retornam continuamente sob novas perspectivas. O sangue encontra correspondência na seiva das árvores; raízes evocam sistemas circulatórios; músculos, folhas, rios e galhos compartilham ritmos semelhantes. E, ao invés de recorrer à analogia enquanto simples figura de linguagem, Carol estabelece uma rede de correspondências que aproxima organismos, paisagens e lembranças sem dissolver as diferenças entre eles. O corpo não é tema, mas linguagem. É a partir dele que a autora investiga o cotidiano, a memória, as relações familiares e o mundo natural.

Ao longo da leitura, cada poema prolonga discretamente o anterior, fazendo com que palavras, organismos, afetos e lembranças retornem sob novas formas. O coração deixa então de ser apenas a imagem anunciada pelo título. Aos poucos, transforma-se no princípio que conecta toda a coletânea, fazendo convergir poemas, memórias, plantas, animais e vozes numa mesma circulação de sentidos. A poeta desenvolve uma investigação que se amplia a cada página. Corpo, natureza, infância, maternidade e memória deixam de ocupar territórios separados e passam a integrar uma mesma rede de relações. Cada poema prolonga discretamente questões levantadas pelo anterior, como se a escrita avançasse por pequenas inflexões, nunca por rupturas. Esse movimento torna-se particularmente evidente na maneira como a autora incorpora as diferentes formas de vida. Plantas, aves, insetos, peixes, cães e seres humanos compartilham o mesmo espaço sem que um se imponha sobre o outro. A natureza não surge enquanto cenário nem como metáfora da condição humana. Cada organismo possui sua própria presença e participa de um mesmo tecido de relações. Essa atenção atravessa  o poema "Os homens do veneno". A narradora acompanha uma abelha tentando escapar das poças acumuladas na pia, preocupa-se com uma lagartixa aparentemente esmagada e, pouco depois, encontra duas pequenas baratas dentro de casa. A decisão de chamar os dedetizadores não elimina o desconforto. Ao contrário. As baratas são descritas como criaturas "tão pequenas, tão filhas de uma mãe barata", Carol Sanches não procura resolver essa contradição nem transformá-la em uma reflexão moral. Registra apenas a tensão entre o impulso de preservar determinadas vidas e a facilidade com que outras são eliminadas.

logo cedo, uma abelha tentava sobreviver

às poças acumuladas na pia

não venha aqui,

disse

aqui a morte é certa

os homens dedetizaram tudo

morre o ruim morre o bom

sem nenhuma distinção.

A morte não distingue espécies, tampouco a escrita da autora. O mesmo cuidado dedicado à abelha ou à lagartixa reaparece diante das baratas, revelando uma sensibilidade que resiste a classificar previamente aquilo que merece ou não nossa atenção. Esse gesto reaparece em diferentes momentos. Em "Dois dias sem rega" e "Canção para flamboyant vermelho", árvores e flores não aparecem como imagens sentimentais. Carol acompanha seus ciclos, seus modos de resistência e sua permanência silenciosa. Raízes, seiva, galhos e folhas dialogam com músculos, vasos sanguíneos e ossos, não porque um elemento represente o outro, mas porque todos compartilham ritmos semelhantes de crescimento, desgaste e renovação. A escrita estabelece correspondências sem apagar a singularidade de cada organismo. Essa percepção também alcança as relações familiares. A maternidade ocupa um lugar importante no livro, mas nunca é apresentada de maneira idealizada. As filhas surgem desenhando árvores, recolhendo pequenos objetos, observando insetos ou formulando perguntas capazes de desviar o olhar adulto. Em vários momentos, são elas que conduzem a narradora a perceber aspectos do cotidiano que normalmente passariam despercebidos. Em "Ciência e sensibilidade", uma das meninas aprisiona duas moscas em pequenos recipientes transparentes apenas para observá-las. A cena sintetiza um procedimento recorrente na obra. Conhecer não significa dominar ou classificar; significa permanecer diante daquilo que ainda não foi completamente compreendido. A curiosidade infantil encontra reverberação tanto na investigação científica quanto na escrita poética. Em ambos os casos, compreender exige tempo, disponibilidade e uma atenção que resiste à pressa.

Se as filhas introduzem um olhar voltado para a descoberta, a figura do pai conduz o livro a outro registro. Em "A doença do meu pai", Sanches acompanha o avanço da perda de memória através de gestos mínimos: uma porta aberta, uma espera prolongada, palavras cruzadas abandonadas sobre a mesa. A autora concentra seus versos na rotina, nos hábitos e na percepção do tempo. Após atravessar árvores, animais, crianças, pais e pequenas cenas do cotidiano, o leitor percebe que todos esses caminhos convergem para um mesmo ponto. O corpo não ocupa o centro da obra por privilégio temático, mas porque é a partir dele que Carol Sanches estabelece relações entre diferentes formas de vida. 

Na seção "Estudos anatômicos de um coração-bomba" Carol Sanches concentra o olhar sobre aquilo que, desde o início, impulsionava silenciosamente a escrita: o corpo. A mudança, porém, não altera a direção da leitura. Apenas torna mais visível um procedimento que já vinha sendo desenvolvido desde as primeiras páginas. Os poemas tornam-se ainda mais sintéticos. A linguagem adquire a concisão de pequenas anotações, enquanto o vocabulário incorpora termos da fisiologia e da anatomia com absoluta naturalidade. Plasma, hemácias, leucócitos, plaquetas, coágulos, artérias e veias deixam de pertencer exclusivamente ao campo científico para integrar o universo simbólico da obra. 

leucócitos avisam sobre intrusos

(intrusos

às vezes 

são convidados).


Ao contrário de converter a ciência em metáfora, Sanches permite que ambos os campos coexistam, preservando suas especificidades. A autora demonstra que a linguagem científica não precisa empobrecer a poesia, assim como a poesia não precisa diluir o rigor da ciência. Ambas partem de um gesto comum: a curiosidade diante do mundo. O que as distingue não é o objeto observado, mas o tipo de pergunta que cada uma formula. Também é nessa seção que a escrita revela com maior nitidez seu rigor formal. As quebras de verso não obedecem apenas à distribuição gráfica da página; participam da construção do sentido. A leitura desacelera, hesita e retorna, como se o ritmo da página também participasse da reflexão proposta pelos versos.


Essa economia verbal encontra seu contraponto na seção "Coágulos", que encerra a coletânea. O próprio título anuncia uma alteração de ritmo. Se até então predominava a ideia de fluxo, agora surge a imagem da interrupção. A mudança também se manifesta na forma que a poeta passa a alternar poemas em verso, poemas em prosa, fragmentos narrativos... Não se trata de uma ruptura, mas de um alargamento dos recursos expressivos. A poesia permanece, embora encontre novas maneiras de respirar.


"Dizem que ela deveria aproveitar esses momentos para dormir. Ganhar forças. Mas seus olhos estão bem abertos, e os do bebê, repara, bem fechados, e logo vão abrir – garante. Lembra do seu último desejo? Dormir, essa coisa de luxo. A vingança se nutre à beira do berço. Um bebê tão lindo, que desperdício estar dormindo. Já não sabe ficar sozinha. Tosse. Foi sem querer, jura. A criança berra, o coração dispara. A mãe pega a criança no colo, coloca a criança no peito, seu peito bufa. A criança é voraz."


As recordações ocupam maior espaço, assim como a infância, a maternidade e a passagem do tempo. A memória vale pela capacidade de reorganizar perguntas que acompanham o livro desde o início. As quatro seções não funcionam como compartimentos independentes, mas em etapas de um mesmo percurso. Essa “circulação” confere unidade à obra. O coração anunciado pelo título sustenta o movimento interno da obra, circulando palavras, organismos, lembranças e afetos que retornam continuamente sob novas formas. 


Ao final da leitura, compreendemos que Coração-bomba não organiza seus poemas em torno de um tema, mas de uma maneira de perceber o mundo. Corpo, memória, natureza e linguagem deixam de constituir experiências isoladas para compor uma mesma escrita. Ao recusar explicações definitivas — sejam elas científicas, afetivas ou mesmo linguísticas —, Carol Sanches sugere que sempre resta um excedente, algo que escapa às palavras, aos diagnósticos e às classificações. É nesse intervalo, onde a linguagem já não basta e o silêncio ainda não se impõe, que sua poesia continua produzindo sentidos muito depois que o livro se fecha.



Poemas do livro

sangue parte hemácia, parte plasma 

ainda não é possível discriminar 

qual delas é responsável 

pelas funções de apaixonamento




joga a corda 


se eu evaporar antes de você,

 meu pai, 

diga-me palavras de resgate: 


cecília-clarice-poesia


aterro do flamengo


aquele beijo 

que você me deu

no aterro do flamengo

não é coisa que se faça 


aterre isso 

aterre logo


plante jardim em cima 

plante placas 

não pise na grama 


não deixe 

que mais gente 

ocupe este espaço 





Carol Sanches (Campinas, 1981) é formada em Publicidade e Propaganda (ESPM) e pós-graduada em Poéticas Verbais (USP). É autora dos livros de poesia "Tudo é química" (Quintal Edições, 2022), "Devo admitir que me dá um certo prazer" (Urutau, 2020), "Não me espere para jantar" (Patuá, 2019), menção honrosa no Prêmio Maraã de Poesia 2018, e dos livros independentes "Poesias Pormenores" (2007) e "Toda diva tem divã" (2008). Seus poemas também podem ser encontrados em revistas digitais e antologias poéticas. "Coração-bomba" (Laranja Original, 2026) é seu sexto livro de poemas.




Taciana Oliveira - Natural de Recife (PE), Bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) com Pós-Graduação em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, atua em direção e produção cinematográfica, criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada, e do Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário “Clarice Lispector - A Descoberta do Mundo”. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023), livro de poemas.