Eileen O’Shaughnessy: a mulher invisível de George Orwell

 por Taciana Oliveira |



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A vida invisível da sra. Orwell, Anna Funder resgata Eileen O’Shaughnessy e questiona o apagamento do trabalho intelectual e doméstico das mulheres na história da literatura

Quando George Orwell publicou 1984 e A Revolução dos Bichos, firmou-se como um dos escritores mais importantes do século XX. Seus romances permanecem entre as principais referências literárias sobre autoritarismo, vigilância e manipulação da verdade. Durante décadas, porém, pouco se perguntou sobre quem esteve ao seu lado enquanto parte dessa obra era construída.

É essa ausência que move Anna Funder em A vida invisível da sra. Orwell, publicado no Brasil pela Companhia das Letras, com tradução de Denise Bottmann. A autora reconstrói a trajetória de Eileen O’Shaughnessy, primeira mulher de Orwell. Escritora, formada em Oxford e dona de uma inteligência reconhecida. Eileen permaneceu durante muito tempo uma personagem secundária nas biografias do marido. Funder parte dessa lacuna para investigar como uma mulher fundamental na vida literária de Orwell acabou tratada quase como nota de rodapé.

A pesquisa se apoia em cartas, diários, documentos e biografias. A edição brasileira informa que Funder utiliza episódios reais ligados à Guerra Civil Espanhola e à Segunda Guerra Mundial, mas também recorre a cenas imaginadas para lidar com os vazios deixados pelos arquivos. O resultado combina biografia, ensaio, crítica literária e reflexão feminista.

Um dos pontos centrais do livro é a presença de Eileen na vida prática e intelectual de Orwell. Ela revisava textos, resolvia problemas cotidianos, acompanhava o escritor durante momentos decisivos e esteve envolvida em episódios ligados à Guerra Civil Espanhola. Em resenha publicada no The Guardian, Susan Wyndham lembra que, embora Orwell mencione “minha esposa” dezenas de vezes em Lutando na Espanha, deixa de registrar seu nome e suas ações.

Funder também observa sinais da influência de Eileen sobre a obra do escritor. A mesma resenha do The Guardian registra que Eileen teria sugerido transformar A Revolução dos Bichos em fábula e aponta possíveis relações entre seu poema “End of the Century, 1984”, seu trabalho no Ministério da Informação durante a Segunda Guerra e o universo distópico que Orwell desenvolveria depois. A figura pública de Orwell, defensor da liberdade e crítico feroz das tiranias, aparece no livro ao lado de um homem atravessado por contradições. Funder trata de infidelidades, hierarquias domésticas e comportamentos masculinos naturalizados em seu tempo. A proposta não é apagar a importância literária de Orwell, mas observar o que costuma ficar fora do retrato oficial dos grandes autores.

Nesse sentido, A vida invisível da sra. Orwell participa de um movimento importante da crítica: recuperar mulheres que estiveram próximas de obras decisivas, mas foram lembradas apenas como esposas, musas, secretárias ou cuidadoras. O caso de Eileen Blair revela uma pergunta incômoda: quantas obras celebradas também carregam o trabalho silencioso de mulheres que nunca tiveram seus nomes reconhecidos?


A obra incomodou parte da crítica por mexer com a imagem consagrada de Orwell. O escritor segue reconhecido como um dos nomes mais importantes contra o autoritarismo no século XX. O livro de Funder, porém, lembra que mesmo autores fundamentais podem ter reproduzido desigualdades em suas relações pessoais. O debate não elimina a relevância de 1984 ou A Revolução dos Bichos

A recepção internacional do livro destaca isso. A Penguin Books Australia apresenta Wifedom: Mrs Orwell’s Invisible Life, título original da obra, como uma narrativa que reúne pesquisa, ficção, escrita biográfica e crítica. A editora também reúne elogios de nomes como Geraldine Brooks, Claire Tomalin, Antonia Fraser e veículos como The Observer, The Independent, The Economist e Los Angeles Times.

A leitura proposta por Funder não transforma Eileen apenas em vítima. O que aparece é uma mulher espirituosa, culta, perspicaz e decisiva, cuja vida ajuda a compreender o funcionamento desigual do mundo literário. Ao recuperar sua presença, a autora também mostra como a história foi muitas vezes escrita a partir de silêncios. No fim, A vida invisível da sra. Orwell devolve nome, corpo e pensamento a Eileen O’Shaughnessy. E obriga o leitor a olhar novamente para George Orwell, não para negar sua grandeza literária, mas para enxergar as sombras que acompanharam a construção desse mito.



Eileen O’Shaughnessy nasceu em 1905 e foi a primeira esposa de George Orwell, cujo nome de nascimento era Eric Arthur Blair. Formada em Oxford, escreveu poesia, trabalhou em diferentes funções e acompanhou Orwell em momentos decisivos de sua trajetória. Anna Funder sustenta que sua inteligência, sua atuação prática e sua presença crítica tiveram papel importante na vida e na obra do escritor.



Anna Funder é escritora, ensaísta e ex-advogada especializada em direitos humanos. Nascida em Melbourne, na Austrália, tornou-se reconhecida internacionalmente com Stasiland (2003), investigação sobre o legado da polícia secreta da antiga Alemanha Oriental, obra vencedora do Samuel Johnson Prize (atual Baillie Gifford Prize). Em 2012, conquistou o Miles Franklin Literary Award, o mais importante prêmio literário australiano, com o romance All That I Am. Seus livros, traduzidos para diversos idiomas, costumam abordar memória, autoritarismo, resistência e os mecanismos de apagamento histórico. Em A vida invisível da sra. Orwell (Wifedom: Mrs Orwell's Invisible Life), recupera a trajetória de Eileen O'Shaughnessy, primeira esposa de George Orwell, propondo uma revisão da história literária a partir da perspectiva das mulheres cujas contribuições foram invisibilizadas. Atualmente, Anna Funder é professora de Prática em Escrita Criativa na University of Sydney.






SERVIÇO

A vida invisível da sra. Orwell, de Anna Funder, já está disponível nas livrarias brasileiras. Publicado pela Companhia das Letras, com tradução de Denise Bottmann, o livro tem 504 páginas e preço de capa de R$ 139,90. Clica aqui


Referências

COMPANHIA DAS LETRAS. A vida invisível da sra. Orwell. São Paulo: Companhia das Letras, 2026. Disponível em: https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9788535944037/a-vida-invisivel-da-sra-orwell. Acesso em: 1 jul. 2026.

FUNDER, Anna. A vida invisível da sra. Orwell. Tradução de Denise Bottmann. São Paulo: Companhia das Letras, 2026.

PENGUIN BOOKS AUSTRALIA. Wifedom: Mrs Orwell's Invisible Life. Disponível em: https://www.penguin.com.au/books/wifedom-9780143778080. Acesso em: 1 jul. 2026.

WYNDHAM, Susan. Wifedom by Anna Funder review – a brilliant reckoning with George Orwell to change the way you read. The Guardian, Londres, 7 jul. 2023. Disponível em: https://www.theguardian.com/books/2023/jul/07/wifedom-by-anna-funder-review-a-brilliant-reckoning-with-george-orwell-to-change-the-way-you-read. Acesso em: 1 jul. 2026.




*Taciana Oliveira - Natural de Recife (PE), Bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) com Pós-Graduação em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, atua em direção e produção cinematográfica, criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada, e do Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário “Clarice Lispector - A Descoberta do Mundo”. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023), livro de poemas.