Em O ventre da Medusa, Denise Veras revisita um mito para falar do presente

 por Taciana Oliveira | 



O ventre da Medusa
, de Denise Veras

A figura de Medusa atravessa a cultura ocidental há mais de dois milênios. Em pinturas, esculturas, poemas e romances, ela costuma ser representada por um monstro com cabelos feitos de serpentes, cujo olhar transforma homens em pedra. A imagem, porém, quase sempre obscurece outra narrativa: a da jovem sacerdotisa violentada por Poseidon e, posteriormente, punida por Atena. Em O ventre da Medusa (2025), Denise Veras parte justamente dessa segunda tradição para elaborar uma coletânea de contos que discute violência, desejo, culpa, poder e sobrevivência sem reduzir suas personagens à condição exclusiva de vítimas.

Publicado pela Editora Urutau, vencedor do Prêmio da União Brasileira de Escritores (UBE) em 2024, o livro reúne dezenove narrativas que passeiam entre o realismo, o humor agridoce, a ironia, o fantástico e o insólito. Embora o universo feminino seja o elo entre todos os contos, Denise recusa personagens previsíveis e interpretações simplificadoras. Ao invés de oferecer personagens exemplares ou moralmente previsíveis, cria mulheres contraditórias, capazes de amar, manipular, desejar, mentir, ferir e também sofrer as violências produzidas por uma sociedade estruturada sob relações desiguais de poder. Essa proposta aparece já na apresentação da obra.onde a autora afirma escrever "de corpo aberto e alma rasgada" e define o livro como a sua "visão de fêmea no mundo". Distante de reivindicar um relato autobiográfico, ela explica que as histórias nasceram de experiências vividas, testemunhadas ou compartilhadas por mulheres. "Tudo aconteceu exatamente como está escrito, mesmo as partes inventadas representam a realidade tal e qual a enxergo", escreve, aproximando ficção e experiência sem eliminar as fronteiras entre ambas.

O preâmbulo destaca essa proposta ao recuperar o mito que atribui o título ao livro. Denise Veras lembra que a versão mais difundida da história transformou Medusa na responsável por sua própria condenação. Em contraste, aproxima-se da leitura que identifica a personagem enquanto uma sacerdotisa violentada e posteriormente castigada pela divindade que deveria protegê-la. A autora interpreta essa inversão a exemplo de um mecanismo ainda recorrente na sociedade: mulheres violentadas são frequentemente responsabilizadas pela violência que sofreram. É a partir dessa leitura que a obra desenha suas narrativas.

Há, entretanto, uma escolha estrutural que diferencia O ventre da Medusa de muitas obras dedicadas ao tema. Denise Veras não inicia o livro apresentando mulheres vitimadas. Faz exatamente o contrário. A primeira parte reúne protagonistas que rompem deliberadamente com o ideal tradicional de feminilidade. São mulheres que exercem desejo, manipulam relações, traem parceiros, utilizam homens em benefício próprio e recusam qualquer obrigação de parecer moralmente corretas. Essa escolha narrativa produz um efeito decisivo: antes de abordar a violência sofrida pelas mulheres, Denise Veras as apresenta em toda a diversidade de seus desejos, contradições e ambiguidades. O primeiro sinal dessa construção aparece em "Keyjin", conto de abertura do livro. A narradora relata sua história amorosa sem buscar justificativas ou a cumplicidade do leitor. Nas primeiras páginas, afirma:

"Quem se importa? Serei julgada de qualquer jeito, que seja então falando o que quero."

A frase é quase uma declaração de princípios para todo o livro. A personagem sabe que será julgada, independentemente de suas escolhas, e justamente por isso decide assumir integralmente sua versão dos fatos. Não busca absolvição nem arrependimento. Ao contrário, conduz a narrativa com humor, sarcasmo e uma ironia que desmonta expectativas sobre a forma que uma mulher deveria narrar sua própria experiência afetiva.

O mesmo procedimento reaparece em "Santa Profana". Conceição, protagonista do conto, rejeita a posição de mulher compreensiva e sacrificial. Após sucessivas frustrações amorosas, abandona o parceiro de maneira brusca, deixando-o literalmente entre os sacos de lixo da cidade. A violência não aparece travestida de espetáculo, mas consequência de um longo processo de desgaste emocional. A ironia atravessa toda a narrativa e impede qualquer leitura simplificadora da personagem. Ela não é heroína nem vilã; é apenas alguém que decide interromper uma relação que já não faz sentido. Também em "O Primo Basílio" e "Diamantes" a autora investe na ambiguidade moral de suas protagonistas. Medeia manipula o amante com plena consciência do efeito que exerce sobre ele, enquanto a narradora de Diamantes conduz um relacionamento sustentado pela conveniência e pela desigualdade afetiva. Em ambos os casos, Veras recusa a construção de mulheres idealizadas. Suas personagens ocupam um espaço geralmente reservado aos homens na ficção: o da contradição, do desejo e da imperfeição.

É justamente quando o leitor já se acostumou a essas figuras femininas pouco convencionais que a coletânea muda de direção. Depois de apresentar mulheres moralmente ambíguas, a coletânea passa a acompanhar personagens submetidas às diversas formas de violência de gênero. A mudança não rompe com os contos anteriores; ao contrário, revela que a complexidade das protagonistas jamais as protege do julgamento social ou das diferentes formas de opressão que permeiam suas vidas. Essa transição encontra em "Carne na Boca" um de seus momentos mais explícitos. Estruturado a partir da alternância de narradores, o conto acompanha uma mulher que, tentando preservar um relacionamento, introduz no próprio corpo um pedaço de carne seguindo a orientação de uma benzedeira. A narrativa passa sucessivamente pelo olhar do médico, da paciente, do companheiro, da própria morte e, por fim, do elemento fantástico. Em cada mudança de voz, a autora revela não apenas diferentes versões da mesma história, mas também a facilidade com que a vítima é reduzida à condição de culpada.

O conto vai além da denúncia de uma situação extrema ao mostrar como o julgamento da protagonista se reproduz nas atitudes de médicos, parceiros e da própria sociedade. Ninguém pergunta por que aquela mulher acreditou ser necessário mutilar o próprio corpo para manter uma relação. A maior parte dos personagens preocupa-se apenas em classificá-la como ignorante, desequilibrada ou ridícula. O horror, nesse caso, não nasce apenas da situação vivida pela protagonista, mas da naturalidade com que todos parecem aceitar seu sofrimento. A violência também assume formas menos evidentes em "CID D50", conto que transforma um diagnóstico médico em reflexão sobre o esgotamento feminino. A anemia que dá nome ao texto deixa de ser somente uma condição clínica para revelar uma existência consumida pelas exigências do trabalho, da maternidade e do cuidado permanente com os outros. A escritora revela que o desgaste físico da protagonista é resultado de uma rotina que naturaliza a sobrecarga imposta às mulheres. O corpo deixa de responder apenas à biologia e passa a registrar as marcas de uma organização social que distribui de maneira desigual o trabalho do cuidado.

Em "Vitrais" esse processo de opressão assume contornos mais silenciosos. O conto apresenta uma mulher que revisita lembranças, afetos e ausências, revelando a forma que determinadas experiências permanecem inscritas na memória muito tempo após terem acontecido. Sem recorrer ao confronto explícito. Veras explora as marcas deixadas por relações de poder que atravessam o cotidiano e continuam moldando a maneira como a protagonista percebe a si mesma. Como sugere o título, a memória funciona como um vitral: fragmenta, filtra e reorganiza a experiência, fazendo com que passado e presente se iluminem mutuamente.

Em "O Devir Pedra", a autora estabelece uma conexão mais direta com o mito que inspira a coletânea. A petrificação, tradicionalmente associada ao poder destrutivo de Medusa, adquire outro significado. Tornar-se pedra deixa de representar uma ameaça dirigida ao outro para se converter em resposta extrema diante da violência, do medo e da impossibilidade de continuar existindo da mesma forma. O elemento fantástico não se desconecta da realidade construída ao longo do livro; ao contrário, destaca seu alcance ao transformar em imagem aquilo que tantas vezes permanece invisível no cotidiano.

A riqueza formal de O ventre da Medusa se revela na diversidade de suas escolhas narrativas. A alternância de narradores em primeira e terceira pessoa modifica o ritmo das histórias e transita com naturalidade entre o realismo, a ironia, o humor e o insólito. Cada conto encontra seu próprio modelo narrativo, evitando que a recorrência dos temas produza repetição. Essa diversidade formal acompanha a pluralidade das mulheres retratadas e reforça a recusa da autora em oferecer uma visão homogênea do universo feminino.

O humor, muitas vezes ácido, atua em contraponto à dureza dos acontecimentos, enquanto o fantástico é orgânico, sempre enraizado na realidade das personagens. Denise Veras evita transformar suas personagens em porta-vozes de uma única ideia. As mulheres que habitam essas páginas desejam, mentem, manipulam, adoecem, amam, resistem, silenciam e também fracassam. Algumas enfrentam a violência de forma direta; outras convivem com ela de maneira difusa, incorporada ao cotidiano ou às relações afetivas. Essa diversidade impede leituras simplificadoras. 

Em um país que registrou 1.571 feminicídios em 2025, o maior número desde o início da série histórica, segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, a leitura de O ventre da Medusa adquire uma atualidade incontornável. Ainda assim, a importância do livro não está apenas na urgência de seu tema. Denise Veras demonstra que a violência contra as mulheres não se manifesta somente nas agressões físicas ou nos crimes que ocupam as estatísticas. Ela também se revela nas formas cotidianas de silenciamento, na culpabilização das vítimas, na sobrecarga invisível, nos julgamentos morais e nas pequenas violências que atravessam as relações sociais.

Ao final da leitura, Medusa já não é a criatura monstruosa do imaginário clássico, mas a representação de mulheres que continuam sendo julgadas, silenciadas e responsabilizadas pela violência que sofreram. É essa releitura do mito que confere unidade e coesão à obra.

Abaixo, segue uma entrevista com a autora


1. Na apresentação, você afirma que este livro é a sua "visão de fêmea no mundo" e que escreveu "de corpo aberto e alma rasgada". Em que momento percebeu que essas histórias precisavam deixar o âmbito pessoal para se transformarem em literatura?

Olhar para a realidade com as lentes de uma fêmea é se colocar no lugar de todas as mulheres representadas por este trabalho e que querem sair para contar as suas histórias. A literatura acontece sem pedir passagem, então, quando ela chega, a gente deixa ela entrar.


2. A figura de Medusa é ressignificada ao longo da obra. Em vez da mulher monstruosa da tradição clássica, ela surge como símbolo das violências históricas impostas às mulheres. O que essa releitura do mito permite dizer sobre o presente?

Acredito que esse mito nunca foi tão atual. Os índices alarmantes de violência contra a mulher nos mostram que as mulheres de hoje são a Medusa da mitologia de ontem. As mesmas dores e sofrimentos impostos sob diferentes máscaras.


3. As narrativas apresentam personagens femininas que, em alguns momentos, são vítimas; em outros, ocupam posições moralmente ambíguas ou até cruéis. Por que foi importante fugir da representação da mulher enquanto heroína ou vítima?

Porque essas personagens, que são uma representação, precisam sobreviver. Agir de formas eticamente duvidosas e até mesmo cruéis são estratégias de sobrevivência nesse mundo tão rude com o sexo feminino. Ainda é difícil ser mulher hoje. Talvez não tanto quanto antes, mas estamos bem longe de atingir o plano ideal.


4. Os contos abordam temas como violência doméstica, abuso psicológico, feminicídio, desejo, sexualidade e relações de poder, frequentemente recorrendo ao humor ácido, ao grotesco e ao fantástico. Como você encontrou o equilíbrio entre a denúncia social e a construção estética dessas histórias?

A construção estética dessa obra foi pensada com muito cuidado antes da feitura do livro e as denúncias foram surgindo de maneira natural à medida que fui escrevendo. Não há um momento chave em que essas coisas se separaram, elas nasceram juntas porque fazem parte do mesmo processo.


5. Embora os episódios retratados sejam extremamente duros, o livro também transmite a ideia de reconstrução e permanência. Ao concluir “O ventre da Medusa”, qual reflexão você espera despertar nas mulheres que se reconhecerem nessas personagens e nos homens que se dispuserem a lê-las?

Nas mulheres, espero despertar acolhimento, que elas tenham a certeza de que não são as únicas, que não estão sozinhas e que suas dores são vistas e recebidas. Nos homens, espero um pouco de sensibilidade quanto a temas tão caros e delicados, não apenas para as mulheres, mas para a sociedade como um todo.





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Denise Veras, escritora e pesquisadora piauiense, é Doutora em Literatura (UnB) e Mestre em Letras (UFPI). Com A Face Atravessada no Espelho, venceu a FELIPI 2024 e foi semifinalista do LOBA Festival 2024. Lançou Crônicas de uma Mãe Sacrificada, semifinalista do LOBA 2025. Venceu o Prêmio Mário de Andrade (UBE/RJ) com O Ventre da Medusa, finalista do Prêmio Kenard Kruel em 2025 e do Prêmio Laurel Verbum em 2026, publicado pela Editora Urutau. Em 2026, lançou também a novela Litost, pela mesma editora.





Taciana Oliveira - Natural de Recife (PE), Bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) com Pós-Graduação em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, atua em direção e produção cinematográfica, criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada, e do Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário “Clarice Lispector - A Descoberta do Mundo”. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023), livro de poemas.