Entre o humor e o absurdo, Thiago Barone investiga como as mentiras se transformam em verdades coletivas

 por Taciana Oliveira |



Lançado pela Editora Patuá, “Maranhão” reúne contos que discutem a desinformação, medo e a construção das narrativas que moldam a vida em sociedade


Boatos, mal-entendidos e versões dos fatos sempre fizeram parte da vida em sociedade. Em “Maranhão”, novo livro de contos de Thiago Barone, publicado pela Editora Patuá, esse fenômeno é explorado  através de histórias que equilibram humor, ironia e crítica social. As narrativas partem de situações aparentemente banais para revelar como equívocos, rumores e crenças compartilhadas podem alterar profundamente a vida de uma comunidade. O autor investiga os mecanismos que fazem uma versão dos fatos se tornar aceita como verdade, mesmo quando nasce de um mal-entendido.


Um dos exemplos é o conto "A Invenção do Radinho", em que os moradores da pequena cidade mineira de Jordânia acreditam que serão atacados após confundirem uma notícia sobre o conflito entre Israel e Jordânia com o município onde vivem. A partir desse episódio insólito, Barone desenvolve uma narrativa que reflete sobre desinformação, medo coletivo e manipulação, temas que dialogam diretamente com a realidade contemporânea.


Ao longo da narrativa, personagens populares, diálogos marcados pela oralidade e situações carregadas de humor revelam as contradições da vida cotidiana. O riso, contudo, nunca elimina a dimensão crítica dos contos. Pelo contrário, torna-se um recurso para observar os modos como preconceitos, convicções e boatos influenciam a forma como indivíduos e comunidades interpretam o mundo.


Segundo Thiago, seu interesse está na maneira como as pessoas constroem a própria percepção da realidade. Para o autor, muitas vezes a verdade perde espaço para aquilo que corresponde aos medos, desejos e crenças coletivas. Essa perspectiva faz de “Maranhão” uma obra que ultrapassa o entretenimento e convida o leitor a refletir sobre os mecanismos que sustentam a circulação de narrativas na sociedade.


O resultado é um conjunto de contos que transforma o absurdo em ferramenta de análise da realidade brasileira e reflete o poder das histórias na construção da memória coletiva. O livro será lançado durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), com sessão de autógrafos no dia 24 de julho, às 11h, na Casa Gueto.


Leia também a entrevista com o autor:


1.⁠ ⁠Em diversos contos, acontecimentos aparentemente banais se transformam em grandes acontecimentos coletivos a partir de boatos, mal-entendidos ou versões distorcidas dos fatos. O que despertou seu interesse por investigar esse mecanismo de construção das chamadas "verdades coletivas"?

Meu interesse maior é na comunidade, em como as pessoas se relacionam entre si e, quando estão em grupo, como se relacionam com o mundo. Gosto de observar para entender mais sobre nós mesmos.

Nasci em Pirassununga, no interior de São Paulo, uma cidade relativamente pequena. Cresci com aquela sensação de “vão ficar sabendo”. Uma história pessoal, um boato, uma suposição ou um mal-entendido podem rapidamente deixar de ser só de uma pessoa e passar a afetar a relação dela com a comunidade. Também sempre me chamou a atenção como cada grupo, dependendo do lugar, responde a isso de forma muito particular. Quando me proponho a escrever, esse tipo de movimento vira um prato cheio.


2.⁠ ⁠No conto "A Invenção do Radinho", um equívoco envolvendo uma notícia internacional desencadeia uma situação absurda, mas bastante plausível. Até que ponto esse humor nasce da observação da realidade brasileira e da circulação de informações nas redes sociais e nos meios de comunicação?

Esse humor reflete mais a forma como eu encaro o mundo como um todo. No Brasil, temos casos emblemáticos de como boatos ganham forma e afetam a sociedade. Nos anos 90, conhecemos o chupa-cabra, o ET de Varginha; antes disso, nos anos 70, teve o caso do bebê-diabo. Eu entendo a origem, as motivações e a força dessas histórias, mas não consigo deixar de olhar para elas também com humor. Até mesmo fatos menos fantásticos, como o do padre do balão, que está no livro, entram nessa chave. Não que falte respeito pelas pessoas envolvidas. Pelo contrário. O humor, quando bem usado, permite olhar para certos acontecimentos por outro ângulo, sem dar tanto peso a ideias preconcebidas.


3.⁠ ⁠Embora o livro dialogue com temas muito atuais, como a desinformação e a manipulação, os contos evitam um tom panfletário. Como você encontrou o equilíbrio entre crítica social, humor e construção literária?

Acho que esse equilíbrio vem de uma preocupação com a própria história. Quando escrevo, meu foco está no que faz sentido para aquele enredo, para aqueles personagens e para o mundo que está sendo construído ali. A minha opinião sobre um tema pode atravessar o conto, claro, mas ela não pode se sobrepor. Prefiro deixar que os personagens ajam, errem, se contradigam e revelem algo por meio de suas escolhas. A crítica aparece nesse movimento, não como uma explicação externa. O humor também ajuda porque impede que o texto se torne solene demais e, ao mesmo tempo, pode abrir espaço para incômodos mais profundos.


4.⁠ ⁠Os cenários do interior de Minas Gerais e as personagens populares ocupam um lugar importante em Maranhão. De que forma a cultura, a oralidade e as formas de convivência dessas comunidades influenciaram a construção das histórias?

Em cidades menores, como a minha, existem formas de se expressar e costumes muito característicos. Quando eu era pequeno, algumas pessoas ainda perguntavam "Qual é sua graça?" para saber o nome de alguém. Esse tipo de detalhe fica guardado. Criar histórias que se passam em cenários assim, como no caso de "A Invenção do Radinho", me faz recuperar essas memórias para ajudar na construção. Tenho certa facilidade porque é algo que me formou e faço questão de manter comigo.


5. ⁠Ao longo da leitura, o humor frequentemente dá lugar ao desconforto, levando o leitor a questionar suas próprias certezas. Você acredita que a literatura tem um papel importante em desafiar narrativas prontas e estimular um olhar mais crítico sobre a realidade?

Com certeza. Não acho que a literatura, ou a arte como um todo, tenha obrigação de ser isso a todo instante, mas ela é um canal essencial para estimular esse olhar. Quando se lê um livro, há um espaço de encontro entre texto e leitor. O desconforto aparece quando estamos vulneráveis, entregues àquela história. É sinal de que essa relação está funcionando.



SERVIÇO
Livro: Maranhão | Autor: Thiago Barone (@thbarone) | Editora: Patuá Disponível para compra através do link





Thiago Barone nasceu em Pirassununga (SP), em 1986. Estreou na literatura com o livro de poemas Decrescente (Multifoco, 2016), lançado na Bienal do Livro de São Paulo. Desde então, dedica-se à prosa, explorando o realismo, a sátira e a ficção especulativa. Maranhão é seu primeiro livro de contos.






*Taciana Oliveira - Natural de Recife (PE), Bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) com Pós-Graduação em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, atua em direção e produção cinematográfica, criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada, e do Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário “Clarice Lispector - A Descoberta do Mundo”. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023), livro de poemas.