por Taciana Oliveira |
Idealizada pela pedagoga e escritora Maria Cristina Tavares, iniciativa reúne acervo especializado em literatura negra e indígena e celebra seis anos de resistência com ocupação cultural no dia 25 de julho
O que começou como o sonho de reunir livros que raramente chegavam às escolas ou às mãos de professores, famílias e crianças transformou-se em uma das principais referências de literatura étnico-racial em Pernambuco. Criada no fim de 2019 pela pedagoga, mestre em Educação e escritora Maria Cristina Tavares, a Maria Livreira celebra sua trajetória ocupando, pela primeira vez, a Casa da Cultura de Pernambuco, no dia 25 de julho, das 9h às 17h, em uma programação que reúne livros, encontros com leitores e ações voltadas à valorização da literatura negra e indígena.
A data escolhida carrega um significado especial. Em 25 de julho, é celebrado o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e, no Brasil, o Dia Nacional de Tereza de Benguela, liderança do Quilombo do Quariterê. Foi justamente nessa data, em 2020, que Maria Cristina lançou seu primeiro trabalho autoral, o cordel Rainha Tereza de Benguela, criado durante a pandemia, uma alternativa para manter viva a livraria diante da paralisação das atividades presenciais.

Produzido artesanalmente, o cordel foi acompanhado de uma embalagem que trazia um caça-palavras sobre Tereza de Benguela e a importância da data comemorativa. A proposta unia literatura e prática pedagógica, marca que acompanha toda a produção da autora. O lançamento repercutiu rapidamente, ampliando o alcance da Maria Livreira, conquistando novos leitores e garantindo vendas para diferentes Estados do país. A renda obtida ajudou a manter o projeto em funcionamento durante um dos períodos mais difíceis para o setor cultural.
A escrita, que durante anos permaneceu guardada, passou a ocupar espaço definitivo em sua trajetória. Em 2021, Maria Cristina publicou o livro infantil No Quintal da Tia Maria, lançado na Bienal Internacional do Livro de Pernambuco. Anos depois, a obra ganhou uma segunda edição pelo Selo Mirada, experiência que a autora define como um marco em sua caminhada editorial, destacando o cuidado dedicado ao projeto gráfico e à valorização das ilustrações de Érica Silva.
A parceria prosseguiu com a publicação de Cordel África, um continente, As Aventuras de Baiô em Terras Africanas e, mais recentemente, da edição para colorir do mesmo livro, acompanhada de um QR Code que permite ouvir a história narrada pela própria autora.

A origem da Maria Livreira está diretamente ligada à experiência de Maria Cristina enquanto educadora. Durante a graduação em Pedagogia e o mestrado em Educação, ela observou a dificuldade de professores e escolas em acessar obras que contemplassem as histórias e culturas africanas, afro-brasileiras e indígenas, apesar das determinações das Leis 10.639/2003 e 11.645/2008. A livraria nasceu justamente para aproximar esse acervo de educadores, estudantes e famílias, realizando uma curadoria especializada voltada para a educação das relações étnico-raciais.
Segundo a escritora, a literatura tem papel fundamental na construção de identidades positivas, especialmente para crianças negras e indígenas, ao oferecer personagens, histórias e referências que historicamente estiveram ausentes dos livros didáticos e das prateleiras das livrarias.
Ao longo desses quase sete anos, a Maria Livreira consolidou sua atuação em escolas, feiras literárias, universidades e eventos culturais. A iniciativa, no entanto, foi construída em meio a desafios financeiros. Maria Cristina conta que investiu na compra do acervo utilizando cartões de crédito e que, até hoje, continua sustentando parte do projeto com recursos obtidos em outras atividades profissionais. Ainda assim, define sua trajetória como um exercício permanente de "reexistência".
A ocupação da Casa da Cultura representa um novo capítulo dessa história. Selecionada em edital de ocupação cultural com apoio da Fundarpe e do Governo de Pernambuco, a Maria Livreira levará ao público seu catálogo especializado, além das obras da própria autora. Durante todo o dia, os visitantes poderão conhecer o projeto, conversar com Maria Cristina Tavares e adquirir livros com descontos especiais.
A ocupação da Casa da Cultura representa mais um passo na trajetória da Maria Livreira, iniciativa que transformou a curadoria de livros em uma ação permanente de valorização da literatura negra e indígena e de incentivo à formação de novos leitores.
SERVIÇO
Ocupação Cultural – Maria Livreira
Data: 25 de julho de 2026
Horário: das 9h às 17h
Local: Hall principal da Casa da Cultura de Pernambuco – Recife
Entrada: gratuita.
Acesse a Maria Livreira: clica aqui
Redes Sociais