por Carlos Monteiro |

Fotografias de Carlos Monteiro
Paraty não é só FLIP
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| Fotografias de Carlos Monteiro |
Paraty não é só FLIP
Todo mês
de julho, Paraty muda de ritmo. As ruas de pedra passam a ouvir mais palavras
do que passos. Livros ocupam vitrines. Escritores dividem espaço com leitores.
Cafés viram salas de debate. A Festa Literária Internacional de Paraty, a FLIP,
transforma a cidade num grande palco da literatura. É bonito de ver.
Mas
Paraty não é só FLIP. Basta atravessar uma esquina para descobrir que a cidade
continua escrevendo outras histórias, bem antes da primeira mesa literária
começar e muito depois do último aplauso.
Enquanto
um autor fala sobre romances, um artesão trabalha pacientemente a madeira em
sua pequena oficina. Um músico afina o violão para uma roda de choro na praça.
Um pintor expõe telas coloridas diante do casario colonial. Em outro canto, um
grupo de caiçaras conta histórias passadas de pai para filho, sem precisar de
microfone nem de auditório. Essa também é a literatura de Paraty. Só que
escrita sem papel.
O Centro Histórico,
com suas ruas de pedras irregulares, parece um livro aberto. Cada fachada
branca, recortada por portas e janelas coloridas, guarda um capítulo da
história do Brasil. Ali, caminhar devagar não é luxo. É necessidade. As pedras
obrigam o visitante a diminuir o passo. E fazem muito bem.
As
igrejas surgem como pontos de pausa nessa caminhada. A singela Igreja de Santa
Rita, voltada para o mar, talvez seja uma das imagens mais fotografadas da
cidade. A Matriz de Nossa Senhora dos Remédios acompanha silenciosamente o
movimento das marés e das gerações. Cada altar, cada sino, cada parede de cal
branca parece lembrar que Paraty nasceu muito antes das páginas dos livros. E
basta deixar o Centro para que outro cenário apareça.
As
cachoeiras escondidas na Mata Atlântica oferecem um espetáculo diferente. A
água desce limpa pelas pedras, cercada pelo verde intenso da serra. O barulho
da correnteza substitui o das conversas. É um convite ao silêncio.
Perto dali
os antigos alambiques mantêm viva uma tradição centenária. O cheiro da cana
recém-moída, os tonéis de madeira e os pequenos galpões contam uma história de
trabalho e paciência. A boa cachaça artesanal, produzida com técnicas
transmitidas por gerações, tornou-se parte inseparável da identidade de Paraty.
Cada gole carrega um pouco da terra, da água e do tempo.
Durante a
FLIP, muita gente chega à cidade em busca de escritores famosos. Encontra, sem
esperar, músicos nas esquinas, artistas plásticos em ateliês, mestres da
cultura popular, cozinheiras que transformam receitas caiçaras em memória
afetiva e guias que narram a história local como quem conversa com um velho
amigo.
Paraty tem o raro privilégio de
reunir muitas culturas numa mesma paisagem. A literatura encontra a música. A
arquitetura conversa com a natureza. O passado divide espaço com o presente. E
tudo isso acontece sem disputar atenção.
No fim da
tarde, quando a maré invade lentamente algumas ruas do centro histórico e o
casario começa a refletir a luz dourada do sol, entende-se que a cidade jamais
coube em um único evento. A FLIP é uma de suas mais belas páginas, mas está
longe de ser o livro inteiro.
Paraty
continua encantando quando os escritores voltam para casa, quando as tendas são
desmontadas e as luzes dos auditórios se apagam.
Porque
seu maior patrimônio talvez não esteja apenas nas conferências, nos autógrafos
ou nas mesas de debates. Está no conjunto. Nas pedras gastas pelo tempo. Nas
igrejas que atravessaram séculos. Nas cachoeiras escondidas entre a serra e o
mar. Nos alambiques que preservam antigos saberes. Na hospitalidade caiçara. E,
sobretudo, na capacidade de fazer o visitante compreender que algumas cidades
não precisam inventar cultura. Elas simplesmente vivem dela
Carlos Monteiro é fotógrafo, cronista e publicitário desde 1975, tendo trabalhado em alguns dos principais veículos nacionais. Atualmente escreve ‘Fotocrônicas’, misto de ensaio fotográfico e crônicas do cotidiano e vem realizando resenhas fotográficas do efêmero das cidades. Atua como freelancer para diversos veículos nacionais. Tem três fotolivros retratando a Cidade.












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