por Cyda Olímpio |
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| Foto de Jr Korpa na Unsplash |
O Banquete dos Olhos Fechados
Pra que privacidade se ela já está louca e não sabe o que faz? É o que repetem, como um mantra de condenação prévia, as paredes desse corredor. Aqui, as necessidades fisiológicas perderam o pudor porque nos roubaram o direito ao segredo. Urinamos e cagamos de portas abertas. Uma fileira de corpos expostos, uma coletividade de carnes humilhadas sob o escrutínio público de quem detém as chaves. Não há um único e precioso segundo de resguardo. Essa exposição não é descuido: é método. Aqui a arquitetura foi desenhada para o estupro dos olhos, como num matadouro, um álibi perfeito para o sadismo. O diagnóstico de loucura vira uma licença geral para que os "sãos" abusem. Viramos uma vitrine de carne desprotegida para aquelas e aqueles que escancaradamente nos olham com desejo e fúria e, por vezes incontáveis, nos violentam. Homens e mulheres da guarda, portadores da ordem, lambem os beiços. Estamos à mesa para o banquete. Somos o prato principal, servido frio, engolido em silêncio no escuro das celas.
O banheiro não é um cômodo, é uma trincheira de degradação. O chão é uma pasta cinzenta de fluidos antigos, mofo e urina pisada. Pelos cantos, as doenças escorrem convulsivas, em posição de ataque, prontas para saltar sobre a primeira pele que ceder. A amônia arde nos olhos e rasga a garganta. O esgoto volta pelo ralo entupido como um vômito negro, disputando espaço com a água escassa e fria. Não sei mais o que é banhar-me por vontade ou higiene. Sinto o fedor exalando do meu próprio corpo, uma mistura de suor azedo com o mofo do confinamento. Minhas roupas são trapos, aparentes uniformes muito mais parecidos com sacos de farinha costurados grosseiramente, sem tamanho ou simetria. Uma junção malfeita que pinica, causa acessos de espirros desgovernados e só cobre o que não precisa ser coberto nesta geometria da humilhação.
A água só nos toca o corpo de verdade quando a conveniência deles exige; limpam-nos às pressas, num asseio frio e desprovido de cuidado, apenas para que a carne não pareça tão estragada antes de ser servida na mesa dos algozes. É o banho ritual que prepara o prato principal da noite. Preferiria a nudez absoluta ao cinismo dessa limpeza que antecede o banquete. Deixar o vento correr livre pela pele seria a única chance de varrer esse cheiro entranhado em anos de reclusão, minha e das outras que apodreceram aqui antes de mim.
A abstinência não é uma ausência; é uma presença violenta, um bicho de mil dentes que rói os ossos de dentro para fora. Ela me faz ter a certeza de que nas minhas veias o álcool ainda corre mais que o sangue, inflamando cada terminação nervosa. Cientificamente, os médicos de jaleco engomado dizem que meu cérebro grita pelo veneno. Explicam com desdém que os neurotransmissores colapsam sem o anestésico químico, e justificam com termos frios os meus tremores, a taquicardia que parece rasgar o peito e as alucinações térmicas que ora me congelam, ora me incendeiam.
Mas a ciência deles é cega para a verdade poética e brutal: o que ruge aqui dentro é a musa alcoólatra. Ela foi impedida de cantar, teve a garganta amordaçada, e agora se debate furiosa contra as grades da minha costela. Num lampejo autofágico, o desespero vira transe. Sinto uma vontade incontrolável de cravar os dentes nos meus próprios braços, rasgar a pele puída e mastigar a carne até que ela ceda. Quero beber-me sofregamente. Sorver o meu próprio sangue quente e denso para saciar a sede dessa entidade voraz que me habita. Se eles trancaram as garrafas e me negaram o copo, que eu seja, enfim, o gargalo, o veneno e o líquido.
Minhas mãos envelheceram antes do tempo. As unhas estão pretas de sujeira e as palmas em carne viva, esfoladas pelo hábito hipnótico de esfregá-las contra o reboco áspero e fedorento da cela. Vivo em uma contradição torturante: anseio conseguir dormir para esquecer o inferno, mas a minha ansiedade sabota o descanso e me empurra de volta ao atrito. É uma urgência física. Esfregar a pele na pedra é a minha tentativa desesperada de gastar a própria existência enquanto o sono não vem. Se não posso dormir, que eu possa ao menos marcar o tempo, deixando uma impressão digital de sangue e suor na memória dessa parede.
Enquanto me desfaço, olho para o lado de fora e pergunto: onde estão os que amei e os que diziam me amar? Onde está aquela cujas feridas lambi no passado para proteger a casca e ajudar a curar? Ninguém veio. Ninguém bateu à porta do hospício. Dói perceber que quem um dia se deitou no meu peito usou o diagnóstico como escudo para o próprio desamor, carimbando-me com a palavra "louca" só para lavar as mãos e justificar a própria fuga. A lógica social e "sã" é cirúrgica: diante da crise, o mais fácil é isolar o incômodo, transformar o afeto em laudo médico e fingir que eu sempre fui o problema. Ninguém quer a responsabilidade de tratar, de dar afeto, de amar ou cuidar de mecanismo que dizem ter quebrado. É mais conveniente deixar o navio à deriva, sem convés, sem condições mínimas de flutuação, até que o tempo envelheça o casco e não haja mais nenhuma condição de recuo ao porto. O abandono é o verdadeiro manicômio. Fui riscada da lista dos afetos e dos vivos por conveniência dos que continuam fingindo sanidade e crueza lá fora. Deixaram-me envelhecer no escuro, esperando que o peso das palavras que me atiraram faça o trabalho sujo de me apagar por completo.
Cantora, compositora e artista visual, Cyda Olímpio é uma multiartista que desenvolve uma obra que transita entre tradição e contemporaneidade, com forte influência das matrizes afro-brasileiras e da cultura nordestina. É criadora da ópera Ori, com arranjo e direção musical de Jaime Alem, onde integra música, cena e espiritualidade em uma linguagem potente e sensível. Suas composições já foram gravadas por artistas como Jussara Silveira, Socorro Lira, Dicy Rocha e Mariene de Castro, evidenciando a força e a expressividade de sua escrita musical. No palco, Cyda Olímpio apresenta uma performance intensa e ritualística, conduzindo o público por experiências que evocam o sagrado, o feminino e a memória. Enquanto artista visual, desenvolve uma pesquisa dedicada à criação de miniaturas de lugares memorais, obras que investigam as relações entre memória, afeto, patrimônio e pertencimento, transformando pequenas escalas em potentes narrativas sobre o tempo e a experiência humana.


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