por
Adriane Garcia |
Na crítica que a poeta dirige a uma estrutura política abrangente – o patriarcado – o marido surge como símbolo e a esposa como figura central. É no coro das ressentidas que Laura Cohen Rabelo problematiza as relações “de dentro”. Se o patriarcado é uma instância de superestrutura, o marido é seu representante infra, dentro da casa, é a sua engrenagem, o segundo mandatário, vindo a substituir o primeiro: o pai. Fora da casa, a mulher encontra outros tipos de reprodução desse mando – e desse macho – ele está espalhado por todo o mundo público e se manifesta das mais variadas formas: desde as piadas “inocentes” de ridicularização, passando pelas diferenças salariais condicionadas ao gênero, até a construção das leis que retiram das mulheres o direito sobre o próprio corpo. É com comicidade, ironia, sarcasmo que a poeta destrona o marido, tratando-o como ser humano que se arroga o poder, que o toma à força, que usa um figurino de suposta autoridade para oprimir a mulher com quem se relaciona. A comédia, então, passa à tragédia, quando o que se tem envolvido é o grande drama da luta pela vida, pelo direito à existência. Na epígrafe, Laura Cohen Rabelo escolhe versos de Adelaide Ivánova: “sem ficar para ver o resultado será que ele/ morreu? eu eu eu antes ele do que eu”.
O coro dos cidadãos, entrando em cena diversas vezes durante a leitura de Como matar seu marido, anuncia a mediocridade dos machistas, masculinistas e afins, a “brotheragem”, a misoginia, o vazio de argumentação lógica, a linguagem rudimentar, a pobreza emocional e simbólica de alguém que, tendo muito pouco a oferecer, ainda se vê no direito de oprimir a companheira. Orgulhosos de suas qualidades vexatórias, os cidadãos vão ao mundo público – a Internet – por meio das redes sociais, dos vídeos do Youtube, para se solidarizar entre si, trocar dicas sobre comportamento, aparência, autoestima, sexualidade e para pregar suas violências psicológicas, físicas, patrimoniais, existenciais contra as mulheres, arrancando likes, aplausos, seguidores e monetização. No Coro dos cidadãos disfuncionais, em que o os homens discutem sobre ejaculação precoce, a poeta ilumina o breu em que vivem esses seres, incapazes de cuidar da própria vida e totalmente dependentes daquelas que desprezam. Às mulheres que não aceitam a submissão e se revoltam, chamam de putas, vadias, loucas e ressentidas.
No livro intitulado Ressentimento, a psicanalista Maria Rita Kehl nos fala de um conceito geral que será esmiuçado e aprofundado: “Ressentir-se significa atribuir ao outro a responsabilidade pelo que nos faz sofrer. Um outro a quem delegamos, em um momento anterior, o poder de decidir por nós, de modo a poder culpá-lo do que venha a fracassar.” O ressentimento é uma constelação de sentimentos que envolve rancor, desejo de vingança, raiva, maldade, inveja, ciúme, malícia. Porém, o ressentimento gera recalque, uma vingança que só fica no desejo, que se torna eterna reclamação e acusação, mas que não sai disso, envenenando o próprio sujeito que se (re)sente. No Primeiro coro das ressentidas, a poeta nos mostra a mulher que preocupada em não incomodar o marido se submete a todo tipo de humilhação e se compara aos objetos inanimados: “sou sua calça e sua camisa/ não precisa me esfregar é só/ me colocar na máquina/ e seco à sombra ou sol”. Mais à frente, no Segundo coro das ressentidas: “se você sentir vontade de repente/ eu posso ser um poste/ você pode mijar em mim”.
Esse ressentimento sobre o qual os poemas de Como matar seu marido fala, e que pode ser entendido como descritivo e/ou irônico, atravessa o livro, enquanto outras personas líricas trocam o desejo de vingança pela vingança propriamente dita. Para o ressentimento existem duas saídas, o perdão ou a vingança. O ressentido é incapaz das duas ações, ele não quer perdoar nem se vingar de verdade, pois se compraz (goza) em culpar o outro, mantendo sua aura narcísica de bom sujeito, enquanto o outro encarna todo o mal (aqui, é interessante notar que, apesar de haver o coro das ressentidas, os cidadãos se mostram bastante ressentidos contra as mulheres). Não à toa, o ressentido é um eterno passivo lastimador que não age. A persona lírica de Como matar seu marido larga o lugar do ressentimento e vai para a ação. A primeira ação necessária contra o ressentimento ao marido é matar o marido. E assim como ensina a psicanálise freudiana que é preciso matar o pai, como metáfora para a autonomia e a liberdade, a fim de construir a própria identidade, Laura Cohen Rabelo ensina que toda esposa precisa matar o marido, essa figura de autoridade. Como muitos maridos jamais permitirão que isso aconteça, usando da violência para manter a autoridade, caberá às esposas sair da metáfora. Algumas mulheres precisam chegar ao limite de matar o marido literalmente, de forma a salvar sua própria vida e a de seus filhos, não raro violentados para atingir a mãe/esposa.
Ainda em Maria Rita Kehl, lemos que “No ressentimento o tempo da vingança nunca chega. O ressentido é tão incapaz de vingar-se quanto foi impotente em reagir imediatamente aos agravos e às injustiças sofridos. Para que o ressentimento se instale, é preciso que a vítima não se sinta à altura de responder ao agressor; que se sinta fraca ou inferior a ele. (… ) No ressentimento o Outro é representado pelas figuras que, na infância, tinham poder efetivo para proteger, premiar e punir a criança.” Disso, podemos concluir que o ressentimento é um conjunto de emoções que prolifera nas relações verticais. O modelo de casamento conservador patriarcal é um modelo vertical. As parcerias saudáveis só podem se dar horizontalmente, ou não são parcerias, mas modelos hierárquicos em que um manda e outro obedece. Em um dos capítulos de Ressentimento, Maria Rita Kehl se pergunta “se o ressentimento não seria o efeito mais provável produzido em certas condições de opressão nas quais só resta ao sujeito “debater-se em vão sob o aguilhão da autoridade””. Como reagir quando as forças de opressão são objetivas e a desobediência poderia custar a vida da mulher?
Voltando ao Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025, temos números alarmantes de agressões decorrentes de violência doméstica para antes do feminicídio: 84.388 vítimas de estupro e estupro de vulnerável, destas, 87% são mulheres, mais da metade das estupradas tem de 0 a 13 anos. Foram registradas 286.270 agressões físicas contra mulheres, 788.531 ameaças, 132.025 descumprimentos de medidas protetivas, 60.830 denúncias de violência psicológica (essa, logicamente a mais subnotificada de todas). Uma mulher submetida não é, necessariamente, uma mulher ressentida. Uma mulher revoltada e silenciada pode ser apenas uma mulher que, de fato, não encontra meios para sua vingança. É possível que ela tenha matado o marido metaforicamente, que saiba perfeitamente o que ele é, não um rei, mas um energúmeno, um boçal, porém não vislumbre modos de sair viva da relação. A legítima desconfiança das instituições públicas podem fazer com que ela tema dar os passos necessários para a legítima defesa.
Como matar seu marido é um título escandaloso e, infelizmente, parece mais escandaloso do que o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Discutir que uma mulher deva matar o marido e em uma situação limite, matar um homem é sair totalmente da casinha patriarcal em que treinam as mulheres para ficarem de perninhas cruzadas e boquinhas fechadas – não pode falar palavrão e tem que andar de salto alto que é para não conseguir correr. Como matar seu marido é conversa de adultas. O coro dos cidadãos é uma denúncia, um desmascaramento, o coro das ressentidas é uma desmecanização de um modo de agir, o enredo que as personas líricas desenvolvem é um armamento de ideias para matar o poder que oprime as mulheres: do envenenamento à escrita de um livro, Como matar seu marido é cianureto, é uma faca afiada, mas nos ensina que não somos inferiores, que não há deuses, sequer semideuses entre nós, que sair é a grande vingança – quiçá nem entrar! Deixar ir, deixar sumir, nem ao menos pedir as facas de volta.
Embalada na leitura do livro, fui ver neste fim de semana o filme Elise: Sombras de uma mulher. Gostei do filme como não gosto do título. Ao final, concluí que uma das piores coisas que podem acontecer na vida de uma mulher é ela conhecer um homem que precise matar. Laura Cohen Rabelo, a corifeia, se vinga escrevendo um livro que fala de assassinatos simbólicos, assassinatos reais e amor: amor às mulheres e até amor a uma ideia de homem, que só é possível após a morte da figura de autoridade; amor que só uma mulher na plenitude de sua autonomia pode dar, se quiser.
quando uma mulher se casa
é comum que seu marido
se torne dono de sua cabeça
eu queria ir embora
ficar sozinha com minha cabeça
mas ela não me pertence mais
pensei: se minha cabeça se tornar
um problema será
que posso ir embora?
não
quando a cabeça de uma mulher
se torna um problema
melhor cortar
quinto coro das ressentidas
meu amor veja esse laudo médico
ele diz que sou saudável
sou fértil
para obtê-lo tive que pagar por
fora
e então tiraram meu sangue muitas
vezes
examinaram meus mucos enfiaram
em mim o ultrassom mediram
meus ovários e aprovaram
sou apta para a reprodução
portanto posso te dar tantos filhos
quanto você quiser posso gastar
minha vida parindo sem parar
e se te aprouver os médicos
podem costurar dois ou três
pontos em mim para que sua
satisfação ao me meter crianças
não sofra interferência
da largura que vou ficar
quinto coro dos cidadãos
não crie filho de outro homem
isso é a maior burrada
não é questão de vantagem
matemática
mais atenção mais tempo mais sexo
é questão sentimental porra
está com ela porque gosta dela
não porque é vantajoso porra
quando você tomar uma paternidade
socioafetiva
e pagar pensão para o filho dos
outros
aí você muda de opinião
no fim temos que lembrar que nosso
cérebro
odeia se ocupar e gastar energia
portanto
quanto menor a preocupação menor o
estresse
concordo plenamente mas as pessoas
não estão preparadas ainda para
essa conversa
o padrasto sempre será visto com
desconfiança
um filho adotivo que teve tudo do
novo marido
da mãe terá grandes probabilidades
de defenestrar
o pai adotivo que lhe deu de tudo e
abraçar o pai biológico
que nunca lhe deu um cotonete
pretexto para ser ingrato
só isso
a gente se apega à criança
daí um belo dia a doida te chuta
quando tu estava no tempo de escola
quando tu não tinha tanta grana
não tinha bens elas não te pouparam
te cortaram sem dó e escolheram
os vulgo malvadão esses malvadões
engravidaram elas hoje elas querem
um bom homem vai para o inferno
se virem sozinhas homem que se
respeita
não assume essa bucha de canhão
essa cilada
falo com propriedade
mão solteira é fria vazei de uma
faz 5 dias
pesado irmão mas é a pura realidade
verdade são frias man
epílogo
quem ama não mata
não amo
portanto mato
Como matar seu marido
*Laura Cohen Rabelo
Poesia
ed. CEPE
2025
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Laura Cohen Rabelo nasceu e vive em Belo Horizonte. Publicou, entre narrativas longas, contos e poemas, os romances Canção sem palavras (Scriptum, 2017) e Caruncho (Impressões de Minas, 2022), vencedor do Prêmio Academia Mineira de Letras de 2023. É fundadora e professora do projeto Estratégias Narrativas e leciona no curso de pós-graduação em Escrita Criativa da PUC-Minas.
Adriane Garcia, poeta, nascida e residente em Belo Horizonte. Publicou Fábulas para adulto perder o sono (Prêmio Paraná de Literatura 2013, ed. Biblioteca do Paraná), O nome do mundo (ed. Armazém da Cultura, 2014), Só, com peixes (ed. Confraria do Vento, 2015), Embrulhado para viagem (col. Leve um Livro, 2016), Garrafas ao mar (ed. Penalux, 2018), Arraial do Curral del Rei – a desmemória dos bois (ed. Conceito Editorial, 2019), Eva-proto-poeta, ed. Caos & Letras, 2020, Estive no fim do mundo e lembrei de você (Editora Peirópolis), A Bandeja de Salomé ( Caos e Letras, 2023) e Atlas de Anatomia (Caos e letras,2026).




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