Como matar seu marido, de Laura Cohen Rabelo

por Adriane Garcia |

 


Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública registram que em 2025, 1.571 mulheres foram assassinadas no país; destes assassinatos, 62,5% aconteceram dentro da própria casa. Em 96,4% dos casos identificados, o autor era homem; sendo parceiro íntimo em 60,9% das ocorrências e ex-parceiro em 18,9%. Quanto às tentativas de feminicídio, elas subiram 6% e as agressões por violência doméstica cresceram 2,6%. No Anuário relativo a 2026, registra-se que no primeiro semestre já houve 741 feminicídios. Esse é o contexto mais atual, dentro de um contexto histórico patriarcal milenar, em que Laura Cohen Rabelo escreve os poemas de Como matar seu marido. O livro, na forma e na temática, se faz assemelhado às comédias gregas: há prólogo, coro, divisão em partes e epílogo. A poeta trabalha os elementos burlescos e a sátira por meio das situações cotidianas e dos personagens comuns, mas não precisa caricaturar os cidadãos, eles próprios são as caricaturas de si mesmos e é isso que o coro dos cidadãos mostra, constituído de falas retiradas das redes sociais de redpills, incels (que se autodenominam celibatários involuntários), conservadores e esquerdo-machos.

Na crítica que a poeta dirige a uma estrutura  política abrangente – o patriarcado – o marido surge como símbolo e a esposa como figura central. É no coro das ressentidas que Laura Cohen Rabelo problematiza as relações “de dentro”. Se o patriarcado é uma instância de superestrutura, o marido é seu representante infra, dentro da casa, é a sua engrenagem, o segundo mandatário, vindo a substituir o primeiro: o pai. Fora da casa, a mulher encontra outros tipos de reprodução desse mando – e desse macho – ele está espalhado por todo o mundo público e se manifesta das mais variadas formas: desde as piadas “inocentes” de ridicularização, passando pelas diferenças salariais condicionadas ao gênero, até a construção das leis que retiram das mulheres o direito sobre o próprio corpo. É com comicidade, ironia, sarcasmo que a poeta destrona o marido, tratando-o como ser humano que se arroga o poder, que o toma à força, que usa um figurino de suposta autoridade para oprimir a mulher com quem se relaciona. A comédia, então, passa à tragédia, quando o que se tem envolvido é o grande drama da luta pela vida, pelo direito à existência. Na epígrafe, Laura Cohen Rabelo escolhe versos de Adelaide Ivánova: “sem ficar para ver o resultado será que ele/ morreu? eu eu eu antes ele do que eu”.

O coro dos cidadãos, entrando em cena diversas vezes durante a leitura de Como matar seu marido, anuncia a mediocridade dos machistas, masculinistas e afins, a “brotheragem”, a misoginia, o vazio de argumentação lógica, a linguagem rudimentar, a pobreza emocional e simbólica de alguém que, tendo muito pouco a oferecer, ainda se vê no direito de oprimir a companheira. Orgulhosos de suas qualidades vexatórias, os cidadãos vão ao mundo público – a Internet – por meio das redes sociais, dos vídeos do Youtube, para se solidarizar entre si, trocar dicas sobre comportamento, aparência, autoestima, sexualidade e para pregar suas violências psicológicas, físicas, patrimoniais, existenciais contra as mulheres, arrancando likes, aplausos, seguidores e monetização. No Coro dos cidadãos disfuncionais, em que o os homens discutem sobre ejaculação precoce, a poeta ilumina o breu em que vivem esses seres, incapazes de cuidar da própria vida e totalmente dependentes daquelas que desprezam. Às mulheres que não aceitam a submissão e se revoltam, chamam de putas, vadias, loucas e ressentidas.

No livro intitulado Ressentimento, a psicanalista Maria Rita Kehl nos fala de um conceito geral que será esmiuçado e aprofundado: “Ressentir-se significa atribuir ao outro a responsabilidade pelo que nos faz sofrer. Um outro a quem delegamos, em um momento anterior, o poder de decidir por nós, de modo a poder culpá-lo do que venha a fracassar.” O ressentimento é uma constelação de sentimentos que envolve rancor, desejo de vingança, raiva, maldade, inveja, ciúme, malícia. Porém, o ressentimento gera recalque, uma vingança que só fica no desejo, que se torna eterna reclamação e acusação, mas que não sai disso, envenenando o próprio sujeito que se (re)sente. No Primeiro coro das ressentidas, a poeta nos mostra a mulher que preocupada em não incomodar o marido se submete a todo tipo de humilhação e se compara aos objetos inanimados: “sou sua calça e sua camisa/ não precisa me esfregar é só/ me colocar na máquina/ e seco à sombra ou sol”. Mais à frente, no Segundo coro das ressentidas: “se você sentir vontade de repente/ eu posso ser um poste/ você pode mijar em mim”.

Esse ressentimento sobre o qual os poemas de Como matar seu marido fala, e que pode ser entendido como descritivo e/ou irônico, atravessa o livro, enquanto outras personas líricas trocam o desejo de vingança pela vingança propriamente dita. Para o ressentimento existem duas saídas, o perdão ou a vingança. O ressentido é incapaz das duas ações, ele não quer perdoar nem se vingar de verdade, pois se compraz (goza) em culpar o outro, mantendo sua aura narcísica de bom sujeito, enquanto o outro encarna todo o mal (aqui, é interessante notar que, apesar de haver o coro das ressentidas, os cidadãos se mostram bastante ressentidos contra as mulheres). Não à toa, o ressentido é um eterno passivo lastimador que não age. A persona lírica de Como matar seu marido larga o lugar do ressentimento e vai para a ação. A primeira ação necessária contra o ressentimento ao marido é matar o marido. E assim como ensina a psicanálise freudiana que é preciso matar o pai, como metáfora para a autonomia e a liberdade, a fim de construir a própria identidade, Laura Cohen Rabelo ensina que toda esposa precisa matar o marido, essa figura de autoridade. Como muitos maridos jamais permitirão que isso aconteça, usando da violência para manter a autoridade, caberá às esposas sair da metáfora. Algumas mulheres precisam chegar ao limite de matar o marido literalmente, de forma a salvar sua própria vida e a de seus filhos, não raro violentados para atingir a mãe/esposa.

Ainda em Maria Rita Kehl, lemos que “No ressentimento o tempo da vingança nunca chega. O ressentido é tão incapaz de vingar-se quanto foi impotente em reagir imediatamente aos agravos e às injustiças sofridos. Para que o ressentimento se instale, é preciso que a vítima não se sinta à altura de responder ao agressor; que se sinta fraca ou inferior a ele. (… ) No ressentimento o Outro é representado pelas figuras que, na infância, tinham poder efetivo para proteger, premiar e punir a criança.” Disso, podemos concluir que o ressentimento é um conjunto de emoções que prolifera nas relações verticais. O modelo de casamento conservador patriarcal é um modelo vertical. As parcerias saudáveis só podem se dar horizontalmente, ou não são parcerias, mas modelos hierárquicos em que um manda e outro obedece. Em um dos capítulos de Ressentimento, Maria Rita Kehl se pergunta “se o ressentimento não seria o efeito mais provável produzido em certas condições de opressão nas quais só resta ao sujeito “debater-se em vão sob o aguilhão da autoridade””. Como reagir quando as forças de opressão são objetivas e a desobediência poderia custar a vida da mulher?

Voltando ao Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025, temos números alarmantes de agressões decorrentes de violência doméstica para antes do feminicídio: 84.388 vítimas de estupro e estupro de vulnerável, destas, 87% são mulheres, mais da metade das estupradas tem de 0 a 13 anos. Foram registradas 286.270 agressões físicas contra mulheres, 788.531 ameaças, 132.025 descumprimentos de medidas protetivas, 60.830 denúncias de violência psicológica (essa, logicamente a mais subnotificada de todas). Uma mulher submetida não é, necessariamente, uma mulher ressentida. Uma mulher revoltada e silenciada pode ser apenas uma mulher que, de fato, não encontra meios para sua vingança. É possível que ela tenha matado o marido metaforicamente, que saiba perfeitamente o que ele é, não um rei, mas um energúmeno, um boçal, porém não vislumbre modos de sair viva da relação. A legítima desconfiança das instituições públicas podem fazer com que ela tema dar os passos necessários para a legítima defesa.

Como matar seu marido é um título escandaloso e, infelizmente, parece mais escandaloso do que o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Discutir que uma mulher deva matar o marido e em uma situação limite, matar um homem é sair totalmente da casinha patriarcal em que treinam as mulheres para ficarem de perninhas cruzadas e boquinhas fechadas – não pode falar palavrão e tem que andar de salto alto que é para não conseguir correr. Como matar seu marido é conversa de adultas. O coro dos cidadãos é uma denúncia, um desmascaramento, o coro das ressentidas é uma desmecanização de um modo de agir, o enredo que as personas líricas desenvolvem é um armamento de ideias para matar o poder que oprime as mulheres: do envenenamento à escrita de um livro, Como matar seu marido é cianureto, é uma faca afiada, mas nos ensina que não somos inferiores, que não há deuses, sequer semideuses entre nós, que sair é a grande vingança – quiçá nem entrar! Deixar ir, deixar sumir, nem ao menos pedir as facas de volta.

Embalada na leitura do livro, fui ver neste fim de semana o filme Elise: Sombras de uma mulher. Gostei do filme como não gosto do título. Ao final, concluí que uma das piores coisas que podem acontecer na vida de uma mulher é ela conhecer um homem que precise matar. Laura Cohen Rabelo, a corifeia, se vinga escrevendo um livro que fala de assassinatos simbólicos, assassinatos reais e amor: amor às mulheres e até amor a uma ideia de homem, que só é possível após a morte da figura de autoridade; amor que só uma mulher na plenitude de sua autonomia pode dar, se quiser.

 

quando uma mulher se casa

é comum que seu marido

se torne dono de sua cabeça

 

eu queria ir embora

ficar sozinha com minha cabeça

mas ela não me pertence mais

 

pensei: se minha cabeça se tornar

um problema será

que posso ir embora?

 

não

quando a cabeça de uma mulher

se torna um problema

melhor cortar


 

quinto coro das ressentidas

 

meu amor veja esse laudo médico

ele diz que sou saudável

sou fértil

 

para obtê-lo tive que pagar por fora

e então tiraram meu sangue muitas vezes

examinaram meus mucos enfiaram

em mim o ultrassom mediram

meus ovários e aprovaram

sou apta para a reprodução

 

portanto posso te dar tantos filhos

quanto você quiser posso gastar

minha vida parindo sem parar

 

e se te aprouver os médicos

podem costurar dois ou três

pontos em mim para que sua

satisfação ao me meter crianças

não sofra interferência

da largura que vou ficar

 


quinto coro dos cidadãos

 

não crie filho de outro homem

isso é a maior burrada

não é questão de vantagem matemática

mais atenção mais tempo mais sexo

é questão sentimental porra

está com ela porque gosta dela

não porque é vantajoso porra

quando você tomar uma paternidade socioafetiva

e pagar pensão para o filho dos outros

aí você muda de opinião

no fim temos que lembrar que nosso cérebro

odeia se ocupar e gastar energia portanto

quanto menor a preocupação menor o estresse

concordo plenamente mas as pessoas

não estão preparadas ainda para essa conversa

o padrasto sempre será visto com desconfiança

um filho adotivo que teve tudo do novo marido

da mãe terá grandes probabilidades de defenestrar

o pai adotivo que lhe deu de tudo e abraçar o pai biológico

que nunca lhe deu um cotonete

pretexto para ser ingrato

só isso

a gente se apega à criança

daí um belo dia a doida te chuta

quando tu estava no tempo de escola

quando tu não tinha tanta grana

não tinha bens elas não te pouparam

te cortaram sem dó e escolheram

os vulgo malvadão esses malvadões

engravidaram elas hoje elas querem

um bom homem vai para o inferno

se virem sozinhas homem que se respeita

não assume essa bucha de canhão essa cilada

falo com propriedade

mão solteira é fria vazei de uma faz 5 dias

pesado irmão mas é a pura realidade

verdade são frias man

 


epílogo

 

quem ama não mata

não amo

portanto mato

 

 

Como matar seu marido

*Laura Cohen Rabelo

Poesia

ed. CEPE

2025



Compre o livro: clica aqui



Laura Cohen Rabelo nasceu e vive em Belo Horizonte. Publicou, entre narrativas longas, contos e poemas, os romances Canção sem palavras (Scriptum, 2017) e Caruncho (Impressões de Minas, 2022), vencedor do Prêmio Academia Mineira de Letras de 2023. É fundadora e professora do projeto Estratégias Narrativas e leciona no curso de pós-graduação em Escrita Criativa da PUC-Minas.


Adriane Garcia, poeta, nascida e residente em Belo Horizonte. Publicou Fábulas para adulto perder o sono (Prêmio Paraná de Literatura 2013, ed. Biblioteca do Paraná), O nome do mundo (ed. Armazém da Cultura, 2014), Só, com peixes (ed. Confraria do Vento, 2015), Embrulhado para viagem (col. Leve um Livro, 2016), Garrafas ao mar (ed. Penalux, 2018), Arraial do Curral del Rei – a desmemória dos bois (ed. Conceito Editorial, 2019), Eva-proto-poeta, ed. Caos & Letras, 2020, Estive no fim do mundo e lembrei de você  (Editora Peirópolis), A Bandeja de Salomé ( Caos e Letras, 2023) e Atlas de Anatomia (Caos e letras,2026).