Ricardo Aleixo transforma espaço da Academia Mineira de Letras em campo de experimentação



Exposição “Segure a alça do martelo e puxe até romper o lacre” reúne 35 obras do poeta e artista visual e fica em cartaz até novembro

Palavras, imagens, superfícies e elementos arquitetônicos se encontram em “Segure a alça do martelo e puxe até romper o lacre”, exposição de Ricardo Aleixo que será inaugurada nesta quinta-feira (24), às 19h, na Academia Mineira de Letras (AML), em Belo Horizonte. A mostra reúne 35 obras do poeta, escritor e artista visual e poderá ser visitada até 21 de novembro.

Integrante da AML, onde ocupa a cadeira nº 31, Aleixo estará presente na abertura. A programação contará ainda com a performance “Isso qualquer criança faz”, da artista e pesquisadora Natália Alves, criada a partir do texto homônimo do autor. O evento inaugural terá tradução em Libras.

A exposição parte de uma investigação que acompanha há décadas a produção de Ricardo Aleixo: as relações entre corpo, matéria, palavra e espaço. O interesse remonta à infância, quando o artista recortava letras de revistas para observar como elas se comportavam fora das páginas. O gesto antecipa uma característica que permaneceria em seu trabalho: retirar palavras e imagens de seus lugares habituais para experimentar outras possibilidades de leitura e percepção. Na nova mostra, essa pesquisa se estende às relações entre matéria, forma, tempo e circunstância. Aleixo, que também assina a curadoria, considera a própria seleção e disposição das obras parte do processo artístico. “O que faço, sempre, por temperamento e por opção consciente, é tentar alterar as dinâmicas desses espaços, ao mesmo tempo em que me deixo afetar por eles”, afirma.

O espaço também participa da exposição

A ocupação da Academia Mineira de Letras não se limita às áreas tradicionalmente destinadas à exibição de obras. Bordas, cantos, quinas, pisos, tetos, vidros, escadas e portas são incorporados à experiência, chamando atenção para elementos arquitetônicos que frequentemente passam despercebidos pelo visitante. O próprio título da exposição ajuda a compreender esse deslocamento. A frase “Segure a alça do martelo e puxe até romper o lacre”, originalmente uma instrução prática, é retirada de seu contexto e ganha outro sentido.

Quando tomou posse da cadeira nº 31, em 2024, Aleixo ouviu do presidente emérito da instituição, Rogério Faria Tavares, que “a casa de Alphonsus de Guimarães passava a ser, também, a casa de Ricardo Aleixo”. O artista decidiu tomar a afirmação “ao pé da letra, ou quase”. A partir dela, concebeu uma exposição que e cria uma relação entre seu ateliê, instalado na casa onde vive, no bairro Campo Alegre, e a sede da Academia. O trânsito entre o ambiente doméstico de criação e o espaço institucional passa, assim, a integrar a própria concepção da mostra.

Poeta conhecido pela experimentação com a palavra, a voz, o corpo e a performance, Aleixo leva essa mesma disposição para as artes visuais. A exposição não se restringe às obras apresentadas: o modo como elas ocupam a Academia e modificam a percepção do visitante sobre o imóvel também faz parte da experiência.

A iniciativa integra o Plano de Atividades da Academia Mineira de Letras 2025, realizado por meio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura da Prefeitura de Belo Horizonte, com patrocínio da Unimed-BH.




Ricardo Aleixo é poeta, escritor, artista visual, performador e pesquisador das poéticas intermídia, é doutor em Letras pela UFMG. Tem 23 livros publicados. Já se apresentou em quase todos os estados brasileiros e em 10 países. Foi pesquisador visitante da NYU/New York University entre setembro de 2024 e junho do ano em curso. É professor visitante da UFBA/Universidade Federal da Bahia. Mantém, no bairro Campo Alegre, região norte de Belo Horizonte, o LIRA/Laboratório Interartes Ricardo Aleixo, seu espaço de criação, pesquisa e guarda de acervos sobre a vertente experimental da arte brasileira e as culturas da Afro-Diáspora. Ocupa a cadeira de nº 31 da Academia Mineira de Letras.