Eclipse Rio | Carlos Monteiro

 
















Fotografias de Carlos Monteiro

Eclipse Rio

O Rio dormiu naquela madrugada. Ou quase. Porque havia uma lua lá fora pedindo para ser vista.

Na madrugada do dia 28, a Cidade Maravilhosa ganhou um céu diferente. Por alguns instantes, o cotidiano perdeu a pressa. As janelas se abriram. Os olhos procuraram o alto. Câmeras apontaram para o firmamento. E o carioca, acostumado a fotografar o mar, as montanhas e o pôr do sol, descobriu que também havia beleza acontecendo muito acima do cartão-postal. A Lua, lentamente, vestiu outra cor. Como se uma sombra delicada atravessasse sua face. Como se o céu tivesse colocado um filtro sobre a noite.

E o fotógrafo, diante daquele espetáculo, pouco podia fazer além de contemplar. Porque há momentos em que a fotografia é apenas uma tentativa de guardar o que os olhos já sabem que jamais conseguirão explicar. Lá embaixo, o Rio. Silencioso. O Cristo Redentor recortado na escuridão. O Pão de Açúcar, quase uma silhueta. A Baía de Guanabara refletindo pequenos pontos de luz. Prédios acesos. Uma ou outra janela insone. Lá em cima, o Universo. Imenso. Antigo. Indiferente às nossas pequenas urgências. O eclipse talvez tenha servido para isso: lembrar nossa dimensão. Ou melhor, nossa falta dela.

Somos pequenos demais. Minúsculos. Passageiros. Enquanto discutimos o trânsito, o relógio, as contas, os amores que chegam e os que partem, estrelas continuam nascendo e morrendo a distâncias que a nossa imaginação não alcança. Galáxias se movem. Mundos giram. A Via Láctea nos envolve como uma gigantesca espiral de luz. E nós? Nós apenas olhamos. Pequenos pontos sobre uma cidade iluminada. Para alguns, há misticismo. Há quem veja no eclipse sinais. Portais. Presságios. Uma conversa secreta entre o céu e a Terra. Outros preferem a ciência. Os cálculos. As órbitas. A precisão quase perfeita dos movimentos celestes.

Mas, diante da beleza, talvez essas diferenças pouco importem. O fenômeno é para todos. A beleza é unânime. O céu não pergunta no que acreditamos antes de nos oferecer um espetáculo. Ele simplesmente acontece. E naquela madrugada aconteceu sobre o Rio. Talvez seja essa uma das grandes magias desta cidade: poder olhar para cima e encontrar, entre montanhas e edifícios, uma janela para o infinito.

O carioca costuma dizer que mora numa cidade maravilhosa. Naquela noite, por alguns minutos, percebeu que a maravilha era ainda maior. O Rio estava aqui. A Lua estava ali. E, entre os dois, uma imensidão. Um silêncio. Uma fotografia. O eclipse terminou. A Lua voltou a iluminar a noite. As pessoas fecharam as janelas. As câmeras foram guardadas. A cidade retomou seus ruídos. Mas alguma coisa ficou. Talvez a sensação de que somos apenas passageiros nesta imensa Via Láctea que nos rodeia. Pequenos diante do universo. Gigantes, porém, quando conseguimos parar por alguns minutos para contemplá-lo. E, naquela madrugada, sob o céu do Rio, foi exatamente isso que fizemos. Paramos e olhamos.

 



Carlos Monteiro é fotógrafo, cronista e publicitário desde 1975, tendo trabalhado em alguns dos principais veículos nacionais. Atualmente escreve ‘Fotocrônicas’, misto de ensaio fotográfico e crônicas do cotidiano e vem realizando resenhas fotográficas do efêmero das cidades. Atua como freelancer para diversos veículos nacionais. Tem três fotolivros retratando a Cidade.