por *Taciana Oliveira |
Em narrativa breve, autora imagina um Brasil que passa a enxergar apenas uma cor para discutir medo, desinformação e fabricação de inimigos
Em narrativa breve, autora imagina um Brasil que passa a enxergar apenas uma cor para discutir medo, desinformação e fabricação de inimigos
“Um dia tudo amanheceu vermelho no Brasil.” É a partir dessa situação insólita que Luiza Conde desenvolve Vermelho, publicado em 2026 pela Hecatombe, selo da Editora Urutau, na coleção Patriota made in. De uma hora para outra, as pessoas que estavam no país passam a enxergar tudo em tons de vermelho, enquanto, fora das fronteiras brasileiras, o mundo permanece multicolorido. O fenômeno nunca é explicado — e essa ausência de resposta é fundamental para a narrativa. Primeiro surgem o medo e a suspeita de uma nova doença; depois, proliferam diagnósticos, promessas de cura e informações falsas. Quando a ciência não consegue oferecer respostas na velocidade desejada pela população, entram em cena aqueles que o livro chama de “os patriotas”.
São eles que transformam o vermelho em instrumento político. A cor é associada a inimigos ideológicos, enquanto soluções perigosas são apresentadas à população. Robôs e algoritmos ajudam a difundir mensagens, e a procura por culpados alimenta perseguições contra diferentes grupos sociais, além de artistas, professores e universidades. A sátira de Luiza Conde se torna ainda mais contundente quando o medo perde força. Com o passar do tempo, o vermelho deixa de ser entendido como doença e se incorpora ao cotidiano. As pessoas aprendem a conviver com a nova condição e começam até a reconhecer beleza nos diferentes tons que passaram a dominar sua visão.
É então que os mesmos “patriotas” mudam de posição. Aquilo que antes representava uma ameaça passa a ser apresentado como símbolo do Brasil. Eles chegam a afirmar que sempre defenderam o vermelho, reescrevendo o próprio passado para preservar sua posição de poder. Nesse movimento está uma das ideias mais fortes do livro: o inimigo pode mudar conforme a conveniência de quem necessita dele. O vermelho não possui um significado fixo. Pode representar doença, ameaça, ideologia ou patriotismo, dependendo de quem controla a narrativa naquele momento.
Essa lógica reaparece quando surge um rapaz que, apesar de estar no Brasil desde o início do fenômeno, continua enxergando todas as cores. Sua diferença passa rapidamente a incomodar. Os “patriotas” o acusam de mentiroso e agitador e começam a defender que a bandeira brasileira jamais deixe de ser vermelha , exatamente o contrário do que afirmavam anteriormente.
Ao recorrer ao humor e ao insólito, Vermelho fala de um mecanismo bastante reconhecível: a transformação do medo em ferramenta política e a manipulação dos sentidos atribuídos à realidade. Luiza Conde mostra como discursos podem mudar radicalmente sem que alterem seus objetivos: produzir inimigos, alimentar divisões e conservar poder. Mas, ao tentarem novamente mobilizar a população contra alguém apresentado como diferente, os patriotas não percebem que alguma coisa mudou: “o povo, dessa vez, estava cansado de patriotas”.
Em apenas 20 páginas, Vermelho deixa uma pergunta que ultrapassa sua distopia cromática: quem decide o significado daquilo que vemos — e o que acontece quando aceitamos que alguém decida por nós?
Título: VermelhoAutor: Luiza Conde
Número de páginas: 20
Preço: R$ 48
ISBN: 978-65-6035-053-3
Editora: Editora Urutau
Ano: 2026
Compre o livro: clica aqui
![]() |
| Foto: Charles Pereira |
Luiza Conde nasceu no Rio de Janeiro em 1989. É formada em Letras: Português e Russo pela UFRJ, e mestranda pelo Programa de Pós-Graduação em Literatura, Cultura e Contemporaneidade da PUC-Rio. Na literatura, é autora da plaquete Vermelho (Editora Urutau, 2026) e do livro Relógios Partidos (Editora Litteralux, 2024). No teatro, é autora da peça Memórias da Superfície (Teatro Municipal Ziembinski, 2025) e da performance Marinheiras (Teatro Municipal Domingos Oliveira, 2025).
*Taciana Oliveira – Natural de Recife (PE), é bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, diretora e produtora cinematográfica, é criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada Janela Cultural, além de coordenar o Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário Clarice Lispector – A Descoberta do Mundo e integra a direção do longa-metragem de ficção O Rio de Clarice, no qual assina o segmento Amor. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023), livro de poemas.

.jpg)
.png)
Redes Sociais