De uma a outra ilha, de Ana Martins Marques | Resenha de Adriane Garcia


De uma a outra ilha
, de Ana Martins Marques


Em Safo: Fragmentos completos, o tradutor Guilherme Gontijo Flores nos fala de uma “poética do fragmento tradutório”. Da poesia de Safo (séc.VII e VI a.C) restam-nos papiros em precário estado de conservação, poemas inscritos em cerâmicas recuperadas, citações feitas, séculos após a morte de Safo, por poetas, pensadores e filólogos antigos. Sendo uma poesia oral, musicada, performada, dela perdeu-se todo o registro da música e da performance, restando o poema escrito, na maioria das vezes, em frangalhos. É das lacunas, do silêncio misterioso que ocupa o lugar outrora das palavras (e da música), que o tradutor (também poeta) propôs uma poética. 

O poemário de Ana Martins Marques, intitulado De uma a outra ilha, dialoga diretamente com os versos, palavras, lacunas, silêncios de Safo. As referências são tanto a tradução de Guilherme Gontijo Flores quanto a de Anne Carson, entre outras, todas citadas ao final da plaquete. De uma a outra ilha pode ser lido como um poema longo ou como vários poemas apartados, unidos por seu tema. Nisso, há muita coerência formal, à maneira de ilhas compondo um arquipélago. A ideia de estilhaçamento perpassa o projeto, cujo fio invisível que tudo liga é a intervenção de Ana Martins Marques, em um exercício arqueológico, de desvendamento das camadas sobrepostas. Não à toa, a poeta faz, por exemplo, versos das árvores fossilizadas, restos, fragmentos da história do que fora uma floresta, do tempo. Aos artefatos antigos encontrados (em um sentido arqueológico), ela soma artefatos atuais que, um dia, da mesma forma, serão sobrepostos, podendo ser encontrados ou desaparecer. Na matéria dos versos se somam notícias de jornais, comentários de viajantes em sites especializados e curiosidades de Wikipedia. É a poeta belorizontina que encontra o elo entre a ilha de Lesbos da Antiguidade e a ilha de Lesbos contemporânea. No título, a preposição, um simples “a”, assume a maior importância semântica; é a ponte que a poeta estabelece para nos levar de uma ilha a outra e, principalmente, de um tempo a outro.


Geograficamente a Ilha de Lesbos ainda é a mesma; Safo, pelas poucas fontes primárias que se têm de sua biografia, teria ido de uma a outra ilha, exilada na Sicília por motivos políticos. Passados milênios, temos hoje a Ilha de Lesbos, que de berço da poeta clássica, passou a ganhar manchetes como “a ilha do desespero”, no contexto de crise migratória que desafia a Europa e o mundo. Há também a ilha que é a pessoa que escreve e a ilha que é a pessoa que lê. Dessas separações, De uma a outra ilha faz um conjunto, melhor dizendo, faz uma interseção poética, em que a própria forma com a qual os versos sáficos nos chegaram (vestígios, destroços, lacunas, sugestões) se transforma em exercício formal da poeta Ana Martins Marques: uma metalinguística que busca na analogia sua abundante figura de linguagem. Nesse sentido, a própria concepção do poemário, seu projeto, se dá como analogia, poemas também sem começo ou sem fim, também fragmentários, também lacunares, utilizando sinais gráficos que as traduções introduziram no corpo poético de Safo. De uma a outra ilha intercala a poesia de duas poetas, se não, de três, pois envolve as traduções referenciadas. A leitura de De uma a outra ilha nos remete à sensação de ler um papiro rasgado: eis a poética do fragmento.

A poesia sáfica e tudo o mais sofreram transformações, isso nos diz a poeta contemporânea e os tradutores de Safo. Ao colocar a tragédia humana que envolve os refugiados como denúncia em contraponto à ilha que foi habitada pela poesia e pelas divindades, Ana Martins Marques nos provoca a reflexão sobre o tempo circular, da Antiguidade e o tempo linear e apocalíptico contemporâneo. Se nossa linha temporal, chamada “progresso”, nos leva ao horror o poema pode ser uma espécie de pausa no horror por nos remeter ao tempo circular e à suspensão que nos causa a beleza. De uma a outra ilha reafirma a conhecida capacidade de Ana Martins Marques produzir beleza com palavras, trazendo versos de compaixão e de profundo amor à poesia, à linguagem, à memória, à Safo, à humanidade e aos Direitos Humanos. O milagre, concluímos, é deixar rastros onde se opera tanta destruição. No meio da beleza — e por causa dela —, a poeta nos assusta: um alaranjado fluorescente cobre o solo de Lesbos. Os coletes salva-vidas e a poesia indagam sobre os nossos fracassos.


A ilha é verde

esmeralda


Nos botes

os emigrantes sonham

calçar a relva tenra

com seus pés molhados


queimam de desejo

e anseiam por [ ]


como queimou o campo

de refugiados de Moria

o mais insalubre da Europa

que chegou a abrigar mais de 12 mil imigrantes,

quatro vezes mais que sua capacidade declarada,

incluindo 4 mil crianças e adolescentes


— em março de 2019, uma menina morreu

em um contêiner queimado

em setembro, duas pessoas morreram

em um incêndio


— onde estão 

após abandonar 

a terra onde nasceram

ou após terem sido

abandonados por ela

tendo ela ido embora dizendo

como a virgindade a Safo:

Nunca mais voltarei para ti, nunca mais


*


Como uma abelha atraída

pelas flores pintadas

num pano de prato

como alguém que busca a pátria

e encontra o acampamento

(ou como alguém que tenta

escrever um poema

como se o copiasse de um papiro rasgado em dois

ou crivado de buracos ou menor

que um selo postal)


*


Pense no que vai ficar 

guardado para o futuro

talvez não os decretos

não os acordos

não os despachos

não os pedidos de asilo

não os vistos de trabalho

negados

mas trechos de um poema

displicentemente copiado

por um colegial distraído

a foto de uma pilha

de coletes salva-vidas


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De uma a outra ilha

*Ana Martins Marques

Poesia

Círculo de Poemas

2023


Ana Martins Marques nasceu em Belo Horizonte, em 1977. Graduada em Letras, com Doutorado em Literatura Comparada pela UFMG, é autora, entre outros, de A vida submarina (2009), Da arte das armadilhas (2011, Prêmio da Fundação Biblioteca Nacional), O livro das semelhanças (2015, Prêmio APCA), O livro dos jardins (2019) e Risque esta palavra (2021, Prêmio APCA).





Adriane Garcia, poeta, nascida e residente em Belo Horizonte. Publicou Fábulas para adulto perder o sono (Prêmio Paraná de Literatura 2013, ed. Biblioteca do Paraná), O nome do mundo (ed. Armazém da Cultura, 2014), Só, com peixes (ed. Confraria do Vento, 2015), Embrulhado para viagem (col. Leve um Livro, 2016), Garrafas ao mar (ed. Penalux, 2018), Arraial do Curral del Rei – a desmemória dos bois (ed. Conceito Editorial, 2019), Eva-proto-poeta, ed. Caos & Letras, 2020, Estive no fim do mundo e lembrei de você  (Editora Peirópolis), A Bandeja de Salomé ( Caos e Letras, 2023) e Atlas de Anatomia (Caos e letras,2026).