por Taciana Oliveira |
Romance de estreia do escritor carioca combina fluxo de consciência, filosofia e referências literárias para abordar isolamento, medo da rejeição e dificuldades de comunicação
Romance de estreia do escritor carioca combina fluxo de consciência, filosofia e referências literárias para abordar isolamento, medo da rejeição e dificuldades de comunicação
Uma queda de energia deixa um apartamento no escuro e impede que um e-mail seja enviado. A partir desse acontecimento cotidiano, o escritor carioca Max Leite desenvolve Bala perdida na noite, romance publicado pela editora Minimalismos. O episódio desencadeia uma narrativa sobre isolamento, relações afetivas e os limites entre aquilo que acontece e o que é criado ou distorcido pela mente. O protagonista é um jornalista e aspirante a escritor que, em meio ao breu, mergulha em um fluxo de consciência alimentado pelo silêncio de Mônica, sua companheira. O medo de que a ausência de resposta signifique o fim da relação conduz a lembranças e episódios recentes, enquanto sua caminhada pelo apartamento avança paralelamente por esse território interior.
A falta de luz também funciona enquanto metáfora para a dificuldade de comunicação em uma sociedade permanentemente conectada. O romance aborda os vínculos afetivos contemporâneos e as inseguranças provocadas por relações que, muitas vezes, se desenvolvem sob a mediação das redes sociais e dos aplicativos. Experiências do próprio autor com aplicativos de relacionamento contribuíram para a criação da obra. “Deixei minhas experiências e percalços com os aplicativos de relacionamento e o que passa por romance nos nossos tempos serem sublimados na escrita”, conta Max.
A literatura e a filosofia participam desse universo. Franz Kafka e Fernando Pessoa estão entre as principais referências do escritor, enquanto questões filosóficas aparecem desde as epígrafes. No prefácio, Márwio Câmara destaca a ironia e a metaficção presentes no romance e sua reflexão sobre o lugar da literatura diante do utilitarismo e das performances digitais.
Nascido no Rio de Janeiro em 1987 e residente em Petrópolis, Max Leite é escritor, tradutor e revisor. Graduado em Letras e pós-graduado em Língua Inglesa e suas Literaturas, atualmente cursa Filosofia na Universidade Católica de Petrópolis. Antes do romance, publicou o conto Antes do pôr do sol, teve um soneto selecionado para a coletânea Sonetos do Selo Off Flip e escreveu resenhas para o portal HomoLiteratus.
Para falar sobre a criação de Bala perdida na noite, as relações afetivas na era dos aplicativos, os diálogos entre literatura e filosofia e sua estreia no romance, a Mirada Janela Cultural conversou com Max Leite. Confira, a seguir, a entrevista com o autor.
1. A escuridão que toma o apartamento parece alcançar também a subjetividade do protagonista. Como surgiu a ideia de transformar a falta de luz em um elemento capaz de revelar seus medos, memórias e inseguranças?
A ideia surgiu como surgem todas as ideias, do mosto de vivências e leituras que está sempre fermentando aqui dentro. Podemos chamar de inspiração.
A noite, como elemento relevante, já é usada na literatura desde muito; é só lembrar do poema mais famoso de Poe; no caso do meu romance, o breu, mais do que apenas revelar a vida interior do protagonista, deflagrando uma série de lembranças e pensamentos involuntários, age como cenário e inclusive personagem, em constante diálogo com ele, desafiando-o a cada momento, engolindo a realidade exterior tão concreta e certa até então e evidenciando sua fragilidade como verdade absoluta. O que existe quando o entorno é apagado? O que fala quando tudo em volta silencia?
Essas sempre foram perguntas que me interessaram.
2. O romance aborda a dificuldade de comunicação em uma sociedade permanentemente conectada. Na sua visão, a hiperconexão modificou nossa maneira de lidar com o silêncio, a espera e, principalmente, com o medo da rejeição nas relações amorosas?
Com certeza; esse, inclusive, é o tema de um artigo que estou escrevendo. Antes do advento da Internet ou mesmo nos primórdios dela, a comunicação a distância não era nem de longe tão instantânea quanto atualmente, nem tinha como ser. Mesmo com o telefone, se você precisava (e note-se que não disse queria) falar com alguém, essa era uma tarefa mais trabalhosa e menos imediata; hoje em dia qualquer pensamento está a poucos deslizes dos nossos dedos de ser compartilhado com o mundo. Essa não tão aparente disponibilidade infinita torna quase inconcebível a possível ausência ou mesmo demora de uma resposta. Como a pessoa não viu a mensagem se todos estão sempre com o celular na mão como se disso dependessem suas vidas? E o aparelho ainda faz questão de chamar nossa atenção diante de qualquer tentativa de contato. Não, não há como escapar: se não chegou resposta, é porque a pessoa não quis responder. Porém quantas explicações diferentes o silêncio não pode gestar?
3. Na sua obra, as fronteiras entre realidade, memória e imaginação se tornam pouco nítidas. Como essa ambiguidade participa da construção do protagonista e da maneira pela qual o leitor passa a interpretar aquilo que é narrado?
Na verdade, esse entrelaçamento entre o “real” e o “fictício” se desenvolveu naturalmente e até em certa medida inesperadamente durante a escrita da obra. Claro que, pela própria natureza da ideia central do romance, eu já esperava que os limites entre essas duas instâncias ficassem um tanto difusos; no entanto, a intensificação chegou a níveis que me tomaram de assalto, assim como ao protagonista. O que eu espero é que a narrativa leve o leitor a parar de buscar essas fronteiras, ou ao menos a questioná-las.
4. Kafka e Fernando Pessoa estão entre as principais referências literárias de Bala perdida na noite, enquanto sua formação em Filosofia também se reflete na obra. De que maneira essas influências participam da construção do romance e da sua própria maneira de pensar a literatura?
Essa é uma pergunta difícil de responder, já que a maior parte do trabalho das influências se dá no nível abaixo da consciência. A praia onde eu ficava todas as manhãs nas primeiras semanas de escrita, a vista que eu tinha da rede em que passava as tardes, onde estava hospedado, a própria rede e seu balançar, tudo pode ter tido tanto ou até mais poder de influência sobre as palavras escolhidas a cada linha que os autores mencionados ou minha atual formação acadêmica. Quem conhece de fato os motores do fazer artístico? O que posso dizer é que, do Kafka, gosto especialmente do modo como ele revela o absurdo escondido sob o véu do costume; já de Pessoa amo acima de tudo sua capacidade de extrair metafísica das aparentes banalidades. Sabe aquela frase atribuída ao Ralph Waldo Emerson? Não lembro dos livros que li ou das refeições que comi, mesmo assim, eles me fizeram quem eu sou.
5. No prefácio, Márwio Câmara destaca a metaficção e a reflexão sobre o lugar do escritor em um país onde a literatura disputa atenção com o utilitarismo e as performances digitais. De que maneira seu livro também expressa suas próprias inquietações sobre escrever e publicar literatura no Brasil?
Eu sempre soube que seria escritor, porém minhas ilusões quanto a viver disso no Brasil morreram quase recém-nascidas. Hoje em dia até posso dizer que vivo de escrita – e leitura – por meio da tradução, mas com certeza não de literatura, já que traduzo majoritariamente textos técnicos. Entretanto muito mais do que ter a escrita de ficção como fonte de renda, ouso dizer que o que a maioria dos escritores brasileiros quer é ser lida, é algum tipo de reconhecimento não monetário mesmo, e creio que as inquietações (minhas inclusive) provêm mais daí do que de qualquer outra coisa. Acho que o meu livro – assim como todo livro escrito por alguém com sentimentos e preocupações similares – atua, por sua mera existência, como uma revolta silenciosa a esse estado de coisas, como uma resistência anacrônica a tudo e todos que insistem em levar e ser levados pelo que o status quo continua categorizando como progresso, como pilares solitários que ainda tentam manter a estrutura em pé diante da enchente que busca a todo custo colocar o prédio abaixo.
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*Taciana Oliveira – Natural de Recife (PE), é bacharel em Comunicação Social (Rádio e TV) e pós-graduada em Cinema e Linguagem Audiovisual. Roteirista, diretora e produtora cinematográfica, é criadora das revistas digitais Laudelinas e Mirada Janela Cultural, além de coordenar o Selo Editorial Mirada. Dirigiu o documentário Clarice Lispector – A Descoberta do Mundo e integra a direção do longa-metragem de ficção O Rio de Clarice, no qual assina o segmento Amor. Publicou Coisa Perdida (Mirada, 2023), livro de poemas.

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